Construindo Pontes ou Como Nossos Pais

Construindo Pontes (2017) trabalha, essencialmente, ao redor de inúmeras oposições. Dualidades. Homem e mulher, esquerda e direita, pai e filha, e por aí vai. O título, sugestivo às intenções do filme, denota o “exercício de democracia” que Heloísa Passos descreve sua obra por ser. O exercício em questão se dá pela condução do olhar à vida familiar de Heloísa, a sua relação com seu pai Álvaro Passos, engenheiro responsável por obras de estradas e pontes representativas do milagre econômico atribuído ao auge da ditadura civil-militar brasileira. A partir de então se edifica quase um filme de hangout, em que dois personagens de visões de mundo opostas, porém íntimos entre si, pois pai e filha, navegam entre suas falhas de discurso em discussões fadadas à inconclusão. A narrativa do filme, porém, busca alguma espécie de reconciliação, uma ponte, pois a certo nível Heloísa e Álvaro são tornados baluartes de duas definições políticas generalistas, como na cena, mais perto do fim da projeção, em que ambos discutem sobre que lado tomar em direção à autoestrada, ela defendendo a esquerda, ele a direita.

O ponto de partida é macrossômico, uma reflexão de Heloísa a partir do encontro de imagens de Super 8 documentando as Sete Quedas antes de sua inundação para a construção de Itaipu. Com uma câmera aérea viajando contra o fluxo deste deserto de água, ela narra o processo que a levou até a casa do pai (que não foi responsável pela obra da represa), onde monta um pequeno cinema para exibir aos pais imagens de arquivo tanto públicas quanto familiares, comentadas ao vivo. O debate proveniente destas sessões – e do assistir ao Jornal Nacional durante a condução coercitiva de Lula – é o explicitador do conflito principal. A transposição do diálogo familiar de embate político, de imediata identificação com uma parcela do público brasileiro de 2017, não se insere apenas por fetiche à catarse do conflito, pois a montagem de Tina Hardy e Isabela Monteiro de Castro escolhe evidenciar, por exemplo, a dissipação da tensão, aguardando a poeira entre Heloísa e Álvaro baixar para então transicionar a outro bloco na narrativa. É um toque extremamente humano que não se vê muito no cinema, a simples compreensão de que o processo de apaziguar-se pós-conflito pode ser aplicado à forma fílmica.

Opta-se por desvelar o processo, até porque os maiores pontos de interesse do filme residem justamente nas quebras de cena, no suposto desdramático, como quando Heloísa se inflama diante do malabarismo retórico do pai, não se isentando de autocrítica, ou quando o dirige num plano em que deve cortar a grama. A tentativa de transcender o embate pessoal com o constante remeter à imagética da ditadura, como quando se submerge um jipe militar em um mar lamacento de imagens da repressão, acaba sendo impertinente ao filme, pois os horrores já ressoam nas calmas palavras do pai. A necessidade de, por dispositivo, posicionar-se política e historicamente através de digressões poéticas, segura o filme de alcançar seu potencial expressivo, por uma incompreensão das próprias forças e por insegurança no público, dada a redundância de sequências como a (por si, belíssima) sequência das imagens das Sete Quedas sendo projetadas nas pedras de Itaipu ou na narração de oposições como “eu falo ditadura, ele fala revolução” (reiterando constatações muito mais fortes se relegadas à compreensão do espectador). Nada alcança mais frontalidade política do que a simples cena em que Álvaro tenta aconselhar Heloísa sobre como fazer seu próprio filme.

Em um segundo bloco, no qual ambos embarcam juntos numa road trip em direção ao deserto aquático que abriga as Sete Quedas, o filme se estabelece melhor, justamente por voltar-se ao particular, aos meandros da relação pai e filha. O excelente final em que, após o pai ter assumido controle da narrativa e a conduzir a uma ponte que projetou, eles observam um trem de cem vagões passando ao pôr do sol, sintetiza com maestria a principal constatação discursiva: convivem, mas insidiosamente, são incapazes de reconciliação. Álvaro fala sobre seu projeto, Heloísa sobre a luz do sol incidindo no plano. Mundos diferentes, ambos falam e não se ouvem. Atualíssima, a obra poderia expressar ainda mais força política se justamente não insistisse na inserção do macropolítico, pois cancela um pouco da autocrítica desenvolvida pela diretora. “Família é o não dito”, como a própria Heloísa fala, e o abrir das portas ao lar, aliado à tentativa de diálogo, já é um ato de força suficiente por si só. Pode-se dizer que a ponte que o filme tenta construir fica destinada à inconclusão, por ambicionar alcançar muito mais longe do que sua estrutura permite. Porém, já é um começo.

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