Era Uma Vez Brasília: Ponte para o futuro

Quase cinquenta anos nos separam do antológico plano final de oito minutos, síntese de O Anjo Nasceu (1969) e do trabalho que um dos melhores cineastas brasileiros, Júlio Bressane, o qual viria a desenvolver em torno da forma cinematográfica – pela rarefação e a disjunção. O cinema-OVNI de Adirley Queirós, se já frontal e formalmente questionador em A Cidade é uma Só? (2011) e Branco Sai, Preto Fica (2014), se complexifica, ressignifica e autodestrói em Era Uma Vez Brasília (2017), estabelecendo um diálogo justamente com a história do cinema marginal brasileiro e o legado de Bressane, Sganzerla e Tonacci. Era Uma Vez é um filme que trabalha o desconforto, denuncia e incorpora uma letargia coletiva através de dilatação temporal e estrita sistemática gramatical, composta de planos longos ora de tableaux vivants meio Roy Andersson, ora de campo/contracampos internos pelo mover da câmera no próprio eixo (pan). Acima de tudo, é um filme, como o próprio Adirley descreve, sobre “a possibilidade de fabular”, um sci-fi terceiromundista anarrativo que atravessa diretamente uma situação política concreta, no maior estilo Alegorias do subdesenvolvimento.

O fiapo de trama que se transparece é o seguinte: o agente intergaláctico WA4 (Wellington Abreu) é preso e enviado na missão de matar o presidente Juscelino Kubitschek, porém sua nave se perde no espaço-tempo e aterrissa bruscamente na Ceilândia de 2016. Aqui na Terra, se junta a Andreia (Andreia Vieira) e Marquim (Marquim do Tropa) no planejamento de outro ataque, desta vez ao monstro da mesóclise encastelado no Congresso Nacional. São personagens periféricos, que percorrem pelas sombras de um eternamente noturno Distrito Federal antes de convergir na missão final. Durante quase metade da projeção, acompanha-se WA4 viajando em sua precária nave, manejando mecanismos cujas funções não entendemos, e convivendo consigo mesmo em longa clausura. Andreia se refugia numa passarela acima da linha do metrô, quando deseja tornar-se indetectável aos radares que a monitoram, pois foi presa por matar um estuprador. Marquim, quando não interage com Andreia, habita espaços, imóvel, enquanto o mundo incendeia ao seu redor. Também, um grupo de presos é transportado no metrô brasiliense.

São poucas locações, todas lentamente desveladas visualmente, além de situações apresentadas numa cronologia livre e sensorial. A fotografia de Joana Pimenta imprime uma visualidade sofisticada, fazendo uso das luzes amareladas urbanas e do azul neon característico do gênero, além de imagens em chiaroscuro iluminadas única e simplesmente por lanternas, produzindo rostos flutuantes na escuridão. O trabalho de mise-en-scène imediatamente se destaca pelos suntuosos planos conjuntos em profundidade de campo, que constituem e contextualizam estes ambientes hostis em relação aos personagens vistos de corpo inteiro, mas há também uma constante de fragmentação dos rostos, vistos solitários em quadros de foco superficial (daí a sistemática das pans em cenas de diálogo). A sensação de imobilidade visual é contraposta pela potência incômoda do som de Francisco Craesmeyer, composto de ruídos estridentes, metálicos, exacerbados, seja o funcionar desajeitado da nave ou as constantes passagens do trem debaixo da passarela.

O que estes corpos inertes ocupam, então, é uma série de prisões, como a nave, a ponte gradeada ou o pequeno condomínio em que Andreia e seus filhos vivem. O registro estatual não procura representar um suposto luto pelo golpe, um estado de choque friedmaniano que possa ter sido provocado pelas potências neoliberais. Era Uma Vez argumenta que a inércia é um dado inerente, assimilado por nós pela disposição de nossos espaços, uma impotência histórica. O deslocamento temporal em que WA4 se encontra, um atraso, é nossa incapacidade de organização para além da utopia. Afinal, o nome “Ponte Para o Futuro” já tem dono, como alardeado no discurso em que Temer admite o golpe, devidamente reproduzido nos minutos finais. Este filme apresenta-se como um documentário, incorpora seus personagens a cenas de uma realidade compreendida, como o plano em que Marquim se posiciona distante do gramado do Congresso, este em polvorosa durante as votações do impeachment, ou na cena em que os presos são enfileirados diante dos passageiros cotidianos que desembarcam do metrô e reagem à situação e à câmera (Sem Essa, Aranha?). Como já dito, é um documentário que assume a “possibilidade de fabular”

A certo ponto do filme, uma trupe punk Mad Max se organiza para um Torneio Intergaláctico – ópio ou catarse coletiva? – onde se inflamam para então, nos minutos finais, entoar gritos guturais diante do Congresso. W4, Andreia e Marquim, porém, retornam à passarela/ponte para o futuro, onde se observam fixamente, para então olhar diretamente para a câmera. Se, em O Anjo Nasceu, o plano-síntese de seu discurso reflete sobre o vazio da promessa progressista (representada pela estrada), a pièce de resistance aqui é uma imagem altamente estetizada de nossos protagonistas explodindo o próprio carro (ferramenta de resistência, mas também símbolo de progresso) e observando, friamente, as chamas o consumirem. Reapropriando-se das invenções cinematográficas brasileiras de outrora, Era Uma Vez Brasília é intelectual, não intelectualizado – e de largada sai fadado à incompreensão imediata e futura reavaliação crítica. Adirley sabe como ninguém organizar seu glossário referencial e, com este filme, indica outros caminhos para a própria carreira e para o cinema brasileiro (saber reconhecer e entender a própria história é uma necessidade não só de nosso cinema, mas de nossa coletividade). É um cinema que incomoda, desloca o espectador, mas sem nunca deixar de brincar e fantasiar. Afinal, tá tudo uma grande esculhambação mesmo.

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