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A desprofissionalização da curadoria nos festivais brasileiros de cinema

Acompanhando a cerimônia do Festival de Gramado de 2019 houve o momento em que foram anunciados como curadores da edição de 2020 dois nomes: o jornalista Pedro Bial e a atriz Soledad Villamil. Apesar de acreditar que todos fazemos curadoria ao longo de nossos dias: com os filmes que escolhemos colecionar e exibir para os amigos em uma sessão em nossa casa aos finais de semana, ao selecionar músicas e criar playlists, quais lugares visitar em uma viagem ao estrangeiro, etc, me foi um tanto difícil engolir esse anúncio de novos curadores do festival da serra gaúcha. Curadoria é em suma selecionar e criar um discurso. É também cuidar, preservar e apontar a importância de certas temáticas e materialidades (ou imaterialidades também) historicamente ou para a contemporaneidade. É um ato que está presente na vida de todos sem nem ao menos notarmos. Mas curadoria dentro das artes e aqui em especial da seleção de um festival de cinema, deveria ser, talvez, vista com um olhar mais criterioso.

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Vestígios de uma história (não) contada

Entende-se por chanchadas um conjunto de filmes humorísticos de enorme sucesso no Brasil, em que números musicais eram bastante comuns durante a narrativa. Existem algumas catalogações rasas e generalistas dos filmes brasileiros que consideram que o gênero existiu entre as décadas de 1920 e de 1960 1AVELLAR, José Carlos. A teoria da relatividade. In: NOVAES, Adauto (Org.). Anos 70: ainda sob a tempestade. Rio de Janeiro: Editora SENAC, 2005. p. 337-373.. A partir daí, tais filmes teriam perdido a expressão gradativamente, o diálogo com o público minguado e a produção teria sido interrompida.

O importante artigo Este é meu, é seu, é nosso – Introdução à paródia no cinema brasileiro 2http://arteyfato.blogspot.com/2013/04/este-e-meu-e-seu-e-nosso-introducao.html, escrito por João Luiz Vieira e publicado na revista Filme Cultura em maio de 1983, inicia com um verbete de dicionário sobre o que seria Chanchada. Importo para este texto: “Peça teatral burlesca, que visa apenas o humorismo barato”. Logo após essa frase, o autor acrescenta: “O primeiro registro sobre filmes ‘chanchadas’ que será indicado aqui é de 1909 como provável início do estilo”.

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Girl – Sismografia maldita

“O plano não é um espaço composto pictoricamente no qual o corpo encontra seu lugar, mas um tipo de vestimenta, de véu que cobre seus deslocamentos, se calca no seu gestual.”

(Jean-Marc Lalanne, Cahiers du Cinema n°596)

Em dado momento de A Estética do Filme, Jacques Aumont vem a deparar-se com o embate entre plano e campo: tudo que há dentro do plano, pertence a ele. O espaço que o cerca, porém, pode ser infinito – fato esse que delimita o campo. A noção de tamanho imaginário, que, por vezes, pode ser subversivo, atravessa as questões mais arrebatadoras do cinema contemporâneo. Há o que está em tela, em quadro, imagem arredia. Mas com o que exatamente ela se relaciona? Que mundo à cerca? Com quem se comunica? Sobra aí, dentro dessa zona cinzenta, uma síndrome melindrosa para guiar, um espaço aberto que constantemente continua a ressignificar as interpretações e intempéries dos mais distintos realizadores.

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Melhores filmes de 2018

Mais um ano acaba e como sempre, realizamos nossa já tradicional listagem de melhores filmes assistidos conforme lançados comercialmente no Brasil. A partir desse ano também iremos considerar os lançamentos realizados exclusivamente por plataformas de streaming. E a abertura para esses filmes distribuídos em larga escala digitalmente tornou possível a entrada de dois títulos em nossa lista: duas produções elogiadas e premiadas em festivais internacionais como Veneza e Cannes, uma mexicana e outra italiana.
O Brasil está em destaque em nossa listagem com quatro títulos (um deles como co-produtor) que refletem muito a respeito da diversidade da cinematografia brasileira contemporânea. Houve ainda espaço para duas produções francesas e mais duas de alguns dos diretores norte-americanos mais importantes das últimas décadas. Em tempos de obscurantismo e retrocesso político, essa lista e a lista individual de todos os envolvidos não deixa de ser ato de resistência. Que venha 2019. Resistiremos.

Confira a nossa lista de melhores do ano e logo em seguida a lista individual de cada um dos colaboradores.

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O cinema no armário em Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats

Existem duas formas errantes de descobrir o mundo: através de um coração partido ou através da incompreensão. Ambas são uma busca pelo amadurecimento. Através dessas duas estradas, duas recentes produções retratam personagens gays ao trilharem concepções muito particulares sobre um mesmo tema. A primeira é o aclamado e indicado ao Oscar Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name, 2017) e a segunda é a sensação indie – inédita nos cinemas e festivais brasileiros, mas agora disponível pela Netflix -, o drama Beach Rats (2017). Apesar de caminhos e ambientações muito distintos, as duas produções se encontram em diversos momentos traçando um certo paralelismo. Resumidamente, são filmes que retratam as dificuldades de personagens gays ainda em armários, enrustidos quanto a sua condição e descobrindo maneiras de se relacionarem com outras pessoas e amadurecerem (ou não) nesse processo. Chamada de “estética do armário”, esse filão no cinema queer, para alguns críticos, só perpetua uma visão padronizada dos homossexuais e, no cenário atual, regride o retrato dos gays a um clichê dos filmes dos anos 90, época em que produções com essa abordagem atingiram seu auge. Para outros, porém, é uma maneira de mostrar que independente de ser na Itália de 1983 ou nos Estados Unidos de 2017, ainda existem histórias complexas sobre o tema da autodescoberta e auto-aceitação. Como conclusão breve, é um atestado que persiste ainda a dificuldade de alguns membros da comunidade LGBTQ em sair dos armários devido a preconceitos e estigmas da nossa sociedade.

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A Vida Provisória: Notas do subsolo

Antes de qualquer imagem ser exibida, A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, começa com um letreiro que reitera: “Um filme de ficção”. As cartas são postas em duas espécies de trailers que se alternam com a retumbante sequência de créditos iniciais. Sobre planos que se repetirão adiante, a narração estabelece que trataria-se de um filme baseado em anotações incompletas encontradas no quarto de hotel de Estevão (Paulo José). “Em muitos pontos nossa equipe tomou a liberdade – e a cautela – de apenas sugerir os acontecimentos.” Está declarada uma aura de clandestinidade que virá a emanar de cada quadro; sugere-se estar prestes a ver o proibido. Ora, A Vida Provisória é um filme de 1968 e, mais importante ainda, sobre 1968.

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Mulheres no Cinema: Ana Carolina

O cinema de Ana Carolina é, acima de tudo, desbocado. É uma poética do chulo, iconoclastia dos mitos populares e a santificação dos fluidos corporais. Não é à toa que o banheiro seja uma constante ao longo de seus filmes, um ambiente de intimidade pura em que as máscaras caem e os desafetos, angústias e desejos vêm à tona.

Muito se fala da histeria em seus filmes, matéria-prima de seu registro dramático. Atrizes e atores esbravejam estridentes (como não lembrar de Myriam Muniz?), deixando-se possuir pelo absurdo que se instaura progressivamente em cada sequência. Esse aflorar exponencial dos sentidos se dá à precisão com que Ana Carolina conduz suas obras. É uma diretora que sabe onde quer chegar, desenvolvendo uma estética própria sem nenhuma concessão ㅡ e, talvez por isso, tenha conseguido filmar tão pouco ao longo de sua carreira.