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Julieta e o silêncio que ensurdece

Conversando com alguns amigos sobre Julieta (2016), nova realização de Pedro Almodóvar e selecionada para o Festival de Cannes deste ano, chegávamos sempre a mesma conclusão: a realização menos inspirada do espanhol ainda será um filme muito mais complexo e interessante do que qualquer realização de algum cineasta mediano que apresente surpreendentemente um bom trabalho. E Julieta é exatamente isso. Não é um Almodóvar que avança na linguagem e narrativa ao compararmos com seus filmes anteriores. É uma realização cômoda, nada febril e dentro de uma zona de conforto do realizador. Reforçando as características de seu cinema, o cineasta parte das relações familiares dando importância, como sempre, à maternidade.

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Com uma riqueza plástica e repleta de metáforas através da direção de arte e fotografia, o diretor constrói a história de sua personagem-título, uma mulher que parece esconder um grande trauma no passado. Enquanto organiza sua mudança e saída de Madrid junto do namorado, Julieta esbarra em uma amiga de infância de sua filha, da qual nem sabíamos da existência. É visível seu incômodo, como se fosse confrontada com algum tipo de assombração. Esse baque repentino abre as comportas de um passado que ela havia fechado e selado para nunca mais visitar. Mãe e filha já não se falam há anos e esse reencontro com uma memória antes esquecida pulsa como uma nova esperança, um sinal divino para que ela não abandone a cidade. A nostalgia consome Julieta a tal ponto que ela decide voltar a viver no prédio em que criou sua filha para, de alguma forma, esperá-la. No local,  lhe resta organizar os pensamentos e colocar a limpo toda a sua história com a filha através de uma longa carta que molda toda a narrativa do filme.

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A trama tem inspiração no livro Fugitiva, da escritora canadense Alice Munro. São três contos presentes na edição e que ficam transpostos no filme como três atos: Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio. Tanto que o título do último conto era o título original do longa do espanhol, mas para não competir com o do novo filme de Martin Scorsese, Almodóvar optou por batizar com o nome de sua protagonista, nada mais adequado, porém, ainda assim é o silêncio que permeia a produção. Mesmo que de uma maneira menos literal esteticamente.

Ao falar sobre incomunicabilidade no âmbito familiar, Almodóvar  não silencia Julieta, muito pelo contrário. A personagem é dona de uma voz poderosa dentro da história através da narração de sua carta. É ela quem nos guia. Tanto que em alguns momentos chega a ser uma intromissão.

As consequências da falta de diálogo, do silêncio entre mãe e filha, é tamanha que configura marcas que não cicatrizam facilmente. Existe um sentimento de culpa por esse distanciamento que de maneira progressiva e muito característica de Almodóvar, vamos descobrindo o porquê. A taciturnidade que acompanha o filme e as personagens trazem em si um silêncio que ensurdece as relações. Com a separação abrupta que a filha busca, Julieta aos poucos anula a existência de sua prole. É como uma vida que nunca existiu, um passado anulado.

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Ao passo que a narrativa vai e volta com a narração de Julieta, a direção de arte, através dos cenários e figurinos primorosos, utiliza das cores primárias para refletir a simplicidade de sentimentos ou, com entrada das cores secundárias e tons pastel, parte para a complexidade da trama e externa o psicológico conturbado de seus personagens no momento.

Dentre tantos efeitos para refletir o tempo e a psicologia da trama, o diretor coloca em cena uma de suas mais sutis e lindas cenas através de uma elipse temporal de anos quando a filha seca os cabelos de uma Julieta arrasada pela depressão. É o auge de Almodóvar em Julieta. É o máximo de seu experimento com a linguagem na produção. Por mais simples que pareça, é, como comentou-se anteriormente, um grandioso momento. Simples e belo.

Protagonizado por duas grandiosas atrizes, Adriana Ugarte e Emma Suárez, que interpretam Julieta em duas fases, o filme conversa com outros selecionados do Festival de Cannes, em especial o brasileiro Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho. Ambos trazem a memória como um propulsor de força assombrosa através de grandes mulheres. A “viagem ao tempo” através das lembranças. Almodóvar retoma aqui, mais uma vez, as características do seu cinema  em um dos seus filmes mais femininos. As mulheres, as cores de Almodóvar, os homens coadjuvantes e passivos ou brutos, a trama que aos poucos se revela e o humor sutil estão lá. Se o baque e o impacto faltam, sobre em inteligência e sensibilidade.

 

Por Renato Cabral

Mestrando em Estudos de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Portugal. É graduado em Cinema e Animação pela UFPel e editor do Calvero. É membro da ABRACCINE - Associação de Brasileira de Críticos de Cinema e da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.

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