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Críticas

O Preço da Verdade e o veneno em Todd Haynes

É preciso admitir que à primeira vista, como se não bastasse o pavoroso título genérico nacional, O Preço da Verdade (Dark Waters, 2019) parece um filme realizado por encomenda, no qual o diretor é meramente contratado para assumir um roteiro previamente escrito e entregar um produto final solicitado pelos produtores. Tendo na direção ninguém menos que um dos grandes cineastas e autores da atualidade, o norte-americano Todd Haynes, é de questionarmos o seu envolvimento e tentar compreender o que pode tê-lo levado à produção.

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Coberturas Críticas

Crimes do conservadorismo: Uma mulher extraordinária e O jovem Ahmed

Praticamente na sequência, assisti aos filmes Uma mulher extraordinária (Nur eine Frau, 2019) e O jovem Ahmed (Le jeune Ahmed, 2019) e foi inevitável relacioná-los. Tanto o trabalho da diretora Sherry Hormann (de A flor do deserto) quanto o dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (de Rosetta) são narrados num universo religioso, onde grande parte de seus personagens são muçulmanos. Mais do que isso, tratam de crimes de honra que que culminam em um total ou quase feminicídio.

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Coberturas Críticas

Os extremos do homem no exercício estético de O Farol

Há algo particularmente fascinante em observar as potências narrativas que partem do convívio entre dois sujeitos grosseiros responsáveis por um farol no meio do oceano. Em condição de extremo isolamento, eles dividem afazeres, refeições e conversas que pouco a pouco ganham maior densidade, na medida que a intimidade se torna algo inevitável entre eles. Se por um lado Thomas (Dafoe) se apresenta em postura invasiva, Ephraim (Pattinson) se mostra um tipo fechado, aparentemente pouco dado à comunicação. Num início de poucas palavras, escarros e flatulências são constantes e, mais que apenas pontuar certo humor, tal escatologia anuncia um rompante sempre prestes a acontecer entre os faroleiros. Qualquer sensação de equilíbrio entre ambos é sempre prontamente negada pelo filme, que faz uso de elementos que causam ambos o fascínio e o horror do espectador.

Segundo longa-metragem de Robert Eggers, O Farol (The Lighthouse, 2019) se passa no início do século XX, onde lendas e superstições eram parte do imaginário marítimo. É certamente identificável neste universo algo de Lovecraft e Melville. O primeiro, em criações fantásticas de monstros do oceano, o segundo, na construção de tipos e no próprio texto falado. Como no seu anterior A Bruxa (2015), há aqui o uso de um inglês já obsoleto que, operando como elemento estilístico bastante presente, principalmente em alguns monólogos, seduz o espectador.

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Críticas

Judy e o ressurgir das cinzas

Cinebiografias vem e vão ao longo dos anos e são muitas a causarem reações mistas por parte do público e da crítica. Muito dos erros são ocasionados por fatos esquecidos ou não-lineares sobre o cinebiografado. Tudo em prol de atender as necessidades dramáticas da narrativa fílmica. Afinal, a vida apesar de inspirar cinema, não é cinema. Mas um cuidado histórico é necessário sempre. Existem outros erros como também a dedicação pela busca em retratar a totalidade da vida do personagem, algo como a vida e morte, e assim concluir de maneira até mesmo moralista a narrativa. O grande acerto é fazer o contrário de tudo acima? Nem sempre. Mas são sugestões interessantes que despertam para as cinebiografias. Algumas propostas diferenciadas e necessárias a um sub-gênero cinematográfico tão sem energia artística ultimamente.

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Críticas

Rafiki: amor e resistência

Para aqueles que já estão acostumados a lidar com narrativas LGBT nas telas, Rafiki (2018) pode parecer apenas mais uma. O aumento da visibilidade dessas narrativas é um fato, no entanto, o protagonismo lésbico é um ínfima parte desses números, e ainda mais raros são os filmes que não objetifiquem o corpo feminino ou fetichizem o relacionamento entre duas mulheres. Dessa forma, Rafiki não é só importante por sua representatividade, mas também por sua sensibilidade em adentrar esse universo.

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Críticas

O futuro como festival da fé em Divino Amor

O Brasil em 2027. Se o exercício é o de imaginar como vamos estar organizados como sociedade daqui a 18 anos, múltiplas respostas montam um mosaico de cenários: economicamente instáveis; reféns de uma política autoritária; esperando a volta do Messias; menos laico que nunca. O diretor Gabriel Mascaro (Ventos de Agosto; Doméstica) apresenta uma distopia nem-tão-inimaginável assim em Divino Amor (2019).

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Críticas

Rocketman: Dispositivo inocente

Do centralismo obsessivo e quase messiânico de Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street (2013) ao embalsamamento panegírico de F. Gary Gray em Straight Outta Compton (2015), os filmes americanos contemporâneos de viagem ao inferno cada vez mais buscam centrar-se em um movimento operístico que possa servir de muleta ou artifício como enfeite do jogo narrativo. Ou seja: há, na maioria das vezes, uma linhagem narrativa previamente traçada – que passa pela pirâmide da ascensão, queda e recuperação – assim como há um esforço muito evidente para diferenciar cada um dos produtos desse star system através das distintas abordagens que os mesmos supõem proporcionar a determinados públicos. Dessa forma, parece mais justo abordar Rocketman (2019) como um filme que não necessariamente se propõe a desvirtuar qualquer ordem natural da indústria americana, mas sim partir de seu virtuosismo esforçado em maquiar ao máximo as rédeas a que está preso.