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Entrevista com Carla Henriques e Ivonete Pinto, curadoras do Festival da Fronteira

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Em sua sétima edição, o Festival Internacional de Cinema da Fronteira aconteceu em Bagé entre os dias 23 e 28 de novembro. Entre as diferentes mostras competitivas que compõem o Festival, a de Longas Metragens exibiu, entre brasileiros e portugueses, sete filmes ainda inéditos no circuito. A Calvero conversou com as curadoras Carla Henriques e Ivonete Pinto sobre o processo de seleção destes trabalhos. Carla trabalha na Rádio e Televisão Portuguesa –RTP há 17 anos e divulga o cinema de língua portuguesa através da emissora na África. Ivonete Pinto é crítica de cinema e doutora pela ECA/USP, atuando também como docente nos cursos de cinema da UFPel. Leia abaixo, na íntegra, a entrevista que elas nos cederam.

 

Como foi a seleção dos longas? Muitos filmes inscritos?

IVONETE PINTO– Cerca de 30 inscritos, mas enviamos convites para que alguns produtores se inscrevessem. No total, vimos uns 40 filmes. Esse é o meu primeiro ano na curadoria de longas, mas o que a Carla tem relatado é que, desde a última edição, o festival tem trabalhado com as inscrições dos longas.

CARLA HENRIQUES– Sim, no ano passado foi criada a categoria competição de longas do festival. Antes competiam apenas os curtas. Nos anos anteriores, a categoria de longas se limitava a uma mostra de cinema. Como o Festival é pequeno, nós não tivemos tantos inscritos na mostra competitiva de longas e os que tivemos não atingiam um nível de suficiência, ou seja, os critérios básicos para a ideia geral deste festival. Por isso, acabamos realizando convites para que novos trabalhos integrassem a mostra. Este ano decidimos – e acho também que seja a maneira mais honesta de trabalharmos com este evento – selecionar apenas longas inscritos. Agora, em 2015, tivemos um maior número de inscritos e que seguiam os critérios do festival.

 

A mostra de longas é internacional e pudemos ver ao longo da mostra filmes do Brasil e de Portugal. Que outros países estiveram representados na competição?

CARLA – O Festival é direcionado. Por ser um festival da fronteira ele é bilíngue, então são aceitos filmes da América latina e de países de língua portuguesa.

IVONETE – Este ano, por ser ainda um começo, não houve muitas inscrições de países latinos. Não o suficiente para que pudéssemos destacar algum trabalho. A nossa preocupação é mostrar um tipo de filme que não tem muitas janelas, não tem muita visibilidade no Brasil. E um certo cinema latino tem essa visibilidade hoje em dia, representado por países como Colômbia, Venezuela, Argentina, porque eles participam de diversos festivais por aqui. O nosso compromisso social, cultural e político é trazer cinematografias mais distantes, cito como exemplo a Guiné Bissau e os Açores, um lugar pouco conhecido por aqui.

CARLA – Pouco conhecido, mas que tem muito a ver com esta região do sul do Brasil, porque Porto Alegre, pelo que fui aprendendo ao longo dos anos, teve colonização açoriana.

 

E existe algum critério temático de seleção destes longas?

IVONETE – Em relação aos brasileiros, eu e Carla pensamos que, mesmo já tendo sido exibidos em alguns festivais, aqui seria talvez a única oportunidade de o público local ter acesso a estes filmes, dada a dificuldade de lançamento comercial de tais trabalhos. Contudo, buscamos encontrar em todos alguma relação com o tema “fronteiras”, mesmo que de forma metafórica.

 

Que importância vocês acham que o festival tem aqui na região? Há uma mobilização aqui na cidade?

CARLA – A mobilização é mais sentida no nível das mostras regional e universitária. Neste aspecto é muito marcante, há realmente um envolvimento do público. Com relação às mostras de curtas e longas internacionais, o espectador começa a descobrir o que são estes filmes e que há outros cinemas além daquele comercial. O festival tem esse papel de criar públicos e algo que me toca bastante aqui é a questão das mostras direcionadas às escolas. Há sempre crianças que nunca estiveram em uma sala de cinema e, de alguma forma, o festival tem o mérito de formar este novo espectador. Educar o público adulto é difícil, mas enquanto é criança é muito mais fácil e isso pra mim é extremamente importante. Além disso, queria colocar é um festival que, apesar de pequeno, é extremamente completo. Há competição de longas e curtas, mostras regionais, universitárias e para as escolas e também as palestras e debates com convidados especiais. Ou seja, é um festival que começa de manhã e vai até a noite e não se limita apenas às mostras de filmes.

IVONETE – Este ano eu destacaria também o fato de o festival acontecer parcialmente em uma sala de cinema comercial aqui de Bagé. Isso fez com que muitas pessoas descobrissem o festival e tivessem um maior acesso a ele. Pra quem não tem a mobilidade de chegar aqui em Santa Tereza (Centro histórico e cultural onde acontece a maior parte do Festival) é uma oportunidade de contato. A partir de agora é possível que mude consideravelmente o perfil do público do festival justamente pela acessibilidade. Fora que a sala em questão oferece maior comodidade e qualidade de projeção dos filmes.

CARLA – Eu queria também comentar que nesta edição o Festival aconteceu em duas cidades. Descentralizamos Bagé para que o evento também acontecesse em Pelotas. De alguma forma, através do cinema, formamos uma ponte entre duas cidades. Não é uma ponte política, não é uma ponte de caráter social, é uma ponte cultural que foi criada.

IVONETE – E numa cidade como Pelotas que, embora não seja de fronteira – assim como Bagé também não é –, discute muito a questão da fronteira também pela proximidade que tem a Jaguarão, que é uma cidade fronteiriça.

 

E neste ano, diferente dos anteriores, houve um menor incentivo financeiro?

IVONETE – Isto é algo que todos os festivais estão sofrendo e é óbvio que um festival como este sofre também. Agora, com garra ele está acontecendo.

CARLA – Apesar de este ano haver muito menos apoio, o festival voltou a acontecer não apenas em Bagé, mas também em Pelotas. O espírito voluntário das pessoas que auxiliaram foi muito importante para que o festival acontecesse.

IVONETE – E também é necessário destacar a participação ativa dos estudantes de cinema da UFPel. É preciso valorizar o entusiasmo deste grupo de acadêmicos em participar e auxiliar no festival.

 

Confira os filmes selecionados para o festival:

Competição internacional de longas-metragens

Para minha amada morta, de Aly Muritiba

Rabo de peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel

O touro, de Larissa Figueiredo

As Cidades e as Trocas, de Luísa Homem e Pedro Pinho

Aspirantes, de Ives Rosenfeld

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry

Fome, de Cristiano Burlan

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Maurício Vassali

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-RS, é graduado em Cinema e Audiovisual pela UFPel. É membro da diretoria da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul na gestão 2018-2020.

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