Críticas

Desespero em Moscou: Ayka e o capitalismo selvagem

Tratar Ayka (2018) como um estudo sobre mulheres imigrantes na Rússia seria redutor. O filme em questão é isto e ainda mais. Ayka tira o ar mesmo de plateias acostumadas a verem na tela as desgraças da civilização.

O cenário escolhido para mostrar uma mulher que foge da maternidade após dar à luz, sem levar o bebê, é uma Moscou impessoal, onde não há edifícios, praças ou ruas de fácil identificação. A neve é personagem que torna todos os lugares em massa embranquecida e opressora. Tudo oprime a protagonista. Das ordas de usuários do metrô até a própria câmera, que em metáfora gruda no corpo de Ayka, no rosto de Ayka. A câmera que expõe é a mesma que empurra, que sufoca.

Como uma via crúcis circular, Ayka não terá sossego e não terá apoio de ninguém, exceto algumas poucas mulheres.

Os roteiristas são os mesmos de Tulpan (2008), Sergei Dvortsevoy e Gennadiy Ostrovskiy. O trabalho demonstra que não é preciso ser mulher para ser sensível ao sofrimento de uma mulher, mas é necessário ter inteligência emocional e ser solidário.

O diretor cazaque Sergei Dvortsevoy levou 10 anos para fazer seu segundo longa. Porém, enquanto em Tulpan éramos levados a conhecer a difícil vida nômade nas estepes, as piruetas do personagem apenas se concentravam em conquistar uma noiva para casar. Em Ayka, uma consciência social, humanitária, abandonou o que havia de apelo exótico do primeiro filme para erguer um monumento às pessoas que sofrem pela sobrevivência.

Naturalmente, não seria preciso ir tão longe para encontrar estas pessoas. A escravidão moderna igualmente pode ser vista em Biutiful (2010), de Alejandro Gonzáles Iñarritu, onde africanos são explorados na indústria têxtil de  Barcelona. Mais próximos a nós, e na mesma indústria de confecções de roupas, temos os bolivianos que trabalham em São Paulo. A impiedade mortal da neve os separa de Ayka.

Samal Yeslyamova, Melhor Atriz em Cannes, que também atuou em Tulpan, apresenta uma performance nuançada; é vítima inconteste, mas também quer ser durona porque é isto que vê ao redor. Embora pouco convincente, chega a ameaçar uma jovem que fica no seu lugar no emprego com um “eu vou te matar”. Entretanto, o comportamento dela sempre terá  como base o sofrimento. Mesmo que por alguns segundos, como na cena em que se permite cantar e dançar ao som de uma música qualquer. As dores físicas continuam ali, como o desespero sem trégua para fugir dos credores e a tentativa de conseguir trabalho. Não há como o espectador não ser tocado e não se perturbar com tanto desespero. Até mesmo um Putin ficaria alterado com tamanha agonia (ao menos os famosos cachorros dele ficariam).

Vinda do Quirguistão, Ayka é uma das tantas imigrantes que tenta trabalho na Rússia rica. Na Rússia que explorou suas repúblicas à época soviética e hoje mal disfarça seu despreparo e seu desprezo pelos imigrantes. Humilhações são constantes nas ruas e em metrôs, perpetradas por uma polícia que se orgulha da sua inclemência. Através do  filme, sabemos também o quanto esta polícia é corrupta (pela imprensa russa sistematicamente censurada é mais difícil acontecer este tipo de denúncia).

A pensão onde Ayka mora, com janelas permanentemente lacradas, é um amontoado de cubículos divididos por quirquiz e outras etnias. O aglomerado de pessoas faz lembrar um filme recente e igualmente exibido em Cannes, Leto (Summer, Kirill Serebrennikov, 2018 ), a diferença é que Leto se passa nos anos 80 e a inclusão de imigrantes não estava na agenda. Depois da perestroika e de um crescimento econômico conduzido por Putin, calcado num  capitalismo selvagem absoluto, os imigrantes são transformados na face mais visível dos efeitos deste sistema que enriquece alguns em cima da exploração dos mais frágeis. Ora de resgatar a expressão cunhada por Marx se quisermos entender um pouco o que se passa com Ayka.

Drama realista

Ayka tem sempre uma respiração ofegante pelo cansaço e pela dor. E ao  espectador também parece faltar o ar. Ayka nos remete à literatura que mais deu conta de personagens pobres. Dostoiévski, evidentemente, é o escritor de maior referência. Seu “Gente Pobre” é uma ilustração fidedigna de uma cultura onde o chá é alívio para o frio e por vezes o único alimento.  Sempre que é dado a Ayka o direito de tomar uma xícara de chá, Dostoiévski vem à tona e com ele séculos de desigualdade e sofrimento. O padecimento de Diévuchkin, protagonista do livro, no entanto, não é maior que o de Ayka porque ele tem emprego e porque é homem. Se Dostoiévski escrevesse hoje teria que ajustar sua sensibilidade e incluir estupros em seus enredos.

Ayka é um drama realista, com um roteiro e uma direção que se equivalem na força. Como drama, sua evolução nos leva a compreender a razão de Ayka ter abandonado a criança, inclusive agregando um motivo que sequer era necessário (ela revela este motivo quando decide resgatar e vender o bebê). O aspecto realista do filme, além de estar na mise-en-scène, é o ponto de partida do diretor, que se deparou com um dado estatístico: nas maternidades de Moscou, 248 bebês foram abandonados em 2010 por suas mães de origem quirquiz. A cena da médica que atende Ayka dias depois deste abandono é bastante didática. A médica  sabe que Ayka mente ao atribuir seu estado a um aborto. Assim, o roteiro, que mais uma vez precisa ser enaltecido, informa com habilidade na dramaturgia uma situação do contexto histórico social da Rússia moderna.

A forma com que o roteiro insere comentários do atual cenário russo é sempre clara, nem por isso óbvia. A clínica veterinária que Ayka encontra trabalho temporário fornece elementos para um discurso político sobre as distorções do referido capitalismo selvagem.

Sobre o corpo de Ayka, também é preciso falar: toda a opressão que a câmera acaba impingindo a ela, por colar ao seu rosto, tem outro tratamento quando se refere ao sangue decorrente das consequências do parto e a fuga da maternidade. Só nos é dado  ver o que é necessário. Nos momentos em que Ayka precisa tirar o leite à força para que não ocorra infecção das mamas, nunca vemos o peito da atriz, afinal, a dor profunda é expressa à exaustão pelo seu rosto. A exceção é quando este peito significa algo maior  ─ o único momento que Ayka amamenta o bebê. Ali, o filme ganha outra perspectiva e o espectador constrói a sua continuação da história.

Por procedimentos como estes, Ayka deixa de ser um filme “de festival” e torna-se  acessível a toda gente, pois que não recorre a códigos de linguagem dominados só pelo público que consome filmes de arte. Tulpan já caminhava neste sentido, embora ainda refém de mostras e festivais, mas lamentavelmente, por canhestrice de programadores, Ayka está em cartaz em poucas salas comerciais do País.

Ivonete Pinto

Doutora em Cinema pela USP, docente no curso de Cinema e Audiovisual da UFPel, organizadora, com Orlando Margarido, de "Bernardet 80: impacto e influência no cinema brasileiro", editora da Revista Teorema, filiada à ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e Accirs (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul).

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