O cinema no armário em Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats

Existem duas formas errantes de descobrir o mundo: através de um coração partido ou através da incompreensão. Ambas são uma busca pelo amadurecimento. Através dessas duas estradas, duas recentes produções retratam personagens gays ao trilharem concepções muito particulares sobre um mesmo tema. A primeira é o aclamado e indicado ao Oscar Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name, 2017) e a segunda é a sensação indie – inédita nos cinemas e festivais brasileiros, mas agora disponível pela Netflix -, o drama Beach Rats (2017). Apesar de caminhos e ambientações muito distintos, as duas produções se encontram em diversos momentos traçando um certo paralelismo. Resumidamente, são filmes que retratam as dificuldades de personagens gays ainda em armários, enrustidos quanto a sua condição e descobrindo maneiras de se relacionarem com outras pessoas e amadurecerem (ou não) nesse processo. Chamada de “estética do armário”, esse filão no cinema queer, para alguns críticos, só perpetua uma visão padronizada dos homossexuais e, no cenário atual, regride o retrato dos gays a um clichê dos filmes dos anos 90, época em que produções com essa abordagem atingiram seu auge. Para outros, porém, é uma maneira de mostrar que independente de ser na Itália de 1983 ou nos Estados Unidos de 2017, ainda existem histórias complexas sobre o tema da autodescoberta e auto-aceitação. Como conclusão breve, é um atestado que persiste ainda a dificuldade de alguns membros da comunidade LGBTQ em sair dos armários devido a preconceitos e estigmas da nossa sociedade.

Continue lendo “O cinema no armário em Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats”

A Vida Provisória: Notas do subsolo

Antes de qualquer imagem ser exibida, A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, começa com um letreiro que reitera: “Um filme de ficção”. As cartas são postas em duas espécies de trailers que se alternam com a retumbante sequência de créditos iniciais. Sobre planos que se repetirão adiante, a narração estabelece que trataria-se de um filme baseado em anotações incompletas encontradas no quarto de hotel de Estevão (Paulo José). “Em muitos pontos nossa equipe tomou a liberdade – e a cautela – de apenas sugerir os acontecimentos.” Está declarada uma aura de clandestinidade que virá a emanar de cada quadro; sugere-se estar prestes a ver o proibido. Ora, A Vida Provisória é um filme de 1968 e, mais importante ainda, sobre 1968.
Continue lendo “A Vida Provisória: Notas do subsolo”

Mulheres no Cinema: Ana Carolina

O cinema de Ana Carolina é, acima de tudo, desbocado. É uma poética do chulo, iconoclastia dos mitos populares e a santificação dos fluidos corporais. Não é à toa que o banheiro seja uma constante ao longo de seus filmes, um ambiente de intimidade pura em que as máscaras caem e os desafetos, angústias e desejos vêm à tona.

Muito se fala da histeria em seus filmes, matéria-prima de seu registro dramático. Atrizes e atores esbravejam estridentes (como não lembrar de Myriam Muniz?), deixando-se possuir pelo absurdo que se instaura progressivamente em cada sequência. Esse aflorar exponencial dos sentidos se dá à precisão com que Ana Carolina conduz suas obras. É uma diretora que sabe onde quer chegar, desenvolvendo uma estética própria sem nenhuma concessão ㅡ e, talvez por isso, tenha conseguido filmar tão pouco ao longo de sua carreira.
Continue lendo “Mulheres no Cinema: Ana Carolina”

Mulheres no cinema: Kathryn Bigelow

Trinta anos separam o seu curta-metragem de formatura na Universidade da Columbia até o Oscar de Melhor Direção, o primeiro a ser entregue a uma mulher na história da premiação. Neste meio tempo, a cineasta Kathryn Bigelow dirigiu sete longa-metragens que foram do horror vampiresco ao drama de época. Na maior parte deles, uma predileção por certa violência e convenções do gênero de ação é notória. Há, porém, espaço para algumas surpresas, caso da personagem de Jamie Lee Curtis em Jogo Perverso (Blue Steel,1989), protagonista feminina em um nicho dominado por machões.
Continue lendo “Mulheres no cinema: Kathryn Bigelow”

Melhores Filmes de 2017

O documentário Martírio é o melhor filme de 2017 pelo Calvero

Com a chegada do final do ano todo crítico realiza a sua religiosa lista de melhores filmes assistidos durante o período. E, claro, não estamos fora desse balaio. Conforme realizado em 2016, nosso site dá continuidade em selecionar os 10 melhores filmes segundo o nosso time. Em 2017 estipulamos como critério a inclusão da lista dos colaboradores mais ativos e como recorte serão selecionadas apenas produções lançadas comercialmente no ano. Anteriormente vivíamos fora da curva, elencando o que havíamos assistido em festivais e mostras, alinhados mais com o circuito estrangeiro do que o nacional. Agora decidimos nos adequar à editoria clássica das listagens que inundam a internet. É o que parece ser o correto, mesmo não sendo a quebra de paradigma que gostaríamos. Mas vamos deixar o teor disruptivo para os filmes selecionados e que refletem cada vez mais a necessidade de destacar direitos e representatividade em diferentes esferas. Que 2018 continue nos tirando da zona de conforto com produções que modifiquem o status quo e abram sempre nossas mentes para debates.

Confira a nossa lista de melhores do ano e logo em seguida a lista individual de cada um dos colaboradores.

Continue lendo “Melhores Filmes de 2017”

Rifle: alvo em movimento

Na articulação cinematográfica há certas regras de etiqueta que se assumem sem precisar ser ditas, normas assimiladas a um glossário de conhecimentos prévios necessários à execução da tarefa de realizar um filme, passíveis a ser seguidas ou subvertidas. Sabe-se, por exemplo, que a cartela com o título da obra a antecede. Se, porventura, um trecho do filme ocorrer antes ao título, tal caracteriza-se como um prólogo, assim como na literatura, em que pode-se prenunciar o teor do discurso a se desenvolver, evidenciando elementos-chave à sua compreensão. No cinema, o posicionar do título sucedendo a um prólogo coloca sua retórica em xeque, podendo-se potencializar através do contraste com a cena o seu sentido transmitido pelo verbo. O prólogo de Rifle (2016), segundo longa-metragem de Davi Pretto, sintetiza em ações aparentemente simples as angústias que vêm a permear seus mecanismos. Somos introduzidos ao protagonista, Dione (Dione Ávila de Oliveira), enquanto apaga a faca mensagens gravadas em árvores. Em seguida, em seu caminhar moroso (um carro passa ao fundo, estabelecendo a proximidade da rodovia), se depara com um carro detonado, já parte da paisagem de um pequeno bosque. Cut to black. Título do filme. O opor da imagem de um automóvel à palavra “rifle” como ponto de corte inaugura um questionamento que lentamente se desenvolve através da projeção, em que se essencializa a figura do carro como alegoria ao progresso entre aspas, à intromissão do meio urbano nos espaços rurais.

Continue lendo “Rifle: alvo em movimento”