Entrevista: Eliane Caffé

Paulistana premiada internacionalmente com curtas e longas-metragens desde o final dos anos 80, a diretora Eliane Caffé conversou com a Calvero durante a 20ª Mostra de Tiradentes sobre a sua última realização, o elogiado Era o Hotel Cambridge. Na história, um grupo de refugiados recém-chegados ao país dividem com um grupo de sem-tetos um velho edifício abandonado no centro de São Paulo. Junto da tensão constante do possível despejo, os moradores apresentam suas problemáticas pessoais e ainda, precisam aprender a conviver uns com os outros compartilhando as dificuldades da vida nas ruas. O filme, premiado tanto pelo júri popular quanto pelo júri da crítica no último Festival do Rio, foi exibido na mostra mineira e já tem estreia agendada para a primeira quinzena de março. Confira o bate-papo.

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Entrevista: Andrea Kleinman e a edição em Dólares de Areia

A primeira impressão ou emoção que teve um editor ao ver o material bruto de um filme será, provavelmente, a mesma que um espectador terá ao vê-lo terminado. O diretor, por outro lado, será sempre influenciado por todas as etapas pelas quais teve que passar até chegar a esse material. O mesmo com o produtor, o fotógrafo, o diretor de arte. Por isso o editor é também o primeiro espectador de qualquer filme, e parte do seu trabalho é nunca desprender-se dessa sua condição privilegiada.

O olhar fresco do editor, de quem começa a trabalhar quando todo mundo está terminando, somado a todas as outras bases que o sustentam – desde o domínio sobre a linguagem cinematográfica até noções de música e atuação – deve estar presente durante todo o processo de edição. Mantê-lo, quase sempre será um jogo entre esquecer e recordar, ver e desver, uma vez que o que lhe fez rir ao ver uma cena pela primeira vez, como uma piada repetida, já não terá a menor graça depois de vê-la outras dez.

Em Dólares de Areia (2014), um dos destaques na programação portoalegrense em 2015, a editora argentina Andrea Kleinman foi até a República Dominicana e montou o filme na sua locação principal: a casa da protagonista Anne, interpretada por Geraldine Chaplin. A partir de uma entrevista sobre a sua experiência no filme, Andrea abre caminhos para uma discussão sobre o papel do editor, desde a relação de troca que se estabelece com o diretor até a influência que pode ter na interpretação dos atores.

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Entrevista com o cineasta Michael Wahrmann

No dia 30 de maio de 2015, o projeto universitário Cineclube Zero Quatro, associado ao curso de Cinema e Audiovisual da UFPEL, apresentou uma sessão do longa Avanti Popolo (2014), dirigido por Michael Wahrmann, com a presença do mesmo. Posterior à exibição, promoveu-se um descontraído debate onde o diretor respondeu a perguntas da plateia e consequentemente revelou pensamentos e intenções aplicadas ao desenvolvimento da obra.

Wahrmann é um uruguaio-israelense radicado no Brasil, e trabalha com arte e fotografia desde 2000. Seu primeiro curta, Avós (2009), recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. Além de Avanti Popolo, Michael também dirigiu o curta Oma (2012).

O longa retrata André (André Gatti) no resgate de imagens Super 8 captadas pelo seu irmão nos anos 70, tentando reavivar a memória do seu Pai (Carlos Reichenbach) que há 30 anos espera seu filho desaparecido. Ao longo desta busca, André passa por alguns personagens excêntricos, como um taxista colecionador de hinos nacionais e o técnico de restauração de Super 8 que produz redublagens em um movimento autodenominado “Dogma 2002”.

O debate abriu com o questionamento sobre o jogo de memórias apresentado no filme através da alternação entre as imagens de Super 8 e também sobre a relação da técnica com os curtas anteriores de Michael, definindo a natureza do que é real ou não dentro da narrativa e da produção.

Cada indivíduo participante do debate é individualmente numerado.

 

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O diretor Michael Warhmann

 

Espectador 1: Queria que você falasse um pouco sobre essa questão da relação documentário-ficção, no sentido de que ao mesmo tempo em que você eterniza uma memória através do Super 8, já sendo uma memória recordada por ser nesse formato, e a eterniza novamente através de um filme, e finalmente em uma última imagem resgata a memória do Carlos Reichenbach.
Michael Wahrmann: Começando pelo final, isso do Carlão foi por acaso. Eu não o matei (risos). Eu chamei o Carlão porque ele é muito parecido com o André Gatti. Ele era meu professor na faculdade, eu chamei o André para ser o protagonista. E aí um dia por acaso eu conheci o Carlão, e eu vi que ele seria muito semelhante fisicamente, e eu fui lá “Carlão, vem fazer o papel do pai” e ele veio. Um ano depois ele faleceu, então acabou sendo também uma homenagem a ele.

E1: A montagem também tem uma tendência de criar momentos reais, porém eles são ficcionais; aquele tempo dilatado se assemelha a um documentário – achávamos que se tratava de um na primeira vez que assistimos ao filme. Então essa dilatação do tempo tem essa relação documental-ficção.
M: Bom, neste momento, hoje em dia, no ano de 2015, não se trabalha mais com essas expressões. Para nós, é cinema. Fazemos filmes. Paramos de pensar se é ficção ou se é documentário. Ao meu ver, pelo menos, o documentário hoje em dia se definiria como uma linguagem para a televisão, no sentido de documentar definido como o ato de pesquisar, algo antropológico, seja o tema que for. E no cinema trata-se de um lugar em que temos liberdade total de fazer o que é entrelinha. Quando fomos trabalhar o Avanti Popolo, decidimos não apresentar essa distinção. Precisávamos de imagens de Super 8 para apresentar o personagem do filho. Tanto que algumas gravações são reais, realmente capturadas no formato, algumas são digitais, posteriormente trabalhadas para aparentar serem de arquivo. Não se distingue quais são reais, quais são 16mm, quais são Mini DV, a questão é que todas constróem a ideia de supostas imagens criadas pelo filho há muitos anos. Porém são imagens de várias famílias, apresentadas como se fossem de uma só. Então hoje em dia como eu vejo o cinema ou o que se tornou o cinema com o surgimento do digital é que ele permite essa dinâmica. Tanto que ao mesmo tempo que capturamos o filme com uma Canon 5D, trabalhamos a aparência de um filme antigo. Estamos falseando o público, nos apropriando de tudo. E o filme de certa forma é o que o “Dogma 2002” representa. Ele é uma colagem de imagens dubladas. Também tem a ver com isso, com a nossa apropriação de imagens atualmente. Estamos nos apropriando um do outro, as linguagens estão se misturando, e essa distinção não é mais relevante. E a questão da memória, digamos que o Super 8 representa aquilo que seria a nossa memória coletiva. E o filme em si representa uma memória coletiva latino-americana, digamos. Por isso existe a construção de uma ficção a partir de registros reais de várias famílias. Qualquer família latina poderia ter o registro de um aniversário, de uma marcha de soldados. Não foi a preocupação em abordar uma questão específica, e sim uma generalizada. Em nenhum de meus três filmes há detalhes específicos, não são biografias. No Oma, por exemplo, um filme que consiste basicamente em um depoimento de uma mulher falando sobre sua vida, de alguma forma, o espectador não sabe nada sobre ela. Acaba o filme, você não sabe quantos anos ela tem, não sabe o que aconteceu com ela, mas tem algumas pistas. Eu trabalho com a memória no sentido de que ela seja generalizada, partindo do pequeno, do privado, para o geral. É a mesma coisa com esse aqui. Se entende que há um filho que foi para a Rússia, que voltou, que foi sequestrado, talvez não. A questão biográfica específica é irrelevante para o filme e para mim. O que interessa é a história geral e como ela reflete nas pequenas coisas, no íntimo, no familiar. Como, digamos, no Avós, por causa do holocausto, uma criança ganha meias de aniversário, ou como nesse caso, por causa da ditadura militar, um cara tem que dormir em um sofá. Então são essas questões grandes e como elas se refletem no pequeno.

 

E2: Como foi o processo de produção? Trabalhar com animais ou ambientes externos. Vocês fecharam a rua na cena do ônibus?
M: Já que vocês são estudantes de cinema, vou dar alguns detalhes técnicos do filme. Ele foi produzido com orçamento de curta metragem e gravado ao longo de seis diárias. Ganhamos um prêmio de curta, o filme tinha roteiro de curta, e ele foi crescendo ao longo da pré-produção. O filme acabou sendo muito trabalhado no improviso. Abrindo um parêntese em relação ao cachorro, todos os personagens do filme são interpretados por não atores. Exceto a Estopinha, pois ela é uma atriz. Ela é a cachorrinha do Dr. Pet, da TV Record. Realmente é a única profissional de atuação que participou do filme.Voltando ao aspecto da produção, ganhamos um prêmio por edital para fazer um curta metragem, o projeto foi crescendo, porém o orçamento se manteve o mesmo, e como só tínhamos essa quantidade de dinheiro para filmar, não se podia estender o número de diárias, então gravamos em seis diárias. Pelo tamanho da produção, não havia como fechar uma rua. Conseguimos pedir emprestado com a empresa o ônibus, mas não conseguimos fechar a rua. Há coisas que acontecem na rua das quais não temos controle. Assumimos o que podemos e não podemos. Há um equilíbrio das duas coisas.

E3: Onde foi gravado?
M: O local de gravação foi São Roque. Na verdade, três locais. Devido ao orçamento, é mais barato se afastar das grandes cidades para concentrar sua equipe. Hospedamos todos em uma pousada por seis dias, filmando em São Roque com a ajuda da prefeitura. E lá, tudo é mais calmo, há menos trânsito, então gravar foi um processo menos complicado. A parte externa da casa foi na periferia de São Paulo. O interior da casa foi em um sítio de São Roque que transformamos em um estúdio, montamos todo o cenário da sala. É engraçado, pois a parte interna tem uma escada, e a casa usada para as externas não tem segundo andar.

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E4: E a oficina do técnico em Super 8? Foi no sítio?
M: Não, a oficina é realmente dele. O técnico interpreta ele mesmo. Ele realmente faz os filmes, inclusive foi homenageado recentemente na Espanha em um festival de Super 8 por seu trabalho de dublagem nos filmes “Dogma 2002”. O projeto e as dublagens exibidas no Avanti são realmente de autoria dele.

E4: Então já há mais adeptos?
M: Não, é um projeto só dele e eu acredito que faça parte da ideia que seja só dele.

E5: Gostaria de saber como foi o processo de contribuição dos não atores, já que o grupo consiste em professores e estudiosos de cinema. Como foi o processo de criação de roteiro e como eles contribuíram?
M: Na verdade o único que realmente contribuiu foi o André Gatti. Ele era meu professor, ele entrou no projeto desde o começo, escrevi o roteiro já pensando com ele como protagonista, então o processo de escrita foi junto a ele. Os outros foram surgindo ao longo da pré-produção, quando se pensava, por exemplo, “preciso de um taxista chato”, e quem conhece o Eduardo Valente sabe que ele é uma pessoa muito chata (risos). Gostamos muito dele, mas sabemos que ele é assim. As pessoas foram crescendo em função dos seus respectivos papéis. O vizinho com o olho de vidro, por exemplo. Eu precisava de um vizinho estranho, lembrei de um amigo meu que tem um olho de vidro e que gosta de brincar de tirá-lo, então adaptei o roteiro para inserir esse aspecto no personagem. Fomos trabalhando em função dos atores e vice-versa. Houve momentos em que não se sabia se os atores estavam influenciando o roteiro ou o roteiro influenciava os atores, as coisas acabaram se misturando, e isso é algo que eu acho muito legal que tem acontecido. E na hora das filmagens também houve um pouco disso, houve um equilíbrio entre personagens e pessoas reais. Não se sabia se um interpretava ou apenas agia. Em certo momento o Carlão frisou: “Mas o André Gatti está fazendo ele mesmo. Esse aqui não sou eu”. As coisas se misturaram muito e ninguém sabia direito quem era quem.

 

E6: Mas chegou a haver um trabalho de preparação de atores?
M: Sim. Eu não gosto de trabalhar pessoalmente com atores. Porém eu tenho um amigo que é digamos um coach, que filmava o trabalho com eles, me enviava as gravações, eu passava minhas anotações e observações para ele e acabou sendo um processo à distância.

E7: Como era um roteiro de curta que depois se transformou em um longa, houve essa adaptação logo na escrita ou o tempo foi preenchido posteriormente?
M: Eu escrevi um roteiro para curta-metragem para me inscrever em um edital. Ganhou. Aí eu comecei a trabalhar o roteiro de novo porque era uma primeira versão, e ele foi crescendo. Quando percebi eu tinha cinquenta páginas. Mas percebe-se pela decupagem que são muitas páginas mas os tempos são muito longos, há poucos planos. Logo nesse desenvolvimento eu já percebi que o filme duraria mais do que eu pensava.Mas acabou que eu juntei a produção de dois filmes em um, porque foi a filmagem do miolo do filme, o tronco, e posteriormente os extras, que seriam os filmes caseiros.

E5: Então foi entregue uma montagem em forma de curta para o edital?
M: Sim.

E8: Há algum motivo específico para os planos em Super 8 terem movimento de câmera e os outros serem mais fixos?
M: A Super 8 é por sua natureza uma câmera caseira. É uma câmera geralmente usada por pessoas sem experiência de operação. E pela câmera de cinema, nos planos da casa e outros ambientes, há um diretor filmando. São planos fixos e frontais porque eu sempre desenvolvo as imagens a partir dessa ideia. E após definir os posicionamentos eu começo a pensar em como mexer a câmera. E eu preciso de um motivo muito bom para mexê-la. Eu não conseguia encontrar uma razão para fazer isso. E a partir disso as coisas foram se encaixando e fui percebendo que é um filme sobre uma espera frustradaem que nada acontece, ninguém se move. Não se move o povo, não se move o indivíduo. Ninguém chega e ninguém vai, então não há por quê eu chegar como diretor e fazer algo além de observar. Assim como o espectador também deve olhar para esses personagens e esperar. Esse olhar distante permite uma falta de identificação e de julgamento. Isso permite que haja uma reflexão sobre eu mesmo, pois cria-se um espelho em que se pode refletir sobre o que se vê de uma forma mais objetiva. Não quero vitimizar as pessoas retratadas no filme, eles não são coitados. Quero que olhemos para eles com um olhar crítico e pensemos “por que ele não supera o filho, por que não se supera nada?”. Enfim, para mim isso foi o que fez sentido. E também por termos apenas seis diárias, se eu mexo a câmera, eu perco tempo e perco dinheiro.

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E7: Mas na verdade acaba funcionando pois respeita o tempo dos atores.
M: Sim, com certeza.

E1: Tem uma cena no filme em que há uma gravação de Super 8 de uma pessoa gravando em Super 8, e esse cena é gravada por uma câmera de cinema. Há todo um jogo de metalinguagem, e também por envolver seus amigos como o Eduardo Valente, o Gatti, pessoas do cinema. Pelo que eu entendi, durante todo o tempo está latente que é um filme tentando falar sobre cinema.
M: Ele fala sobre cinema o tempo todo. Temos na última cena do filme um cinema em ruínas e um diretor cantando um hino socialista, sozinho. Se não se trata de cinema eu não sei do que se trata. Ele tem que ser sobre cinema sim ou sim. Começa com um diretor narrando um programa de rádio, como é descoberto no final.

E1: Ele é sobre cinema porém a questão do documentário e da ficção não interessa para você. Mas é um filme que fala de cinema?
M: Claro que interessa, mas faz parte do filme não como uma questão, e sim como um fato. Não existe discussão dentro desse fato, já superamos este estágio. Para o filme, isso não é uma questão. Ela está resolvida, o filme não questiona e sim dá a resposta. O que eu questiono é “qual o papel do cinema nisso tudo?”. Eu apresento a minha frustração como diretor frente a tudo o que aconteceu até agora. Por isso no final há eu, Micha, como diretor, cantando um hino socialista sozinho, com um cinema em ruínas. Eu estou impotente frente a tudo o que se viu até agora. Frente a memória, aos ideais, ao socialismo, à ditadura, ao que seria o futuro. Se me perguntam “quais os seus projetos?”respondo “não faço ideia”. Sou um socialista frustrado que não sabe o que fazer com o socialismo.

Entrevista com Carla Henriques e Ivonete Pinto, curadoras do Festival da Fronteira

Em sua sétima edição, o Festival Internacional de Cinema da Fronteira aconteceu em Bagé entre os dias 23 e 28 de novembro. Entre as diferentes mostras competitivas que compõem o Festival, a de Longas Metragens exibiu, entre brasileiros e portugueses, sete filmes ainda inéditos no circuito. A Calvero conversou com as curadoras Carla Henriques e Ivonete Pinto sobre o processo de seleção destes trabalhos. Carla trabalha na Rádio e Televisão Portuguesa –RTP há 17 anos e divulga o cinema de língua portuguesa através da emissora na África. Ivonete Pinto é crítica de cinema e doutora pela ECA/USP, atuando também como docente nos cursos de cinema da UFPel. Leia abaixo, na íntegra, a entrevista que elas nos cederam.

 

Como foi a seleção dos longas? Muitos filmes inscritos?

IVONETE PINTO– Cerca de 30 inscritos, mas enviamos convites para que alguns produtores se inscrevessem. No total, vimos uns 40 filmes. Esse é o meu primeiro ano na curadoria de longas, mas o que a Carla tem relatado é que, desde a última edição, o festival tem trabalhado com as inscrições dos longas.

CARLA HENRIQUES– Sim, no ano passado foi criada a categoria competição de longas do festival. Antes competiam apenas os curtas. Nos anos anteriores, a categoria de longas se limitava a uma mostra de cinema. Como o Festival é pequeno, nós não tivemos tantos inscritos na mostra competitiva de longas e os que tivemos não atingiam um nível de suficiência, ou seja, os critérios básicos para a ideia geral deste festival. Por isso, acabamos realizando convites para que novos trabalhos integrassem a mostra. Este ano decidimos – e acho também que seja a maneira mais honesta de trabalharmos com este evento – selecionar apenas longas inscritos. Agora, em 2015, tivemos um maior número de inscritos e que seguiam os critérios do festival.

 

A mostra de longas é internacional e pudemos ver ao longo da mostra filmes do Brasil e de Portugal. Que outros países estiveram representados na competição?

CARLA – O Festival é direcionado. Por ser um festival da fronteira ele é bilíngue, então são aceitos filmes da América latina e de países de língua portuguesa.

IVONETE – Este ano, por ser ainda um começo, não houve muitas inscrições de países latinos. Não o suficiente para que pudéssemos destacar algum trabalho. A nossa preocupação é mostrar um tipo de filme que não tem muitas janelas, não tem muita visibilidade no Brasil. E um certo cinema latino tem essa visibilidade hoje em dia, representado por países como Colômbia, Venezuela, Argentina, porque eles participam de diversos festivais por aqui. O nosso compromisso social, cultural e político é trazer cinematografias mais distantes, cito como exemplo a Guiné Bissau e os Açores, um lugar pouco conhecido por aqui.

CARLA – Pouco conhecido, mas que tem muito a ver com esta região do sul do Brasil, porque Porto Alegre, pelo que fui aprendendo ao longo dos anos, teve colonização açoriana.

 

E existe algum critério temático de seleção destes longas?

IVONETE – Em relação aos brasileiros, eu e Carla pensamos que, mesmo já tendo sido exibidos em alguns festivais, aqui seria talvez a única oportunidade de o público local ter acesso a estes filmes, dada a dificuldade de lançamento comercial de tais trabalhos. Contudo, buscamos encontrar em todos alguma relação com o tema “fronteiras”, mesmo que de forma metafórica.

 

Que importância vocês acham que o festival tem aqui na região? Há uma mobilização aqui na cidade?

CARLA – A mobilização é mais sentida no nível das mostras regional e universitária. Neste aspecto é muito marcante, há realmente um envolvimento do público. Com relação às mostras de curtas e longas internacionais, o espectador começa a descobrir o que são estes filmes e que há outros cinemas além daquele comercial. O festival tem esse papel de criar públicos e algo que me toca bastante aqui é a questão das mostras direcionadas às escolas. Há sempre crianças que nunca estiveram em uma sala de cinema e, de alguma forma, o festival tem o mérito de formar este novo espectador. Educar o público adulto é difícil, mas enquanto é criança é muito mais fácil e isso pra mim é extremamente importante. Além disso, queria colocar é um festival que, apesar de pequeno, é extremamente completo. Há competição de longas e curtas, mostras regionais, universitárias e para as escolas e também as palestras e debates com convidados especiais. Ou seja, é um festival que começa de manhã e vai até a noite e não se limita apenas às mostras de filmes.

IVONETE – Este ano eu destacaria também o fato de o festival acontecer parcialmente em uma sala de cinema comercial aqui de Bagé. Isso fez com que muitas pessoas descobrissem o festival e tivessem um maior acesso a ele. Pra quem não tem a mobilidade de chegar aqui em Santa Tereza (Centro histórico e cultural onde acontece a maior parte do Festival) é uma oportunidade de contato. A partir de agora é possível que mude consideravelmente o perfil do público do festival justamente pela acessibilidade. Fora que a sala em questão oferece maior comodidade e qualidade de projeção dos filmes.

CARLA – Eu queria também comentar que nesta edição o Festival aconteceu em duas cidades. Descentralizamos Bagé para que o evento também acontecesse em Pelotas. De alguma forma, através do cinema, formamos uma ponte entre duas cidades. Não é uma ponte política, não é uma ponte de caráter social, é uma ponte cultural que foi criada.

IVONETE – E numa cidade como Pelotas que, embora não seja de fronteira – assim como Bagé também não é –, discute muito a questão da fronteira também pela proximidade que tem a Jaguarão, que é uma cidade fronteiriça.

 

E neste ano, diferente dos anteriores, houve um menor incentivo financeiro?

IVONETE – Isto é algo que todos os festivais estão sofrendo e é óbvio que um festival como este sofre também. Agora, com garra ele está acontecendo.

CARLA – Apesar de este ano haver muito menos apoio, o festival voltou a acontecer não apenas em Bagé, mas também em Pelotas. O espírito voluntário das pessoas que auxiliaram foi muito importante para que o festival acontecesse.

IVONETE – E também é necessário destacar a participação ativa dos estudantes de cinema da UFPel. É preciso valorizar o entusiasmo deste grupo de acadêmicos em participar e auxiliar no festival.

 

Confira os filmes selecionados para o festival:

Competição internacional de longas-metragens

Para minha amada morta, de Aly Muritiba

Rabo de peixe, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel

O touro, de Larissa Figueiredo

As Cidades e as Trocas, de Luísa Homem e Pedro Pinho

Aspirantes, de Ives Rosenfeld

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry

Fome, de Cristiano Burlan