Jogador Número Um: A idade da profanação

A peça central de Jogador Número Um (Ready Player One, 2018), sequência que sintetiza sua teleologia, vem sido ocultada por uma parcela da crítica, sendo referida apenas como a fatídica sequência. Descrevê-la, portanto, está comumente entendido como um spoiler. O jargão que define a revelação maliciosa de detalhes cruciais ao aproveitamento de uma trama, é mais imediatamente associado à cultura contemporânea da internet e das séries de televisão. O incentivo à rarefação destas informações, no entanto, é prática consolidada por décadas. Como não lembrar do clássico slogan de divulgação de Psicose (“Não revelem o final, é o único que temos!”)? No novo longa de Spielberg, porém, estragar o conteúdo de sua pièce de résistance não significa entregar um twist de roteiro ou uma guinada que desestabilize a maneira como o filme foi conduzido até então. Significa desmantelar toda uma sistemática de apropriações de cultura pop ao entregar sua referência-mor, designada para causar sorrisos e suspiros de reconhecimento nas plateias nerds.

É o melhor momento do filme, uma ilustre profanação de uma das melhores obras de gênero da história do cinema. Ao mesmo tempo, porém, este divertido sacrilégio exemplifica a maneira como Jogador Número Um adere à lógica de um sistema de capital cultural, exaltação do pop como um vocabulário de propriedades intelectuais que define valores a indivíduos de acordo com sua fluência referencial. Não é à toa que Art3mis (Olivia Cooke), uma clássica manic pixie dream girl, encante nosso herói underdog (Wade Watts, interpretado por Tye Sheridan) por seu vasto conhecimento nerd, sendo a única a imediatamente reconhecer suas obscuras referências a clássicos cult oitentistas.

O OASIS, jogo de realidade aumentada onde a massa se refugia, é um paraíso virtual que possibilita a cada um assumir a aparência que deseja e habitar mundos diversos que contemplam suas mais diversas necessidades de entretenimento. Estamos numa distopia localizada em 2045, mas todos os acontecimentos culturais posteriores aos anos 90 parecem nunca ter acontecido, pois as inúmeras subjetividades estão sempre limitadas ao repertório do grande gênio James Halliday (Mark Rylance), criador do jogo. À sua morte, como legado, deixa uma busca por três chaves que darão ao vencedor o controle sobre o jogo e as ações de sua empresa. O puzzle solving do desafio envolve observar atentamente episódios da própria vida de Halliday, para assim extrair destes enigmas as respostas para cada situação. Halliday, o arquétipo do nerd sem habilidades sociais, é visto com compaixão; seu testamento magnânimo é entendido como seu último ato de heroísmo para com seus companheiros de nerdice, e nunca um delírio narcísico que recompensa quem estiver melhor versado em detalhes de sua própria trajetória.

O livro homônimo de Ernest Cline (que assina o roteiro, em colaboração com Zak Penn), publicado em 2011, antecede a recente mercantilização desta nostalgia oitentista, pegando carona na “vingança dos nerds” cristalizada por The Big Bang Theory. Ele próprio objeto de alusões nostálgicas no texto original, Spielberg encontra no OASIS uma atualização dos motes do filme de aventura que explorou ao longo dos anos, como o pôster à la Drew Struzan confirma. Não mais cavernas, florestas, oceanos e desertos, agora se desbrava um caldo complexo de reproduções digitais, numa jornada de herói com direito à mocinha, o vilão caricato e os sidekicks expressivos. Há uma aura inegável de matinê no fascínio despretensioso com que se conduz a ação, algo que dificilmente se alcançaria se outro diretor fosse escalado à adaptação.

Progressão lógica de seu trabalho com animação em As Aventuras de Tintim (2011), Spielberg elabora planos sequência mais suntuosos ainda, com uma câmera livre, às vezes caótica, que foge de uma tentativa de reprodução de gameplay – não há uma subjetivação característica da experiência do jogo, muito menos uma constituição mais precisa da espacialidade. Dois filmes recentes, por exemplo, implementam a lógica e a mecânica do videogame de maneira bem mais sóbria: Jumanji: Bem-Vindo à Selva (Jake Kasdan, 2017), por literalmente se passar dentro de um jogo e trazer à forma fílmica conceitos como cutscene, NPC’s e um inventário de habilidades; e Tomb Raider – A Origem (Roar Uthaug, 2018) por reduzir seu escopo e progredir na mesma cadência de uma “fase”. Abdicando do live action em seu OASIS, Spielberg está muito mais interessado numa agilidade cinematográfica do blockbuster, como ilustra a cena da primeira corrida em Nova York.

Porém, sucumbindo à nostalgia como tônica dominante, Spielberg perde a oportunidade de atualizar os arquétipos do filme de aventura para além da superfície, ilustrando e nunca questionando o roteiro no qual se ancora. O resultado é, justamente, superficial. No duvidoso plano final, enquanto beija sua mocinha, a voz em off de Wade estabelece que seu primeiro decreto ao assumir o controle do jogo é desligá-lo nas terças e quintas, afinal, “o mundo real também é muito interessante”. Ora, até então, o que se viu do mundo físico foram índices alarmantes de pobreza e abandono. Apenas décor? Em consonância com a pretensão ativista de The Post – A Guerra Secreta (2017), Spielberg faz questão de chamar atenção à diversidade racial da comunidade nerd, representada pelos sidekicks de Wade. O protagonismo e o heroísmo, porém, ainda estão reservados ao nerd hétero e branco, para o alívio da parcela conservadora da comunidade. Não se enganem, Jogador Número Um é um barato. Mas, se o filme é uma “carta de amor aos nerds”, como vem sido dito por aí, ainda há muito progresso a ser feito dentro dessa cultura.

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