Lady Bird – nascido para ser cult

Se a espectadora ou o espectador cresceu em uma cidade do interior, certamente terá uma afinidade maior com a trama. A euforia da ideia de sair de um pequeno lugar e partir rumo ao enorme e desconhecido é meio intransferível. Mas nem só o público que se viu livre do interior é capaz de se aproximar e, eventualmente, se apaixonar pelo filme de Greta Gerwig. Os adeptos podem ser bem cosmopolitas.

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Pendular – Amar é um pêndulo

Pendular (2017), dirigido por Júlia Murat, não é o primeiro e com certeza não será o último dos filmes neste planeta a falar de relacionamentos em crise. Mas com certeza é um dos poucos que questiona a ideia vendida pela publicidade e por tantas produções audiovisuais de que uma relação passa por fases boas e ruins, assim, bem definidas e identificáveis. Júlia foi buscar inspiração na fonte certa, a sempre inovadora e surpreendente artista Marina Abramović, que na performance intitulada Rest Energy, onde, acompanhada de seu companheiro Ulay, tentava manter o equilíbrio para evitar que uma flecha segurada por ele atingisse seu peito. Marina colocou na mão do homem que amava algo que colocava sua vida em risco. E não seria isso que acontece quando optamos por dividir a vida com alguém?
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Não Devore Meu Coração! ou Até a Derrota

Um animal morto na estrada leva um motoqueiro, até então não entendido como Cauã Reymond, a derrubar sua moto para fora do asfalto – e de quadro. A câmera se movimenta em panorama à esquerda, revelando não um homem acidentado, mas sim ajoelhado, visor do capacete fitando a lente que se aproxima através de um afetado zoom. Uma imagem suspensória, plano inaugural que antecipa uma jornada fantasiosa, aptamente dividida em cinco capítulos [jocosamente entitulados Meninos de Peito Vazio; A Guerra das Lágrimas; Porque Esse Nosso Amor Quebrou Meu Peito ao Meio; A Fuga do Cowboy Covarde; e A Batalha de Ñande Pa (Lágrimas da Menina Jacaré)], onde um inesgotável inventário simbológico dá conta de ilustrar e construir uma mitologia própria, distintamente latino-americana.
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O poder simbólico em O Estranho que Nós Amamos

O grande trunfo da psicanálise foi a descoberta do inconsciente, porém sua relação com a sexualidade e a repressão não é tão eloquente e não se sustenta se analisada em uma estrutura social ou de gênero. Freud reconhecia a soberania do homem e a representava no pênis, mas nunca se propôs a analisar a origem, confessando que ignorava a mesma.  Inveja. O outro. Simone de Beauvoir nos anos 60 utilizou da teoria crítica feminista para refutar pontos importantes do estudo de Freud, concluindo que a mulher não deseja ter o falo, mas sim deseja ter um símbolo de poder para conseguir uma autenticidade como ser humano e não como objeto. O indivíduo se retém a totens, símbolos, uma inautenticidade. Neste ano, Sofia Coppola lança a adaptação de O Estranho que Nós Amamamos (2017), romance de 1966 do autor Thomas Cullinan que já havia sido filmado em 1971 por Don Siegel. A diretora que leva em sua filmografia certo tom entediado, aqui se ausenta do ambiente aristocrata e de luxo apresentados em Maria Antonieta (2006) e Um Lugar Qualquer (2010), para dar o enfoque a um colégio de meninas localizado ao sul dos Estados Unidos. Cenário que comparado a magnificência de castelos e hotéis de luxo de filmes anteriores, preza pelo confinamento e isolamento.
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O estranho paraíso de Aronofsky em Mãe!

No cristianismo, o pecado original é a doutrina da imperfeição humana, do mal e do sofrimento, é a queda do homem por ele mesmo. Adão e Eva gozavam do paraíso antes da chegada do intruso. A Serpente surge no Jardim do Éden para instigar os dois habitantes da terra a cometerem o único delito que foram advertidos a não fazer. A mulher, criada a partir do homem para satisfaze-lo é quem posterga as ordens divinas.

Em 2017, um tema em comum repetiu-se dentro de alguns filmes: o do intruso. Em O estranho que nós amamos (The Beguiled, 2017), o invasor vem em forma de um homem solitário que foge da Guerra da Secessão, em 1864. No longa Ao Cair da Noite (It Comes at Night, 2017), uma família de três integrantes se hospeda em uma casa que tenta se sustentar em um cenário pós-apocalíptico. Já em Mãe! (Mother!, 2017) é uma multidão, que em uma alusão a todas as pessoas do mundo, invade o ambiente.
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Verão 1993: Tatos inocentes

É verão em Barcelona. Enquanto fogos explodem colorindo o céu e crianças correm ao ar livre, Frida (Laia Artigas), uma garotinha de seis anos, entra em seu apartamento e observa as caixas e pacotes ao redor. Ela está de mudança. As mulheres da residência guardam os últimos objetos enquanto o tio cantarola alguma música catalã ao violão. A menina pouco interage, mas seus olhos expressam uma aflição confusa. É para esse olhar que a diretora Carla Simón recorre para construir um retrato íntimo, delicado e inteligente de uma infância que precisa superar um acontecimento traumático, ainda que não consiga bem compreendê-lo.

Vencedor do grande prêmio da Mostra Geração do Festival de Berlim e representante da Espanha para o Oscar, este Verão 1993 (Verano 1993, 2017) é o primeiro longa-metragem de Simón. Na trama, a pequena protagonista acabou de perder os pais e o jovem casal de tios e sua prima mais nova a recebem como filha em uma casa de campo no interior da Espanha. Mais que acostumar-se e integrar-se à nova família, Frida ainda precisa encarar um estilo de vida bucólico que em nada se relaciona com aquele que tinha em Barcelona, quando junto dos pais e dos avós. Neste rito de passagem, a menina se esforça para provar-se e ter a atenção da nova família, mas é evidente que também se mostre perdida e magoada em sua nova condição.
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Militância a 120 Batimentos Por Minuto

Criada em 1989 nos moldes da original nova iorquina, a associação Act Up Paris reúne desde então a comunidade homossexual parisiense em torno da luta contra a AIDS. É uma organização autônoma que realiza atos militantes na capital francesa com objetivo de dar visibilidade às suas causas. Um dos seus membros, o cineasta Robin Campillo recria parte desta luta no início dos anos 90, quando o descaso de autoridades tornava a ação ainda mais urgente. Premiado como Melhor Filme pela Fipresci este ano em Cannes, seu 120 Batimentos Por Minuto (120 BPM, 2017) faz um retrato ficcional da Act Up e daquele conturbado período.
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