Coberturas Críticas

Então Morri – O mosaico da vida

Uma senhora já falecida é velada em uma casa simples no interior do nordeste brasileiro. Filhos e conhecidos discutem qual é a melhor forma de manter o corpo e o que se deve fazer na madrugada do velório. Logo após, é apresentado ao espectador um outro velório, desta vez de um senhor de idade. A viúva chora de saudades. Um pouco mais tarde, assistimos à convivência de um casal já de idade, juntos há mais de 45 anos, e acompanhamos as compras da senhora nas vendas da cidade. Demora um pouquinho, mas logo é possível perceber a intenção dos cineastas nesta costura dos fatos: contar a vida de uma mulher no interior nordestino de trás para frente. Do seu velório ao seu nascimento. Se parasse por aqui, Então Morri (2016) não teria uma proposta realmente original. Entretanto, o documentário vai além.

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Esta mulher que Bia Lessa e Dany Roland acompanham na verdade não é uma só. Não é um processo no estilo Boyhood (2014) às avessas, apesar da semelhança em alguns pontos da proposta. Estão entrelaçados na produção diferentes momentos na vida de mulheres distintas, com o objetivo de contar uma única história. A criança que precisa extrair os dentes não é a mesma que participa de um concurso de dança na escola. A senhora que compra cigarros na venda não condiz com a que precisa abrir mão de um filho para poder criar o outro com um mínimo de dignidade. A forma como é montado o filme, contudo, leva a crer que sim.

Neste criativo processo, fica claro ao espectador que está retratada na tela a realidade de diferentes personagens, mas comum à maioria delas. Pelo menos esta parece a intenção. Captadas há 19 anos, as imagens já ruidosas registradas compõem este rico mosaico de vidas marcadas pela dura realidade de um nordeste anterior aos anos 2000. O resultado é um estudo de alto teor antropológico e de uma sensibilidade quase palpável. Alternando momentos de profunda tristeza aos mais bem humorados, o filme reflete sobre a morte, a fome e, principalmente, sobre a realidade daquelas mulheres de maneira muito humana.

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Não escapa, porém, o questionamento ético frente algumas escolhas do projeto, em especial em dois momentos marcantes. O primeiro deles é o velório de abertura. O registro é de uma mulher já falecida, inchada, com algodões nas narinas. Os personagens se questionam qual a melhor forma de evitar o mau cheiro, inevitável nas horas que seguem. Se por um lado todo o processo é extremamente realista e enriquecedor, há aí uma pessoa já falecida, sem opção de aceitar ou não a forma como está sendo retratada. Lá pelas tantas, alguém diz “quando os pais morrem, quem decide são os filhos”. Bom, talvez eles tenham permitido que tal registro fosse feito de maneira legal. A questão da alteridade aqui, entretanto, cai numa zona de incertezas. Mais tarde, uma senhora sai pelas vendas da cidade e bebe um copinho de cachaça em cada uma delas. Já bêbada, ela questiona os cineastas sobre a imagem que está passando. Inicialmente, ela pede pra não ser exibida daquela maneira, mas a cineasta insiste e a senhora aceita ao dar-se conta de que o espectador não a conhece. Há uma nítida permissão do registro, mas ainda assim ele deve acontecer? Não há aqui uma necessidade de se chegar às respostas, mas sim apenas levantar pontos de discussão tão caros ao processo do documentário.

Se tais questionamentos surgem e têm relevância, é justamente porque o documentário de Bia Lessa e Dany Roland alcança um resultado que beira o primoroso. Carregado por um humanismo sempre presente, o filme traz à tona questões de grande pertinência e, mesmo em sua longa caminhada até o corte final, jamais soa datado. Desde já, um destaque no festival deste ano.

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

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