Festival do Rio 2018: Vermelho Sol e a origem do mal

O filme argentino, Vermelho sol (Rojo, 2018) em coprodução com Brasil, Bélgica, Alemanha e Suiça, tem circulado por festivais brasileiros como a Mostra de São Paulo, Festival do Rio e Janela Internacional de Cinema do Recife. Nos festivais internacionais, foi um dos mais premiados na 66ª edição do San Sebastián Film Festival: ganhou prêmios do júri oficial para melhor direção (Benjamin Naishtat), melhor ator (Dario Grandinetti) e direção de fotografia (o brasileiro Pedro Sotero, de Aquarius). Para uma produção latina, ele representa muito bem a necessidade de que se fale do retrocesso político pelo qual passam alguns países (não só da América Latina, bem entendido). O crescimento da popularidade de partidos com plataformas fascistas em em muitos países, dá ao filme uma urgência temática que, de antemão, o torna relevante.

O diretor Benjamin Naishtat, de 36 anos, não havia nascido quando a Argentina sofreu um golpe militar cuja ditadura durou de 1966 a 1973. Talvez por isto tenha optado no roteiro que ele próprio assina, em contar a história sem narrar fatos diretamente relacionados ao regime militar. O que temos é o nascimento do ovo da serpente, a origem do mal que está entranhada na própria sociedade civil, no caso, a população de uma pequena cidade do interior argentino.  Rojo, a cor vermelha que remete ao cabelo ruivo do personagem forasteiro e que detona os fatos, é também o vermelho que simboliza o comunismo, a ameaça que então justificava a intervenção militar daquele época nem tão distante assim.

Em linhas gerais, sem entregar spoilers, pode-se dizer que Vermelho Sol abre com uma espetacular sequência de diálogos. Verdadeiramente poderosa em seu conteúdo e que de certa forma fragiliza o resto do filme, que nas sequências seguintes não consegue mais impor a força da arrancada inicial.

Nesta abertura, que de fato é um prólogo, um homem, que saberemos depois ser o advogado mais conhecido da cidade, ocupa uma mesa de restaurante cheio e barulhento. Ele é observado por outro homem (mais tarde saberemos ser um forasteiro), que se aproxima e iniciam uma discussão, pois o que ocupa a mesa não está consumindo (alega que espera sua esposa) e o homem que está de pé, argumenta que se ele não está consumindo, não tem o direito de ficar ocupando uma mesa enquanto ele, com fome, não tem mesa disponível. O garçom tenta intervir, mas a aspereza do diálogo faz com que a mesa seja cedida ao que reclama. O que era observado, passa a observar, trocam farpas, e o homem que cedeu o lugar profere um discurso duro, onde diz entre outras coisas que ele é o tipo de sujeito que lhe dá pena, o tipo que não teve educação e que não aceita convenções sociais, que reclama de tudo sempre e vaticina que ele será um eterno infeliz. O discurso é mais cruel do que parece, revelando um contexto de classe, um subtexto que faz emergir o teor político da cena. A estas alturas, todo o barulho do restaurante se apaga e as pessoas estão petrificadas ouvindo o áspero diálogo. Logo o homem sentado sofre um surto, gritando, acusando a todos de nazistas. É tirado do recinto à força e efetivamente o filme começa.

As repercussões desta sequência inicial serão trágicas e a partir dali passamos a conhecer a rotina da cidade. O papel do advogado nas relações familiares e sociais vai desenhando o cenário de um país que vive sob uma ditadura miliar. O aspecto mais importante a destacar é a participação dos cidadãos comuns, os autointitulados “cidadãos de bem”. Gente comum que cuida de suas famílias e dos interesses econômicos como se fosse a dona da verdade e da correção. Engano. Em paralelo, há uma série de desaparecimentos que formam o pano de fundo político. Também há subplots envolvendo a alienação da juventude que nada sabia, ocupava-se somente de seus hormônios. A entrada em cena de um detetive famoso, chegado de Buenos Aires, resultará na guinada em direção a um suspense esperado, já que o prólogo do restaurante anunciou consequências.

O personagem do detetive, vivido por Alfredo Castro, tem uma construção um tanto débil, pois o roteiro optou por um tipo quase cômico em sua alegoria. Ele não está ali para fazer justiça, mas para manter a ordem daquela sociedade. Embora, em princípio, possa representar uma ameaça ao segredo criminal que envolve o advogado, sua função é clara no sentido de ser a peça que faz um governo autoritário funcionar com uma aparência de legalidade. E aparência de legalidade é tudo… A função dramatúrgica deste personagem é fundamental, a objeção acontece justamente pelo tom alegórico que de alguma maneira fica enfraquecida na comparação com a potente sequência inicial. De qualquer forma, é uma obra que respeita o legado de um cineasta combativo como Fernando Solanas. Ostentando o selo de qualidade do cinema argentino, Benjamin Naishtat junta-se ao grupo de nomes de diferentes estilos, como Lucrécia Martel, Pablo Trapero e Juan José Campanella, que não deixam que se esqueça do passado sombrio daquele País. E não só daquele país.

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