Burning — quando o cinema encontra a literatura

Dirigido por Lee Chang-dong, Burning (Beoning, 2018) é uma das grandes surpresas do cinema Coreano neste ano. Mesmo com a maré baixa em que vive o cinema do país nos dias atuais — comparado com os anos 2000 onde diretores como Park Chang-wook, Bong Joon-ho, Kim Ki-duk e o próprio Lee Chang-dong emergiram e colocaram definitivamente a Coreia do Sul na atenção dos grandes festivais de cinema —, a produção aparece como uma lembrança de que o cinema realizado por lá ainda tem muito ainda a nos surpreender, tanto por suas narrativas quanto pela destreza com a linguagem cinematográfica. Com uma fotografia magnificente e perpetrada por uma trilha musical, a produção é uma adaptação de um dos contos do livro O Elefante Desaparece (Cia. das Letras, 2018), do renomado escritor Haruki Murakami, publicado em 1992 e que recentemente ganhou uma edição brasileira.
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Mulheres Alteradas e antiquadas

A junção de um grupo de protagonistas femininas insatisfeitas com a própria vida, seja ela profissional ou amorosa, é mote desde os primórdios do cinema comercial lá em Hollywood. Não foi invenção de Sex and the City. Por exemplo, o diretor George Cukor já realizava tal feito com As Mulheres (1939) no qual um grupo de amigas descobre a traição do marido de uma delas e uma guerra entre os sexos (e as mulheres) se instala. Logo, é costume do gênero das comédias românticas reunir um grupo de mulheres para desbravar temáticas relacionadas ao universo feminino e também masculino com suas nuances e complexidades. No Brasil, tal feito já ganha um destaque recente, a adaptação dos quadrinhos da escritora argentina Maitena em Mulheres Alteradas (2018).

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O cinema no armário em Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats

Existem duas formas errantes de descobrir o mundo: através de um coração partido ou através da incompreensão. Ambas são uma busca pelo amadurecimento. Através dessas duas estradas, duas recentes produções retratam personagens gays ao trilharem concepções muito particulares sobre um mesmo tema. A primeira é o aclamado e indicado ao Oscar Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name, 2017) e a segunda é a sensação indie – inédita nos cinemas e festivais brasileiros, mas agora disponível pela Netflix -, o drama Beach Rats (2017). Apesar de caminhos e ambientações muito distintos, as duas produções se encontram em diversos momentos traçando um certo paralelismo. Resumidamente, são filmes que retratam as dificuldades de personagens gays ainda em armários, enrustidos quanto a sua condição e descobrindo maneiras de se relacionarem com outras pessoas e amadurecerem (ou não) nesse processo. Chamada de “estética do armário”, esse filão no cinema queer, para alguns críticos, só perpetua uma visão padronizada dos homossexuais e, no cenário atual, regride o retrato dos gays a um clichê dos filmes dos anos 90, época em que produções com essa abordagem atingiram seu auge. Para outros, porém, é uma maneira de mostrar que independente de ser na Itália de 1983 ou nos Estados Unidos de 2017, ainda existem histórias complexas sobre o tema da autodescoberta e auto-aceitação. Como conclusão breve, é um atestado que persiste ainda a dificuldade de alguns membros da comunidade LGBTQ em sair dos armários devido a preconceitos e estigmas da nossa sociedade.

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Jogador Número Um: A idade da profanação

A peça central de Jogador Número Um (Ready Player One, 2018), sequência que sintetiza sua teleologia, vem sido ocultada por uma parcela da crítica, sendo referida apenas como a fatídica sequência. Descrevê-la, portanto, está comumente entendido como um spoiler. O jargão que define a revelação maliciosa de detalhes cruciais ao aproveitamento de uma trama, é mais imediatamente associado à cultura contemporânea da internet e das séries de televisão. O incentivo à rarefação destas informações, no entanto, é prática consolidada por décadas. Como não lembrar do clássico slogan de divulgação de Psicose (“Não revelem o final, é o único que temos!”)? No novo longa de Spielberg, porém, estragar o conteúdo de sua pièce de résistance não significa entregar um twist de roteiro ou uma guinada que desestabilize a maneira como o filme foi conduzido até então. Significa desmantelar toda uma sistemática de apropriações de cultura pop ao entregar sua referência-mor, designada para causar sorrisos e suspiros de reconhecimento nas plateias nerds.
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A Vida Provisória: Notas do subsolo

Antes de qualquer imagem ser exibida, A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, começa com um letreiro que reitera: “Um filme de ficção”. As cartas são postas em duas espécies de trailers que se alternam com a retumbante sequência de créditos iniciais. Sobre planos que se repetirão adiante, a narração estabelece que trataria-se de um filme baseado em anotações incompletas encontradas no quarto de hotel de Estevão (Paulo José). “Em muitos pontos nossa equipe tomou a liberdade – e a cautela – de apenas sugerir os acontecimentos.” Está declarada uma aura de clandestinidade que virá a emanar de cada quadro; sugere-se estar prestes a ver o proibido. Ora, A Vida Provisória é um filme de 1968 e, mais importante ainda, sobre 1968.
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Eu, Tonya e as imperfeições do herói

A imagem do herói é construída principalmente através de seus problemas, a maneira com que vence os desafios à procura de sua recompensa. O conceito da Jornada do Herói na narratologia cria o imaginário de que é preciso sofrer para alcançar o que se almeja. Basicamente foi nesse estereotipo que o cinema industrial se edificou, principalmente na figura do mocinho no western.

Há um tanto de ironia quando tratamos de heróis modernos e quase sempre essa figura está relacionada a celebridades. A mídia cria os mártires contemporâneos, vendendo suas histórias de vida e tudo que enfrentaram até chegar ao estrelato. Não é à toa que as biopics fazem tanto sucesso. No caso de Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), filme que conta a história de vida da patinadora estadunidense Tonya Harding com ênfase nos anos 90, há um quê de espetacularização demasiadamente perigosa.
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Projeto Flórida: Da falência dos sonhos

Orlando. Um casal em lua de mel desembarca no baratíssimo motel Magic Castle, tendo confundido-o com o Magic Kingdom da Disney no momento de fazer a reserva. A esposa, brasileira, não entende inglês, e se desespera diante da ralé, esbravejando ao marido: “Isso aqui é uma favela? É o projeto?”. Interessante que Projeto Flórida (2017) empenhado em diagnosticar um “estado das coisas” do neoliberalismo estadunidense (remetendo ao recente Docinho da América, 2016, de Andrea Arnold), pincele questões de classe análogas a nossa própria situação sociopolítica, ainda mais especificamente pelo retrato da pobreza através da perspectiva infantil. Em tempos de “protejam nossas crianças”, o filme se apropria de uma iconografia lúdica, imediatamente associável à famigerada “fábrica de sonhos”, e a desvirtua, profana, como se questionasse: nós sabemos exatamente do que protegê-las?
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