Críticas

Horror e redenção em Até o último homem

Andrew Garfield é o "semi-deus" Desmond.
O primeiro plano de Até o último homem (Hacksaw Ridge, 2016) enquadra uma série de corpos fardados e ensanguentados sobre o chão poeirento de um campo de batalha. Os próximos quadros trazem explosões que lançam soldados pelos ares, corpos vivos sendo incinerados e Desmond (Andrew Garfield), o protagonista, sendo carregado em uma maca pelo ambiente esfumaçado. Toda a sequência acontece em slow motion, recurso que o diretor Mel Gibson usa sem economia, enquanto uma voz em off traz um discurso religioso sobre o poder da fé em Deus e como ele dá força aos mais fracos. Este momento introdutório é necessário, pois reune as camadas principais do novo trabalho de Gibson no cinema: o cristianismo enquanto formador de caráter, a violência impiedosa e redentora, e a construção de um herói cujo sacrifício é tão cego quanto complacente.

Nenhuma destas camadas, contudo, chega a ser novidade na carreira de Gibson como diretor, que tem no currículo trabalhos como Coração Valente (1995)A Paixão de Cristo (2004) e Apocalypto (2006). Suas narrativas carregam protagonistas de fortes valores morais atravessando uma dura e sangrenta jornada. Com este seu novo trabalho, baseado em uma história verídica, o realizador reafirma suas predileções estéticas e de conteúdo no contexto da Segunda Guerra Mundial. Nele, o jovem Desmond Doss (Andrew Garfield) se alista no exército com intenções de tornar-se médico. Fortemente movido por sua criação católica, ele recusa-se a pegar em armas durante o seu treinamento e a matar durante a batalha de Okinawa, na qual salva mais de 70 homens feridos.

Há na construção de Desmond um claro esforço narrativo para garantir que o espectador se compadeça do herói, mesmo que haja o aval do baseado em uma história real. O roteiro frequentemente visita a natureza bruta do pai do protagonista, um veterano de guerra alcoólatra que pratica violência doméstica. Existe pelo menos um momento em que o protagonista salva a mãe de um surto do pai. Em outra cena ele fere gravemente o irmão e imediatamente se coloca a rezar em misericórdia. Se por um lado momentos como estes ajudam a solidificar a aversão pela violência que o protagonista demonstra quando adulto, eles também colaboram para que o público crie com ele uma relação de alteridade. A construção de um romance cheio de inocência com a enfermeira Dorothy (Teresa Palmer) também colabora, em termos de estrutura, na construção deste herói em moldes clássicos que é beneficiado pelo carisma de Andrew Garfield.

É inevitável, contudo, que se observe como a falta de sutileza se estende dos diálogos à direção. Se na primeira parte o escancaro passeia entre frases de efeito e momentos onde a direção é explícita em sua tentativa de emocionar, no segundo o diretor explora a violência em níveis que se aproximam do sadismo. Há também um tratamento bastante maniqueísta onde os pobres soldados americanos precisam eliminar e se proteger dos japoneses malvados o que, claro, exige um mínimo de filtro do espectador.

Ainda assim, é divertido como o próprio roteiro ameniza, em partes, seus excessos, ainda que não os justifique. É cômico, por exemplo, como após receber uma cantada a personagem de Teresa Palmer imediatamente faça uma piada sobre a sua cafonice. Ou quando no treinamento do exército, a abordagem caricatural e viril do personagem de Vince Vaughn faça o protagonista rir, tamanho seu absurdo. É como se os personagens reagissem de acordo com o pensa o espectador naquelas circunstâncias.

Teresa Palmer e Garfield em cena - romance
Teresa Palmer e Garfield: romance cafona

Aliás, seria um acerto se o filme se dispusesse a amenizar mais frequentemente o seu peso dramático. É compreensível que se queira elevar a biografia de Desmond Doss ao status de épico, mas a redundância no seu tratamento acaba por estender os valores do protagonista a um moralismo narrativo. Ainda que não seja um completo equívoco, é praticamente inevitável que, desta maneira, o filme acabe por sucumbir a um retrato carente de complexidade. E, neste sentido, os princípios do protagonista, bradados em alto e bom tom, adicionados da frequente evocação do divino em seu discurso, fazem de Desmond um semideus. Um mártir iluminado, de moral inabalável, que pratica milagres e é adorado pelos seus discípulos.

E é justamente na longa sequência de confronto entre americanos e japoneses que todas estas percepções são elevadas exponencialmente. A violência gráfica se associa ao ato heroico de Desmond em carregar nas costas corpos estilhaçados ainda em vida, como um Cristo e sua cruz. “Ajude-me a salvar mais um”, suplica ele inúmeras vezes ao seu Deus, em um processo redentor e inflamado de espiritualidade. Entre planos coletivos que compreendem o horror e closes que buscam humanizar os personagens, a direção se mostra segura pelo menos nessa sobrecarregada sequência. O diretor busca no ódio visceral uma centelha de compaixão, como se algo sobre-humano surgisse em reação à bestialidade. Por mais que se encha Até o último homem de considerações, a constatação final é de que Gibson chega exatamente onde quer chegar. O que não quer dizer que este destino seja necessariamente satisfatório.

 

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

Você talvez goste também...

1 Comment

  1. Luciana Sousa says:

    Um dos melhores filmes da sua filmografia, a mescla entre o roteiro e o elenco dá um bom resultado. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande, acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção. Gostei muito de Até o Último Homem, vi os horários de transmissão em: https://br.hbomax.tv/movie/TTL610297/Ate-O-Ultimo-Homem deixo o link por se alguém se interessar. Não conhecia a história e realmente gostei. É impossível não se deixar levar pelo ritmo da historia, achei um filme ideal para se divertir e descansar do louco ritmo da semana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *