Coitus interruptus: Cinquenta tons mais escuros de frustração

Fifty Shades Darker
É chover no molhado comentar que existem livros e filmes que tratam da temática erótica com maior êxito do que a trilogia Cinquenta Tons de Cinza. A obviedade é gritante, porém nunca é demais lembrar. Lembrar também que a escrita de E. L. James é primária, contida e fria, e que seu controle sobre a produção cinematográfica baseada em seus livros é o que leva a serem realizados filmes sem profundidade alguma que mais ameaçam do que realmente cumprem. Mesmo originada de um fanfic da terrível saga Crepúsculo, existia uma promissora storyline inicialmente na trama ao tratar do embate de poderes entre os sexos.

Se existia uma fagulha de buscar recursos e abordagens interessantes com a irregular primeira parte dirigida por Sam Taylor-Johnson, a segunda realização, Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker, 2017), é de uma frustração e pastiche sem fim. Enterra certamente qualquer expectativa de melhora. Dirigido pelo duvidoso James Foley (A Estranha Perfeita) e roteirizado pelo marido de E. L. James, somos levados à inserção de flashbacks da vida difícil de abusos que o personagem de Christian Grey passou quando criança. A maneira como surgem são dignas de novelas mexicanas, diga-se de passagem. Além disso somos introduzidos aos novos vilões, todos muito mal desenvolvidos: o editor abusivo do trabalho de Anastacia, uma antiga submissa de Grey que decidiu se vingar depois de tentar suicídio e, claro, a mais esperada presença, a “Sra. Robinson”. Interpretada por Kim Basinger a personagem é a mulher que iniciou Grey nas sessões de sadismo sexual. Basinger é nada mais, nada menos que um dos grandes símbolos sexuais dos anos 80 e 90, mas aqui tão mal utilizada que se torna praticamente esquecível, infelizmente.

Fifty Shades Darker
Kim Basinger, infelizmente, em participação esquecível

Em meio a estas novas entradas na trama é notável o desperdício maior que é Dakota Johnson como Anastacia. A atriz, mal direcionada aqui, empaca em diversas cenas e tenta trabalhar com diálogos fracos que não levam a lugar algum e comprometem a tensão sexual junto de Jamie Dornan, interprete de Grey. A química do casal é toda desajeitada, fora de ritmo. Vale lembrar que é de Johnson a melhor performance no longa-metragem inédito nas telas brasileiras A Piscina (A Bigger Splash, 2015), dirigido pelo italiano Luca Guadagnino. A garota é capaz de muito mais.

E se a bela fotografia e o sarcasmo surgem como cartas na manga, o senso de humor só dá as caras em cenas muito pontuais e logo desaparece para mostrar o quão tóxica pode ser a relação que é vendida ao público. Grey é, afinal de contas, um stalker, controlador e obsessivo por controle. Notar estas assustadoras características parece difícil para o público que prefere romantiza-las, com as presenças femininas nas sessões de suspirando de amores pelo sofrido playboy.
E alguns ainda acreditavam que o câncer do cinema americano nos anos 90 eram as comédias românticas estreladas por Sandra Bullock e Meg Ryan.

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