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As dificuldades de ser em Tinta Bruta

Em Tinta Bruta (2018), novo filme de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, o individualismo e a hostilidade nos espaços urbanos são fatores que produzem diretamente o comportamento e humor de seu protagonista, Pedro (Shico Menegat). Após responder com violência à constante abordagem preconceituosa que sofria – e ainda sofre -, ele está em um processo de julgamento que pode levá-lo à prisão. De natureza reclusa e agora expulso da faculdade, Pedro se vê cada vez mais incapaz de qualquer convívio social, se mostrando sempre arredio frente a toda possibilidade de contato com estranhos.

Antes compartilhando o apartamento com a irmã, Luiza (Guega Peixoto), sua síndrome de abandono é intensificada quando da mudança da moça para Salvador. Pedro está completamente sozinho em Porto Alegre. Para pagar o aluguel, ele segue com suas performances eróticas na webcam através do pseudônimo de Garotoneon. Acontece que seus shows tem rendido cada vez menos e o motivo tem perfil definido. Leo (Bruno Fernandes), ou Guri25, usa a mesma estética em suas apresentações virtuais ao mesclar sensualidade e tintas neon para ganhar seguidores. Muitos, ao que tudo indica, migrados do perfil criado por Pedro. A narrativa ganha nova perspectiva a partir do encontro de ambos, que passam a performar juntos na internet e iniciam um relacionamento.

A forma como o longa opta por retratar o vazio e a melancolia geracional, que ganham corpo no protagonista, segue em duas vertentes imagéticas principais. Em cenas do cotidiano, o personagem é perseguido por tracking shots que retomam, ainda que não precisamente, os de Gus Van Sant em Elefante (2003), e que evidenciam a um só tempo sua solidão e vulnerabilidade – acompanhá-lo de costas mantém constante uma sensação de ameaça que inevitavelmente se concretiza em dado momento da projeção. Quando dos registros frontais e de perfil, o espectador o vê quase sempre cabisbaixo e com os cabelos sombreando seu rosto. E aqui é necessário também que se coloque o bom trabalho de expressão corporal do estreante Shico Menegat, que carrega a prostração do personagem num caminhar lento e ombros caídos, exibindo assim parte de sua psique. Já nos momentos performáticos, o personagem parece expressar suas dores de forma convexa, em cores cintilantes e no erotismo.

Leo e Pedro – Garotoneon e Guri25

Aliás, para além disso, o longa de Reolon e Matzembacher é feliz também na compreensão de uma multiplicidade de eus, tão presente na construção identitária da nova juventude urbana que retrata. Dos dois lados mais pungentes que o personagem exibe, algumas leituras são possíveis e não necessariamente excludentes. Pedro esconde sua tristeza e desamparo na persona autoconfiante que cria diante do computador ou se vê obrigado a suprimir sua sexualidade para garantir sua existência, o que potencializa ainda mais sua melancolia? Talvez seja o caso dos dois. E é interessante como o trabalho de fotografia de Glauco Firpo colabora na construção líquida deste sujeito no trabalho de iluminação, oscilante entre a luz negra que faz as cores explodirem em seus momentos performáticos e os tons desbotados ou frios de uma Porto Alegre decadente. É também a miríade de telas que evidencia tal caráter de multiplicidade. Há a tela do cinema, o enquadramento de Pedro no seu cotidiano, planos que o registram na tela do computador e as imagens exibidas pela webcam propriamente, sujeitas à ruídos, interferências. Não por acaso, a divisão do longa em três partes leva, respectivamente, o nome real de dois personagens (“Luiza” e “Leo”), e assume “Garotoneon” em sua parte derradeira ao invés de Pedro. E o sugere, assim, como faceta mais honesta do protagonista, algo que o magnífico plano final parece corroborar.

Falando em Luiza e Leo, é notável a construção de ambos os personagens como elementos que se bastam sozinhos, mas que também impulsionam o arco do protagonista. A irmã, mais extrovertida e sociável, é jornalista e está em processo de mudança para o nordeste, onde vai assumir um novo trabalho. Apesar do nítido carinho por Pedro e pela cidade, Luiza demonstra uma inquietude e certo descontentamento que a movem para longe do irmão. Percebe-se nela muito mais coragem e independência do que um possível egoísmo para com a figura de Pedro. Inevitável, porém, que este fique ainda mais isolado e deprimido com a partida. É aí que entra Leo, curiosamente introduzido na narrativa pela própria Luiza. Seu aparente e inicial papel de rival logo se dissolve na doçura do personagem, sempre dotado de afeto e rodeado de amigos. Entre ensaios com a companhia de dança, as performances pela webcam e enquanto espera pelo resultado de uma bolsa de estudos no exterior, Leo inicia um relacionamento com Pedro, que atenta, a partir do início de novas amizades, a possibilidade de ser, sem restrições.

Se sua introspecção indica, a primeira vista, certa inércia, tal percepção se esvai ao longo da narrativa, que apresenta a clausura de Pedro muito mais como uma resposta defensiva à sua realidade do que uma natureza intrínseca propriamente. Pelo contrário, o garoto é muito mais reativo do que passivo, e tal índole é o que desencadeia sua atual condição (e que mais tarde o resgata de uma das cenas mais tensas do cinema brasileiro vista este ano).  Neste sentido, este novo trabalho dos cineastas gaúchos se mostra bastante superior ao bom longa antecessor, Beira-Mar (2015), tanto em aspectos técnicos como criativos, em especial na construção de personagens que, em Tinta Bruta, apresenta além de maior complexidade, mais sofisticação.

Retomando ainda o trabalho anterior, se antes o mar agia como um símbolo espacial de certa opressão, agora é uma abatida Porto Alegre que sufoca o protagonista. Por vezes em sua concretude, que esconde a vista da janela do apartamento, outras em suas figuras anônimas, que testemunham com desimportância a violência urbana de suas janelas, a capital gaúcha aqui se apresenta como um local do qual todos querem partir. Ela própria assume o papel de antagonista na narrativa.

E ainda que este novo trabalho da dupla seja de poucos antagonismos enquanto obra, há um ponto destoante e incômodo que reside em alguns de seus diálogos. Entretanto, a flagrante dureza e artificialidade (“Tem alguém que te faz brilhar como essas tintas?”) é um ponto fora da curva de uma realização de firme consistência. Um trabalho que, se não atinge o feito completamente, chega muito próximo de imprimir uma rubrica de autor. De autores.

Por Maurício Vassali

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS, é graduado em Cinema e Audiovisual pela UFPel. É membro da diretoria da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul na gestão 2018-2020.

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