Eu, Tonya e as imperfeições do herói

A imagem do herói é construída principalmente através de seus problemas, a maneira com que vence os desafios à procura de sua recompensa. O conceito da Jornada do Herói na narratologia cria o imaginário de que é preciso sofrer para alcançar o que se almeja. Basicamente foi nesse estereotipo que o cinema industrial se edificou, principalmente na figura do mocinho no western.

Há um tanto de ironia quando tratamos de heróis modernos e quase sempre essa figura está relacionada a celebridades. A mídia cria os mártires contemporâneos, vendendo suas histórias de vida e tudo que enfrentaram até chegar ao estrelato. Não é à toa que as biopics fazem tanto sucesso. No caso de Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), filme que conta a história de vida da patinadora estadunidense Tonya Harding com ênfase nos anos 90, há um quê de espetacularização demasiadamente perigosa.

No longa a primeira informação que temos é em forma de texto. O filme se auto declara feito com auxílio de entrevistas “extremamente contraditórias” de vários personagens no estilo mockumentary; aliás, o foco que os personagens masculinos têm em um filme chamado Eu, Tonya é bastante incoerente. Na primeira parte temos uma Tonya ainda criança (Mckenna Grace) e sua mãe Lavonna Harding (Allison Janney) em uma relação de abuso psicológico. O que vemos no decorrer da produção é essa violência se transformar em momentos de comédia e deboche, quase sempre acompanhados de uma punchline, há vezes em que o roteiro se aproxima de um stand up, com sua necessidade excessiva em transformar as relações interpessoais em situações cômicas.

Entretanto, é na fase adulta de Tonya Harding (Margot Robbie, em uma excelente atuação, talvez a única coisa realmente interessante no filme) que o abuso vira chacota de vez. Tonya conhece Jeff Gillooly (Sebastian Stan) e se envolve emocionalmente. A personagem da patinadora é claramente uma vítima de dependência emocional e sempre está em busca de aprovação, já assistimos isso no vínculo que tem com a mãe desde o início do filme. Incessantemente durante as entrevistas, Tonya repete a frase “mas a culpa foi minha” inclusive para justificar os ataques físicos de seu marido Jeff; que a atira, a empurra, dá socos e empurrões gratuitamente, às vezes até com uma trilha sonora satírica. Em em uma das cenas de agressão, por exemplo, a música “Romeo and Juliet”, do grupo Dire Strait toca ao fundo.

O longa foca tanto na pobreza e na miséria dos personagens, que acaba mais por criar caricaturas que propriamente seres humanos complexos, principalmente na figura da mãe. As pessoas que abusaram de Tonya são interpretadas de uma maneira com que se divertem ao espancar ou enganar a protagonista. Se o filme quisesse mesmo falar sobre abuso, deveria em primeiro lugar levar o assunto com a seriedade que lhe cabe.

Outro fator levantado pelo filme é a criação de alegorias para conceber a imagem de uma nação. Tonya foi a primeira patinadora mulher dos Estados Unidos a completar um Triple Axel (salto triplo no ar), representou o país em duas Olímpiadas e era considerada uma ótima patinadora, principalmente pela sua força física. Porém, sua personalidade e vida particular não eram exatamente o símbolo do ideal americano que as pessoas queriam ver. Em um momento, depois de uma ótima performance em que recebe notas medíocres, Tonya indaga um jurado, que a responde que “nunca se tratou somente de patinação”, ela era a imagem que eles evitavam passar. Ela não é a heroína americana. A mocinha. Para Tonya o sofrimento não a leva ao mártir aclamado e sim à América que negam a existência. É também uma questão de classe, já que Tonya cresceu em um subúrbio pobre e não exibia a elegância que é tão requisitada nesse esporte.

As escolhas de direção como o uso contínuo de zoom e whip pan deixam as sequências de patinação difíceis de assistir. A aplicação de CGI no rosto das atrizes é malfeita. A quebra da quarta parede em diversas situações também não desempenha uma boa dinâmica no filme, reitera situações óbvias, como quando a treinadora Diane Rawling (Julianne Nicholson) mostra os esforços de Tonya ao voltar ao treinamento após sua desistência durante uma competição. “Ela realmente fez isso” é dito diretamente pro público, como se tudo necessitasse de comprovação, até as agressões de Tonya, já que as entrevistas em 4: 3 de Gillooly dão voz para a negação do homem.

A partir da metade do filme, Jeff Gillooly elabora um plano para tirar Nancy Kerrigan (Caitlin Carver) do caminho de Tonya, para que a mesma assuma seu lugar no comitê americano de patinação. Esse é o background para o final do filme. Gillooly com a ajuda de seu amigo Shawn Eckhardt (Paul Walter Hauser), contrata dois homens para atacar Nancy, assim ela é impossibilitada de ir às Olimpíadas. Tonya sem conhecimento do plano, é incriminada e sua sentença é não poder mais disputar competições na modalidade. Tonya é massacrada pela mídia. Não há ninguém ao seu lado. Se torna a vilã americana. A antagonista da sua história violenta.

No contexto atual em que o filme foi produzido, faltou tato na abordagem de assuntos que ainda não temos como representar pelo viés cômico. Tonya foi uma vítima da busca pela perfeição, da submissão feminina imposta, da violência em nome do amor. Se para ser um herói é preciso de motivação, para Tonya Harding não faltou vontade de ser a melhor.

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