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O impulso bruto em A Rota Selvagem

A habilidade humana de adaptação e a fixação no território nos fez evoluir. Não mais nômades, nos movemos conforme necessidades pessoais paralelas à existência. A relação com a natureza se intensifica com a permanência, a agricultura e criação de animais também nos fez avançar progressivamente rumo à sociedade hiperconsumista que temos atualmente.  Estágios da história que envolvem a capacidade de mudança. O que é deixado pra trás quando nos deslocamos?

O interior pulsa de formas diferentes. Enquanto a urbis aglomera pessoas de diferentes locais, sendo centro de encontro de culturas híbridas, o que é do interior ainda conserva uma tradição quase incorruptível. Os corpos nesses espaços são educados sob amarras religiosas e de esforço braçal, frutos de uma visão utilitarista: são para o trabalho ou para reproduzir. É nesse cenário que se desenvolve a história de Charley (Charlie Plummer), no longa A Rota Selvagem (Lean on Pete, 2017), do diretor e roteirista Andrew Haigh (Weekend e 45 anos).

O adolescente mora com o pai Ray (Travis Fimmel), em uma pequena casa na cidade de Portland, porém seu arco dramático o fará transitar por muitos locais. Um filme de coming of age, que se utiliza de elementos de um road movie para intensificar a beleza das paisagens através da fotografia. É também um filme de caricaturas, personas produzidas por uma sociedade estadunidense em decadência. O primeiro contato de Charley com essas figuras se dá por meio de Del (Steve Buscemi), um criador de cavalos de corrida. No mundo de apostas e artimanhas financeiras em detrimento do físico dos animais, Charley conhece o cavalo Lean on Pete, por quem irá nutrir um afeto quase familiar, atenuado pela morte prematura de seu pai.
Não há muitas figuras femininas em cena, as que aparecem reforçam o caráter salvador e de amparo – mais uma herança religiosa, talvez -, das personagens. É a namorada do pai de Charley que cozinha para eles. A montadora de cavalos Bonnie (Chloe Sevigny), aconselhando o garoto a não se apegar aos animais. Uma garçonete que convence o guarda policial a liberar o adolescente após uma tentativa de furto. A garota, neta de um veterano de guerra, que cozinha para todos os homens da casa. E por fim, a tia Margy (Alison Elliott), única pessoa com quem Charley conta depois do assassinato de seu pai, que literalmente incorpora um ar de recompensa, uma promessa de vida melhor, depois de todo o sacrifício do sobrinho em atravessar o estado até encontrá-la.

Os personagens são elementos essenciais para o amadurecimento – forçado -, de Charley. O roteiro trabalho a serviço dos obstáculos. Há muita dor e perdas, mas a vida continua, o garoto não pode olhar pra trás, tudo funciona como degrau. Para onde? Ninguém sabe. Os monólogos são ouvidos pelo cavalo, em uma longa caminhada pela natureza do interior dos EUA. A atuação contida de Charlie Plummer revela a complexidade do personagem, que não se entrega na fala, não chora nas mortes, não se exalta, sofre como quem acredita que deve sofrer, mas sem ninguém saber. Em um determinado ponto do longa, Charley fala que prefere amigos que nunca mais o encontrem, que acreditem que ele morreu, do que o vejam sujo e com fome, penando para sobreviver. Não é orgulho, é uma ideia de que isso é dar para a sociedade o que ela quer ver.

Se tem 15, 16 ou 18 anos, como mente conforme a situação, pouco importa. O adolescente só tem a possibilidade de mobilidade, não há mais nada além disso para ele. Deve se mover, se adaptar. Maduro ou não para isso, também não é relevante para o filme. Tudo acontece como impulso, quem não consegue acompanhar fica pela estrada. É esquecido. Engolido. Vira poeira e se mistura ao resto da paisagem. Charley tem sonhos. No último plano do filme ele corre, agora sem a necessidade de fuga.

Por Analu Favretto

Graduada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pelotas é mestranda em Comunicação pela UNISINOS.

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