Festival do Rio 2018: As carências e a ingenuidade em Selvagem

Não há grandes novidades na abordagem de Selvagem (Sauvage, 2018), primeiro longa-metragem dirigido pelo reconhecido curta-metragista Camille Vidal-Naquet. Nome já conceituado pela mostra da Semana da Crítica do Festival de Cannes, ele encara aqui uma empreitada visceral ao desbravar a trajetória de alguns dias na vida de um michê gay. Através de um caminho seguro já percorrido por diretores como Gus Van Sant e até mesmo R. Werner Fassbinder, Vidal-Naquet desenvolve seu filme sem agregar muito à temática ou na construção narrativa. Porém é inegável o quão é enérgico e impactante no seu estudo sobre o seu personagem principal, o jovem Léo, em excepcional performance de Félix Maritaud.

É graças à atuação que a produção se mantém instigante. A abordagem do diretor não inova em nenhum cenário. É construída de segmentos previsíveis e já vistos em outras obras sobre as dificuldades e marginalização da profissão. Estão lá os clientes abusivos, as fantasias sexuais que degradam o personagem, as drogas, os preconceitos, as guerras da profissão, etc. Mas reside nas nuances do protagonista carente e solitário o lado emotivo e que abre portas mais cativantes. E nisso Vida-Naquet investe sem economias sem desandar ao dramalhão.

Leo é um jovem gauche e perdido. Tanto que qualquer abraço amigável é uma porta de entrada para uma paixão quase involuntária. Apesar de à superfície não carregar nenhuma inocência relativa ao sexo – seu corpo é posto às mais diversas adversidades da profissão – Leo carrega ainda a inocência e uma certa dependência amorosa daqueles que até mesmo pouco lhe oferecem. As relações oscilam pela ingenuidade do personagem. A “amizade colorida” com um de seus colegas de profissão é quase paternal. A relação com sua médica é instantaneamente maternal. Existem lacunas na vida de Leo que ele acaba tentando preenchê-las sem nem ao menos notar.

No balanço final, não existe renúncia, mas sim escolha. Também não há redenção ou um final trágico. Mas uma constatação de que a natureza de Léo já está definida e que habituar-se a uma nova realidade e estabilidade é algo complexo. Selvagem é como uma passagem pelos dias e pelas carências afetivas do protagonista. Um belo estudo de personagem, mas que carece igual do mesmo mal de seu anti-herói: um aprofundamento maior das relações.

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