Jogador Número Um: A idade da profanação

A peça central de Jogador Número Um (Ready Player One, 2018), sequência que sintetiza sua teleologia, vem sido ocultada por uma parcela da crítica, sendo referida apenas como a fatídica sequência. Descrevê-la, portanto, está comumente entendido como um spoiler. O jargão que define a revelação maliciosa de detalhes cruciais ao aproveitamento de uma trama, é mais imediatamente associado à cultura contemporânea da internet e das séries de televisão. O incentivo à rarefação destas informações, no entanto, é prática consolidada por décadas. Como não lembrar do clássico slogan de divulgação de Psicose (“Não revelem o final, é o único que temos!”)? No novo longa de Spielberg, porém, estragar o conteúdo de sua pièce de résistance não significa entregar um twist de roteiro ou uma guinada que desestabilize a maneira como o filme foi conduzido até então. Significa desmantelar toda uma sistemática de apropriações de cultura pop ao entregar sua referência-mor, designada para causar sorrisos e suspiros de reconhecimento nas plateias nerds.
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A Vida Provisória: Notas do subsolo

Antes de qualquer imagem ser exibida, A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, começa com um letreiro que reitera: “Um filme de ficção”. As cartas são postas em duas espécies de trailers que se alternam com a retumbante sequência de créditos iniciais. Sobre planos que se repetirão adiante, a narração estabelece que trataria-se de um filme baseado em anotações incompletas encontradas no quarto de hotel de Estevão (Paulo José). “Em muitos pontos nossa equipe tomou a liberdade – e a cautela – de apenas sugerir os acontecimentos.” Está declarada uma aura de clandestinidade que virá a emanar de cada quadro; sugere-se estar prestes a ver o proibido. Ora, A Vida Provisória é um filme de 1968 e, mais importante ainda, sobre 1968.
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Eu, Tonya e as imperfeições do herói

A imagem do herói é construída principalmente através de seus problemas, a maneira com que vence os desafios à procura de sua recompensa. O conceito da Jornada do Herói na narratologia cria o imaginário de que é preciso sofrer para alcançar o que se almeja. Basicamente foi nesse estereotipo que o cinema industrial se edificou, principalmente na figura do mocinho no western.

Há um tanto de ironia quando tratamos de heróis modernos e quase sempre essa figura está relacionada a celebridades. A mídia cria os mártires contemporâneos, vendendo suas histórias de vida e tudo que enfrentaram até chegar ao estrelato. Não é à toa que as biopics fazem tanto sucesso. No caso de Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), filme que conta a história de vida da patinadora estadunidense Tonya Harding com ênfase nos anos 90, há um quê de espetacularização demasiadamente perigosa.
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Projeto Flórida: Da falência dos sonhos

Orlando. Um casal em lua de mel desembarca no baratíssimo motel Magic Castle, tendo confundido-o com o Magic Kingdom da Disney no momento de fazer a reserva. A esposa, brasileira, não entende inglês, e se desespera diante da ralé, esbravejando ao marido: “Isso aqui é uma favela? É o projeto?”. Interessante que Projeto Flórida (2017) empenhado em diagnosticar um “estado das coisas” do neoliberalismo estadunidense (remetendo ao recente Docinho da América, 2016, de Andrea Arnold), pincele questões de classe análogas a nossa própria situação sociopolítica, ainda mais especificamente pelo retrato da pobreza através da perspectiva infantil. Em tempos de “protejam nossas crianças”, o filme se apropria de uma iconografia lúdica, imediatamente associável à famigerada “fábrica de sonhos”, e a desvirtua, profana, como se questionasse: nós sabemos exatamente do que protegê-las?
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Lady Bird – nascido para ser cult

Se a espectadora ou o espectador cresceu em uma cidade do interior, certamente terá uma afinidade maior com a trama. A euforia da ideia de sair de um pequeno lugar e partir rumo ao enorme e desconhecido é meio intransferível. Mas nem só o público que se viu livre do interior é capaz de se aproximar e, eventualmente, se apaixonar pelo filme de Greta Gerwig. Os adeptos podem ser bem cosmopolitas.

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Pendular – Amar é um pêndulo

Pendular (2017), dirigido por Júlia Murat, não é o primeiro e com certeza não será o último dos filmes neste planeta a falar de relacionamentos em crise. Mas com certeza é um dos poucos que questiona a ideia vendida pela publicidade e por tantas produções audiovisuais de que uma relação passa por fases boas e ruins, assim, bem definidas e identificáveis. Júlia foi buscar inspiração na fonte certa, a sempre inovadora e surpreendente artista Marina Abramović, que na performance intitulada Rest Energy, onde, acompanhada de seu companheiro Ulay, tentava manter o equilíbrio para evitar que uma flecha segurada por ele atingisse seu peito. Marina colocou na mão do homem que amava algo que colocava sua vida em risco. E não seria isso que acontece quando optamos por dividir a vida com alguém?
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Não Devore Meu Coração! ou Até a Derrota

Um animal morto na estrada leva um motoqueiro, até então não entendido como Cauã Reymond, a derrubar sua moto para fora do asfalto – e de quadro. A câmera se movimenta em panorama à esquerda, revelando não um homem acidentado, mas sim ajoelhado, visor do capacete fitando a lente que se aproxima através de um afetado zoom. Uma imagem suspensória, plano inaugural que antecipa uma jornada fantasiosa, aptamente dividida em cinco capítulos [jocosamente entitulados Meninos de Peito Vazio; A Guerra das Lágrimas; Porque Esse Nosso Amor Quebrou Meu Peito ao Meio; A Fuga do Cowboy Covarde; e A Batalha de Ñande Pa (Lágrimas da Menina Jacaré)], onde um inesgotável inventário simbológico dá conta de ilustrar e construir uma mitologia própria, distintamente latino-americana.
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