Festival do Rio 2018: O intenso Caos e a ascensão de Nadine Labaki

Nos seus trabalhos anteriores, o açucarado Caramelo (2007) e o ingênuo E agora, para onde vamos? (2011) a diretora e atriz libanesa Nadine Labaki toca em questões existenciais e sociais de maneira branda, através de uma direção bastante convencional. Reconhecida por grandes festivais, como o de Cannes, onde já levou prêmio do júri ecumênico, e San Sebastián, premiada pelo público, Labaki ganha notoriedade como representante de um certo world cinema. Seu mais recente trabalho, contudo, atinge um novo nível de apreço em tal circuito ao ser ovacionado em Cannes e conquistado o Prêmio do Júri, primeira vez entregue a uma cineasta árabe.

É que Caos (Capharnaüm, 2018), equilibra o melodrama e o teor de denúncia ao expor as mazelas da periferia libanesa. No longa, o público acompanha a trajetória de Zain, garoto de doze anos que vive em situação precária junto dos irmãos e sob a negligência dos pais, estes ameaçados de serem despejados a qualquer momento. Pequenos delitos, a iminência do casamento precoce de uma das irmãs e sua jornada de trabalho abusiva são forças que culminam numa fuga anunciada do protagonista, que passa a viver por si só nas ruelas da favela. A situação fica ainda mais complexa quando Zain conhece Rahil, uma refugiada etíope e mãe solteira que trabalha ilegalmente para criar seu bebê, o pequeno Yonas, de quem Zain passa a cuidar enquanto Rahil tenta barganhar um novo documento falso.

O plot antecipa o potencial dramático que, de fato, se concretiza na narrativa. É inegável um assumido sentimentalismo, pontuado principalmente por uma tocante trilha musical cuja intenção é atingir o coração do espectador. Entretanto, a obra não se estrutura unicamente em artifícios de comoção, sendo sua base principal a crueza no retrato da realidade do protagonista. Assim, a fotografia de Christopher Aoun não desvia o olhar na babel de elementos que compõem a ambientação insalubre, seja nos registros em detalhe, na grandes composições em zenital, que apresentam o espaço labiríntico da favela, ou ao seguir a correria do protagonista, de quem o desespero é traduzido em movimentos de câmera hipertensos. Aliado à montagem ágil de Konstatin Bock, Caos muitas vezes encontra a estética de Quem quer ser um milionário? (2008) e Cidade de Deus (2002). Além disso, seus momentos melodramáticos são astutos o suficiente para evitar que o longa caia nas mesmas armadilhas às quais não resistem títulos como Lion: Uma jornada para casa (2016).

Na reunião de escolhas que deixam clara a influência da escola neorrealista – em especial no que tange a predileção por locações e atores não profissionais -, Caos ganha maior solidez pelo elenco e sua condução. A expertise de Labaki como atriz engrandece sua direção, sendo notável o domínio de cenas que são potencializadas pela veracidade apresentada pelos personagens, com destaque para o pequeno Zain Al Rafeea. Ao assumir o protagonista, ainda que exiba resquícios de certa inocência, ele choca ao demonstrar constantemente uma maturidade que, sem escolha, ele foi obrigado a assumir (e aqui valem os parênteses para as semelhanças inevitáveis à Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), exibido em cópia restaurada nesta edição do Festival do Rio) . É tarefa árdua relembrar de qualquer sorriso real lançado pelo ator durante a projeção. Sua presença na tela é indescritível. Cada gesto parece atingir o público como uma navalha, tamanha sua capacidade de compreensão e exposição do personagem.

A estrutura de rápidas idas e vindas no tempo onde Zain, ao mesmo tempo, é julgado por um crime hediondo e abre um processo contra seus próprios pais funciona bem e jamais prende o filme às convenções de drama de tribunal. Resta, contudo, o risco da leviandade que surge logo nos primeiros minutos de projeção e é retomado em seu desfecho: Zain processa seus pais por o terem tido e deseja que eles não mais possam ter filhos. Compreende-se a visão do personagem, visto que toda a narrativa de reveses é consequência direta da omissão parental e sua visão de mundo, enquanto criança, acaba sendo restrita em torno dos seus. No entanto, ainda que em seu desenrolar Caos aponte para a complexa situação econômico-social libanesa (e que se estende facilmente à realidade brasileira), ao abraçar a visão de seu personagem principal, o longa tropeça em seu derradeiro e verbalizado discurso. A reflexão final, fechada ao universo da relação familiar, parece ignorar um sistema maior, de responsabilidade do Estado, onde também os pais são vítimas. Apenas um porém textual de remate já que, em suas viscerais duas horas anteriores, o novo trabalho de Nadine Labaki tem grande solidez cinematográfica. Em tese e linguagem.

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