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Café com canela: afetos e banalidades

O registro em VHS de um aniversário de criança divide espaço com os créditos iniciais de Café com canela (2017), longa de estreia dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio. A docilidade das relações ali apresentadas comunga com o registro caloroso de uma câmera corpo em movimentação constante. Mais tarde, o que era registro de vídeo e em formato 4×3, dá espaço para o digital em 16:9. São dois tempos ali apresentados com uma amplitude de pelo menos dez anos entre um e outro. Tais momentos antecipam dois aspectos do longa que bipolarizam a sua experiência: se por um lado os excessos de experimentações intencionais gritam entusiasmo e inevitáveis desordens, por outro seu ímpeto por uma narrativa de cordialidades é de notável honestidade.

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50º Festival de Brasília: Panorama do I FestUniBrasília

A histórica 50ª edição do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro apresentou, em duas sessões matutinas, o inédito Festival de Cinema Universitário de Brasília, exibindo dezenove curtas provindos das principais escolas de cinema do Brasil, fornecendo um panorama das mais diversas sensibilidades em presente ebulição, que apontam a novos horizontes a ser alcançados em futuro próximo na produção nacional. Como astutamente apontado em debate posterior à segunda sessão, a mostra facilmente configura contraponto à exibição, na noite anterior, de Vazante (2017), de Daniela Thomas, filme que rendeu discussão acalorada em todos os cantos do festival, relativa às escolhas narrativas tomadas na representação da escravidão e da negritude em geral. Thomas, cineasta branca, chegou a afirmar em debate que “talvez hoje não faria este filme”, fator sintomático da abertura às complexidades na discussão social na arte, principalmente pelo desafio à posição dos realizadores brancos na retratação da experiência negra. Os filmes universitários, ao contrário, foram amplamente realizados por cineastas negros, que usam ativamente sua voz para tomar a posse do discurso. Não cataloguei em dados exatos, porém é notável que a grande maioria do elenco dos filmes exibidos seja composto por atores negros, algo ainda raro no cinema brasileiro.

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Música Para Quando as Luzes se Apagam: afetos e delírios

O cinema sociopolítico contemporâneo, ou melhor, a voga da representação de grupos marginalizados sempre corre o perigo de se limitar à simples afirmação “nós existimos”. Não que o desvelar de identidades preferivelmente ocultas pelos projetos conservadores não seja louvável, mas todos os debates precisam avançar para além da superfície. Em tempos de homens trans na novela das nove, a pura denúncia no cinema se demonstra insuficiente, já se exauriram os refrões manjados aos quais a esquerda brasileira se mantém ferrenhamente adepta – vide os incontáveis brados de “fora, Temer” ao longo do 50º Festival de Brasília. Eis Emelyn (Emelyn Fischer), uma garota do interior do Rio Grande do Sul em processo de transição cuja identidade de gênero já não mais choca, vai além da afirmação de existência de indivíduos trans diante de um mundo adverso. Num país como o Brasil, é um tema sensível e grave, que deve ser tratado com sofisticação, dada a incapacidade dos absolutismos de compreender tamanha complexidade. Questionada por uma diretora de cinema (Júlia Lemmertz) sobre qual nome daria a um suposto personagem, Emelyn afirma, em tom quase inocente: eu gosto de Bernardo. Adaptando, ou reconfigurando a premissa de seu romance homônimo, Ismael Caneppele estreia como realizador com Música Para Quando as Luzes se Apagam (2017), uma coleção de afetos e delírios que se propõe a constituir uma meditação sobre a profundidade das condições LGBT.

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Sara, o preconceito e o poder

“Sou consciente do meu preconceito”, “Eu sou negra, mas se fizer uma palhaçada, eu sou a primeira a criticar o negro. Olha lá aquilo, só preto que faz aquilo”. Estas são algumas das frases de Sara, uma diarista carioca que trabalhava na casa do diretor do filme O quebra-cabeça de Sara (2017), Allan Ribeiro.

O curta, que levou os prêmios da Accirs (Associação de Críticos de Cinema do RS) e do Canal Brasil na 45ª edição do Festival de Gramado, constituiu-se uma pequena pérola entre os concorrentes. Com apenas dez minutos, uma personagem, um cenário e um tema como guia, conseguiu o que muito longa não alcança: fala de preconceito de raça e gênero, expõe as condições precárias da vida de trabalhadores (Sara comenta com alguém no celular que mais uma vez terá que tomar banho de balde devido à falta de água em casa) e isto através de uma linguagem criativa. O filme prova, também, que é possível produzir algo inovador sem orçamentos polpudos.

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As pequenas surpresas em Quem é Primavera das Neves

A 22ª edição do Festival É Tudo Verdade reflete bem esta tendência do cinema documental de voltar-se às reminiscências pessoais. Títulos como A Lembrança que Eu Gosto de Ter (2017), Perón, Meu Pai e Eu (2017), Eu, Meu Pai e Os Cariocas (2017) rechearam a programação com outros filmes menos umbilicais, mas que, narrados na primeira pessoa, foram buscar na própria família o protagonismo da história, como o brasileiro No Intenso Agora (2017) e o letão-ucraniano Relações Próximas (2016).

Quem é Primavera das Neves (2017), de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, tem como ponto de partida uma curiosidade pessoal: Furtado, um leitor aplicado, daqueles que se interessam em saber quem são os tradutores dos livros que lê, cismou em descobrir quem era aquela mulher de nome peculiar que traduziu autores tão diferentes quanto Flaubert, Nabokov e Lewis Carroll, tendo vertido cerca de 80 livros para o português. A  primeira busca do diretor, naturalmente, se deu nos domínios da internet, onde havia somente um link  sobre ela. O que o deixou mais curioso ainda. Estes primeiros passos são narrados por Furtado num registro ainda bastante pessoal, mas aos poucos uma opção low-profile o vai deixando em segundo plano e Primavera das Neves ganha corpo através da memória de duas melhores amigas e, mais adiante, do ex-marido. São apenas três entrevistados durante o filme todo, demonstrando que não é preciso mais do que isto para revelar um grande personagem.

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Tiradentes 2017 | Os destaques da Mostra Panorama

Ao longo da vigésima Mostra de Cinema de Tiradentes, dezesseis curtas de propostas distintas foram exibidos durante a Mostra Panorama. Neste texto, reuni comentários de seis destes curtas que de alguma forma se destacaram dentro do recorte. A começar pelo carioca As Ondas, dos diretores Juliano Gomes e Léo Bittencourt. De caráter experimental, o filme de cara sugere ao espectador com histórico de epilepsia que se retire da sala. Há motivos de sobra para isso. Utilizando, basicamente, de um refletor estroboscópico que lança flashes de luz branca sobre as ondas do mar e uma apresentação de diferentes manequins em uma fábrica, o curta lança mão de uma montagem frenética e de efeitos sonoros que beiram a violência. A intenção de agredir o público com seus excessos é intencional. O horror aqui não vem de uma atmosfera, enredo ou temática. Ele surge a partir de formas e sons que, da maneira hiperativa como são apresentados, atacam o espectador com sensações de puro desconforto e agonia.

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Tiradentes 2017 | Os últimos trabalhos da Mostra Foco

Citações de um texto de Luc Moullet que relaciona cineastas e seus signos – aqui especificamente o de Peixes -, além de uma declamação de Norma Bengell, funcionam como uma introdução do curta-metragem Minha única Terra é na Lua. Em seu filme, o diretor e roteirista Sergio Silva responde a um questionário, escrito por ele, enquanto Gilda Nomacce o interpreta, uma vez ou outra substituída pelo próprio ao longo das trinta e seis perguntas. Mas o Sérgio de Gilda não parece ser o mesmo original. Há ali presente uma sensação de duplicidade, não havendo certezas de que tudo é autorretrato na mescla de documentário e encenação. Quem faz as perguntas é Gabriel, num vaivém que parece anteceder algum tipo de relacionamento. Há lágrimas, mas há também sorrisos. São verdades, mas também invenções. É nítida a intimidade que exala neste jogo de espelhos que conecta um sentimento muito pessoal ao cinema, aos astros e à própria identidade. O formato simples em plano e contraplano busca fazer com que o espectador se atenha ao texto e às atuações, nesse inventivo estudo de personagem escrito pelo protagonista.