Menu Close

Categoria: Coberturas (page 6 of 6)

Eu, Daniel Blake: opressão e empatia

Dirigido pelo britânico Ken Loach (de Kes, 1969), Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blank, 2016) fala sobre a opressora e indiferente burocracia do governo em relação aos cidadãos mais necessitados. É curioso assistir à uma produção como esta em uma cidade tão grande e de contrastes sociais como o Rio de Janeiro, onde “o sistema é o vilão” e as implicações políticas do personagem-título refletem muito bem a nossa realidade. O impacto dessa clareza é tamanho que logo após a sessão diversos gritos de “Fora Temer” foram escutados pela sala, incluindo um discurso improvisado de uma espectadora sobre “como eles não se importam conosco.”

eu-daniel-blake2
Na trama, um senhor carpinteiro se machuca no trabalho e precisa enfrentar filas e formulários para buscar sua pensão, seguro desemprego e exames médicos. Um dia, enquanto espera, ele presencia uma mãe de dois filhos sendo maltratada e expulsa do prédio da assistência social e resolve intervir. Isso cria uma amizade entre os dois baseada na própria assistência. Algo como “se o governo não vai ajudar, então vamos nos ajudar”.  Felizmente, para ambos, isso dá muito certo.

Ser vencedor da Palma D’Ouro em Cannes neste ano gera enormes expectativas quanto ao filme, ainda mais em uma sessão lotada em festival. Não apenas em relação a qualidade do filme, mas também quanto ao segmento em que está inserido: o elitizado “cinema de arte”. Na primeira cena, o diretor já quebra um pouco desse preconceito. Enquanto rolam os créditos iniciais escutamos  apenas a conversa de Daniel com uma atendente do governo, onde se apresenta bastante humor. Eventualmente a demora e burocracia dos protocolos pelos quais o personagem é submetido começa a perder a graça, afinal paciência tem limite. Não vivenciamos isto apenas como espectador que assiste com distância aos eventos, mas como alguém que sente empatia pelo personagem. Afinal, é complicado aguentar cada vez mais complicações desnecessárias. Sabemos disso.

eu-daniel-blake3

Filmes como os de Loach são poderosos, pois fazem o espectador refletir além das questões que ele toca e isso se estende até mesmo sobre o cinema em si. Normalmente vamos à uma sala para ser distraído, de preferência em busca de uma realidade que não nos faça olhar para nós mesmos. Porém Daniel Blake expõe temáticas inerentes à sua plateia. À esta do Festival ainda mais, pois toca em feridas presentes até hoje na sociedade brasileira, como a desigualdade, a pobreza e o desemprego. 

Em uma de suas cenas emblemáticas, uma das funcionárias do governo, também uma senhora de idade como Dan, é simpática e o atende brevemente. Mas isso não faz parte do protocolo e ela é prontamente reprimida por um superior. Castigada por ajudar em um trabalho que lida com pessoas, porém onde se importar com elas é uma espécie de defeito, concluímos que a empatia é a palavra-chave no filme de Loach. Esse altruísmo criado a partir dos personagens é muito bem trabalhado sem nunca chegar ao exagero melodramático. Mesmo que ao fim da sessão o que mais se escutava eram pessoas muitíssimo emocionadas.

*Texto integrante da Cobertura Festival do Rio 2016

A anti-catarse de Manchester à beira-mar

Mais uma vez recorrendo ao tema das relações familiares neste seu terceiro longa como diretor, Manchester à Beira-mar (Manchester by the Sea, 2016), o americano Kenneth Lonergan volta a subverter as regras da narrativa hollywoodiana e escreve um protagonista que parece ter sido criado especialmente para Casey Affleck.

A trama gira em torno de Lee Chandler (Affleck), um faz-tudo que trabalha em um complexo de apartamentos em Boston. Seus dias se resumem a resolver vazamentos, consertar instalações elétricas e auxiliar na manutenção dos prédios. À noite, ele sai para encher a cara pelos bares da cidade e, não raro, sair aos socos com um estranho qualquer. Quando seu irmão mais velho (Kyle Chandler) morre prematuramente, Lee volta à sua cidade natal e descobre que é nomeado tutor de seu sobrinho (Lucas Hedges). Antes solitário, Lee agora precisa conviver com o adolescente, rever a ex-esposa (Michelle Williams) e ainda lidar com o funeral do seu irmão. Mas os espaços e as pessoas ao seu redor trazem à tona um passado de sofrimento que marcou pra sempre a vida do personagem.

manchester2

Optando por revelar o íntimo do protagonista mais pelo silêncio do que pelos diálogos, Lonergan procura humanizar Lee em seus olhares e em seu comportamento truculento. Quando o personagem fala, parece falar pra dentro, quando chora, logo se recompõe, se está prestes a encarar um diálogo mais profundo, escapa. Essa opção tem um propósito. Melhor, uma razão. Em determinado momento do longa é revelado ao espectador o trauma sofrido por Lee, algo tão aterrador que imediatamente é possível compreender seu estranho comportamento.

Assim, é muito feliz a escolha de Casey Affleck como protagonista. A fala baixa e lenta, quase sonolenta, e o controle do ator sobre o olhar aqui são potencializados. Suas expressões que muitas vezes parecem completamente vazias mostram claro domínio do personagem em uma atuação de caráter mais introjetado. O elenco de apoio é dirigido de maneira a também manter certa contenção ao revelar emoções, algo imprescindível para a organicidade que o filme atinge.

manchester3

E é exatamente nesse tom e nessa recusa de Lonergan em entregar o que se convém chamar de clichê que estão as marcas de Manchester à beira mar. O longa não se permite buscar a redenção dos personagens ou jogá-los em processos catárticos. Ao invés de longos monólogos e choros registrados em close, o trabalho alcança o seu lado humano através de estranhamentos e silêncios. Há ainda um bem vindo humor, tão natural quanto insólito, que auxilia na tradução não só do íntimo dos personagens, mas também do caráter ordinário das vidas retratadas na tela.

A montagem revela às conta-gotas acontecimentos antigos em sequências que alternam momentos diferentes, mas conectados pelo espaço ou sentimento, de maneira pouco usual. Aos olhos muito acostumados aos dramas hollywoodianos recentes ou mesmo não apresentados aos trabalhos anteriores de Lonergan, tais alternâncias podem até causar certa antipatia. É no desajuste às regras, porém, que o cineasta encontra algum frescor ao falar sobre um tema tão explorado como o luto.

 

*Texto integrante da Cobertura Festival do Rio 2016