A Vida Provisória: Notas do subsolo

Antes de qualquer imagem ser exibida, A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, começa com um letreiro que reitera: “Um filme de ficção”. As cartas são postas em duas espécies de trailers que se alternam com a retumbante sequência de créditos iniciais. Sobre planos que se repetirão adiante, a narração estabelece que trataria-se de um filme baseado em anotações incompletas encontradas no quarto de hotel de Estevão (Paulo José). “Em muitos pontos nossa equipe tomou a liberdade – e a cautela – de apenas sugerir os acontecimentos.” Está declarada uma aura de clandestinidade que virá a emanar de cada quadro; sugere-se estar prestes a ver o proibido. Ora, A Vida Provisória é um filme de 1968 e, mais importante ainda, sobre 1968.
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Mulheres no Cinema: Ana Carolina

O cinema de Ana Carolina é, acima de tudo, desbocado. É uma poética do chulo, iconoclastia dos mitos populares e a santificação dos fluidos corporais. Não é à toa que o banheiro seja uma constante ao longo de seus filmes, um ambiente de intimidade pura em que as máscaras caem e os desafetos, angústias e desejos vêm à tona.

Muito se fala da histeria em seus filmes, matéria-prima de seu registro dramático. Atrizes e atores esbravejam estridentes (como não lembrar de Myriam Muniz?), deixando-se possuir pelo absurdo que se instaura progressivamente em cada sequência. Esse aflorar exponencial dos sentidos se dá à precisão com que Ana Carolina conduz suas obras. É uma diretora que sabe onde quer chegar, desenvolvendo uma estética própria sem nenhuma concessão ㅡ e, talvez por isso, tenha conseguido filmar tão pouco ao longo de sua carreira.
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Mulheres no cinema: Kathryn Bigelow

Trinta anos separam o seu curta-metragem de formatura na Universidade da Columbia até o Oscar de Melhor Direção, o primeiro a ser entregue a uma mulher na história da premiação. Neste meio tempo, a cineasta Kathryn Bigelow dirigiu sete longa-metragens que foram do horror vampiresco ao drama de época. Na maior parte deles, uma predileção por certa violência e convenções do gênero de ação é notória. Há, porém, espaço para algumas surpresas, caso da personagem de Jamie Lee Curtis em Jogo Perverso (Blue Steel,1989), protagonista feminina em um nicho dominado por machões.
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Melhores Filmes de 2017

O documentário Martírio é o melhor filme de 2017 pelo Calvero

Com a chegada do final do ano todo crítico realiza a sua religiosa lista de melhores filmes assistidos durante o período. E, claro, não estamos fora desse balaio. Conforme realizado em 2016, nosso site dá continuidade em selecionar os 10 melhores filmes segundo o nosso time. Em 2017 estipulamos como critério a inclusão da lista dos colaboradores mais ativos e como recorte serão selecionadas apenas produções lançadas comercialmente no ano. Anteriormente vivíamos fora da curva, elencando o que havíamos assistido em festivais e mostras, alinhados mais com o circuito estrangeiro do que o nacional. Agora decidimos nos adequar à editoria clássica das listagens que inundam a internet. É o que parece ser o correto, mesmo não sendo a quebra de paradigma que gostaríamos. Mas vamos deixar o teor disruptivo para os filmes selecionados e que refletem cada vez mais a necessidade de destacar direitos e representatividade em diferentes esferas. Que 2018 continue nos tirando da zona de conforto com produções que modifiquem o status quo e abram sempre nossas mentes para debates.

Confira a nossa lista de melhores do ano e logo em seguida a lista individual de cada um dos colaboradores.

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Rifle: alvo em movimento

Na articulação cinematográfica há certas regras de etiqueta que se assumem sem precisar ser ditas, normas assimiladas a um glossário de conhecimentos prévios necessários à execução da tarefa de realizar um filme, passíveis a ser seguidas ou subvertidas. Sabe-se, por exemplo, que a cartela com o título da obra a antecede. Se, porventura, um trecho do filme ocorrer antes ao título, tal caracteriza-se como um prólogo, assim como na literatura, em que pode-se prenunciar o teor do discurso a se desenvolver, evidenciando elementos-chave à sua compreensão. No cinema, o posicionar do título sucedendo a um prólogo coloca sua retórica em xeque, podendo-se potencializar através do contraste com a cena o seu sentido transmitido pelo verbo. O prólogo de Rifle (2016), segundo longa-metragem de Davi Pretto, sintetiza em ações aparentemente simples as angústias que vêm a permear seus mecanismos. Somos introduzidos ao protagonista, Dione (Dione Ávila de Oliveira), enquanto apaga a faca mensagens gravadas em árvores. Em seguida, em seu caminhar moroso (um carro passa ao fundo, estabelecendo a proximidade da rodovia), se depara com um carro detonado, já parte da paisagem de um pequeno bosque. Cut to black. Título do filme. O opor da imagem de um automóvel à palavra “rifle” como ponto de corte inaugura um questionamento que lentamente se desenvolve através da projeção, em que se essencializa a figura do carro como alegoria ao progresso entre aspas, à intromissão do meio urbano nos espaços rurais.

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Stay woke: sobre Corra!

Em posfácio à edição mais recente de seu Alegorias do subdesenvolvimento, Ismail Xavier retrospecta as diversas iterações do alegórico ao longo da tradição histórica. Evocando Benjamin ao diagnosticar sua noção moderna, conclui que:

O mundo contemporâneo da mercadoria é de tal natureza em sua força de dissociação, alienação, que a sensibilidade alegórica tem aí um papel revolucionário: encara a crise mascarada pelo otimismo burguês do processo. […] A alegoria moderna monta suas coleções de imagens e leva até o fim a dissociação, o não orgânico, numa imitação perversa, satânica, do estado de coisas, visando exorcizá-lo.”

O cinema fantástico oriundo de estúdios estadunidenses é tido, normalmente, como representativo do citado otimismo burguês, embora, volta e meia, realizadores consigam empurrar, através de frestas, ideias que desafiam o status quo alimentado pela própria máquina da qual participam – Paul Verhoeven e John Carpenter que o digam.  Desta vez, o indivíduo em questão é Jordan Peele, comediante que estreia como roteirista e diretor de cinema com Corra! (Get Out, 2017), alegoria propiciada pelo Zeitgeist em que se resgatam feridas que o senso comum – ou, a mentalidade branca – procura ocultar.
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