Críticas

Judy e o ressurgir das cinzas

// 27 de outubro de 2019 // , , , , , ,

Cinebiografias vem e vão ao longo dos anos e são muitas a causarem reações mistas por parte do público e da crítica. Muito dos erros são ocasionados por fatos esquecidos ou não-lineares sobre o cinebiografado. Tudo em prol de atender as necessidades dramáticas da narrativa fílmica. Afinal, a vida apesar de inspirar cinema, não é cinema. Mas um cuidado histórico é necessário sempre. Existem outros erros como também a dedicação pela busca em retratar a totalidade da vida do personagem, algo como a vida e morte, e assim concluir de maneira até mesmo moralista a narrativa. O grande acerto é fazer o contrário de tudo acima? Nem sempre. Mas são sugestões interessantes que despertam para as cinebiografias. Algumas propostas diferenciadas e necessárias a um sub-gênero cinematográfico tão sem energia artística ultimamente.

Judy (2019) a mais recente cinebiografia de um período cheio delas – figuram o excepcional Rocketman (2019) e o desnecessário Bohemian Rapsody (2018) – se propõe analisar os últimos meses de vida do ícone norte-americano Judy Garland. Cantora e também atriz, ela viveu uma jornada repleta de altos e baixos. Foi uma das primeiras estrelas a crescer frente aos olhos do público e a se tornar uma das grandes atrizes da MGM sob o olhar paternal, mas também abusivo de Louis B. Mayer (seria o Harvey Weinstein de seu tempo?). Garland enfrentou vícios diversos, casamentos duvidosos e abusos que surgiam de todos os lados, sua família forçou sua carreira e alguns de seus maridos só usaram da atriz para o benefício próprio.

O filme do britânico Rupert Goold procura justificar as instabilidades da estrela ao longo de sua carreira, já que Judy também ficou conhecida por ser impossível de se trabalhar nos sets. Ela se atrasava, não aparecia ou ainda vivia alcoolizada, dizem. A busca no recorte de Goold é falar dos últimos seis meses de vida da estrela americana e entender sua partida para Londres, onde fez uma série de shows para arrecadar dinheiro e assim criar uma estabilidade financeira e assim manter a guarda de seus filhos e em paralelo compreender a complexidade dessa mulher tão amedrontada pelo abandono.

Deve-se destacar e dar os devidos elogios de boa parte do sucesso da empreitada de Goold à intepretação de Renee Zellweger. A atriz que sumiu dos holofotes quando sua carreira começa a ficar morna, retornou há alguns anos muito criticada por sua aparência e com boatos de uso de plástica. Acabou estrelando algumas produções nos últimos anos que não são dignas de destaque e retornou a encarnar sua célebre personagem Bridget Jones. Sobrou tempo ainda para co-estrelar uma série da Netflix de trama duvidosa. Todas essas aparições não eram substanciais e capazes de voltar a mostrar a capacidade da Zellweger vista em filmes como Cold Mountain (2003), Chicago (2002), Enfermeira Betty (2001) ou Abaixo o Amor (2003). Quando anunciado o filme de Goold (uma parceria entre a BBC e a produtora francesa Pathé) as atenções se voltaram para Renée e sua performance como Judy Garland. Um comeback digno estava próximo.

Realmente, Zellweger entrega uma das melhores performances de sua carreira. É uma atuação digna de prêmios como dizem. A Judy que assistimos ganha traços muito pessoais da atriz, as canções são cantadas ao vivo no set e assim como Judy, a sua intérprete aqui renasce das cinzas junto. As poses e os trejeitos de Judy estão lá. O rosto de Zellweger tanto comentado das plásticas faz com que o espectador pense que pode ser, em parte, balela. A atriz é expressiva, mesmo com o uso de um pouco de maquiagem e dentes protéticos. E coloca o espectador em uma posição tão confortável que relevamos diversos erros e fatos distorcidos da história de Judy que se apresentam durante a projeção.

Assim, retornamos ao que foi levantado no começo. A vida não é cinema, mas se o cinema busca interpelar um cinebiografado e justificar suas ações, valeria um pouco se ater a um cuidado com os fatos e a ordem em que aparecem ou são dramatizados. Goold faz uso das filmagens do icônico O Mágico de Oz (1939) para traçar um paralelo e mostrar como as ações tomadas naquele período tão conhecido pelos fãs da estrela resultam em consequências que irão acompanha-la até a sua morte. O problema da produção se dá nessa condensação de fatos em um único período e alguns flashbacks desnecessários.

De resto, os momentos emotivos, melodramáticos são muito bem construídos. A presença de um casal gays que é fã da cantora representa muito bem sua importância para a comunidade da época é retratada em um dos mais belos e emocionantes momentos da trama. E Renée Zellweger cantando By Myself é de tirar o fôlego. Como Judy, Renée ressurge como uma fênix.

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