Campo Grande: ode ao status quo

Um bilhete de loteria onde se escreve o endereço e o nome de Regina (Carla Ribas) é o primeiro motivo simbólico estabelecido em Campo Grande (2016). O filme abre com Rayane (Rayane do Amaral) sentada sozinha em frente a um prédio residencial na Zona Sul do Rio de Janeiro. A menina veste uniforme escolar e carrega o dito bilhete que não tem uma significação casual, já que uma impressão específica – aludindo às loterias da Caixa – foi confeccionada para a cena, e dá partida ao estudo que a diretora e roteirista Sandra Kogut se propõe a elaborar sobre o abismo entre classes sociais no Brasil atual. Ao desenrolar da trama a metáfora fica clara: uma mãe deixa seus filhos sob a esperança de tirarem a “sorte grande” e ser acolhidos pela ex-patroa de sua mãe.

Regina é uma mulher divorciada, de classe média alta, cujo espaço é invadido de repente pelo envio da criança que nunca havia conhecido. Sua filha, Lila (Júlia Bernat), está prestes a se mudar para a casa de seu pai, o que levará nossa protagonista a se mudar de seu apartamento atual. A empregada, Wanda, fica encarregada de manter a menina atrás do limite da porta da cozinha, em situação similar ao recente Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015). A empregada doméstica aqui, porém, representa uma funcionária idólatra, que reproduz de maneira aparente o desprezo que Regina mantém subentendido – mais tarde no filme, ela se desfaz de um sofá querido onde Rayane fez xixi. Logo, Rayane vê pela janela e logo descobrimos que seu irmão, Ygor (Ygor Manoel), retornou à entrada do prédio, e corre a seu encontro. Ygor é o elo principal entre o espectador e o universo fílmico, e é através de seu ponto de vista que se representa a maioria da projeção. A escalação de Manoel demonstra-se certeira, pois o menino exprime curiosidade e carisma sem sucumbir aos clichês de personagens infantis, herança do trabalho de direção anterior de Kogut em Mutum (2007). Em alguns momentos, as interações entre Rayane e Ygor e certos comportamentos soam exagerados, mas isso diz mais respeito ao roteiro do que aos atores.

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O arco principal do filme se desencadeia quando Regina leva as crianças ao orfanato e o garoto foge. Ygor entrega escondido seus pertences à irmã, que fica sob os cuidados do abrigo, e retorna ao prédio de Regina, tentando convencê-la a acolhê-lo enquanto espera a mãe, que ao deixar as crianças alegou que voltaria logo. A partir daí, se estabelece um contraste de conflitos que realça as diferenças sociais. Enquanto Lila briga com a mãe sobre o prospecto da venda de seu piano antigo, Ygor está literalmente sem mãe. Regina não é uma personagem imediatamente empática. Sua decisão de ajudar Ygor a reconstituir seu passado só se dá após Lila desafiá-la, afirmando: “você não quer levar ele para casa porque no fundo não sabe cuidar de ninguém”. Assim, sua ajuda não é necessariamente abnegada e soa como tentativa de redenção pessoal. Isto provoca uma ambiguidade moral que talvez não necessariamente funcione a favor do filme. Enquanto se pauta em maioria através da presença de Ygor em cena, algumas retiradas estratégicas à realidade de Regina não contribuem para o enredo além de reforçar sua posição de dondoca, enquanto momentos cruciais à narrativa, como a ligação da mãe das crianças a Regina, são inexplicavelmente mantidos fora de cena.

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Em questão formal, Kogut constrói uma relação de cumplicidade com as duas crianças ao manter grande parte dos planos em posições baixas, ao nível de seus olhos. Quando Ygor percorre as ruas e centros comerciais, os adultos têm suas cabeças cortadas, o que reforça seu isolamento e invisibilidade perante o espaço urbano. Ao mesmo tempo, muitos diálogos por parte dos adultos são apenas ouvidos atrás da câmera, que observa os rostos dos atores mirins. Um constante motivo apresentado é o da especulação imobiliária, o maquinário, as edificações em sua infância. A princípio, a nada sutil presença destes elementos parece desconexa, porém culmina no momento em que Regina descobre que a antiga casa de Ygor na Campo Grande do título, uma ocupação não regulamentada, foi demolida para dar lugar a mais um condomínio de classe média. A resposta para o passado de Ygor e Rayane estava ao seu redor o tempo todo.

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Descobertas as razões para o abandono das crianças e feito o contato com a mãe, o filme demonstra certa indecisão sobre o que deseja concluir. O tom quase aventuresco dado às crianças não condiz com a suposta crítica ferrenha e pessimista às convenções sociais. Regina se reconcilia com sua filha, aceita deixar seu apartamento, e leva Ygor para comprar presentes para Rayane e sua mãe, porém esta não aparece na data combinada. Regina o deixa no abrigo para se juntar a sua irmã. E então, a mãe das crianças, com vestimentas caricatas, carregando um bebê recém nascido, aparece no prédio para buscá-los, recebendo do porteiro a informação do paradeiro dos filhos. Deixamos a história com o prospecto desta reconciliação, estando a mãe emocionada com o secador de cabelo deixado de presente para ela. As compensações materiais parecem suficientes para Regina – pela maneira como se elabora a narrativa, talvez até para Kogut. Ao manter sua interação com a mãe fora de cena, não se retira nenhuma conclusão moral para a jornada das crianças, e se favorece apenas o que seu abandono significou para a dondoca da Zona Sul. Cada um volta para seu lado nesta ode ao status quo.

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