Café com canela: afetos e banalidades

O registro em VHS de um aniversário de criança divide espaço com os créditos iniciais de Café com canela (2017), longa de estreia dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio. A docilidade das relações ali apresentadas comunga com o registro caloroso de uma câmera corpo em movimentação constante. Mais tarde, o que era registro de vídeo e em formato 4×3, dá espaço para o digital em 16:9. São dois tempos ali apresentados com uma amplitude de pelo menos dez anos entre um e outro. Tais momentos antecipam dois aspectos do longa que bipolarizam a sua experiência: se por um lado os excessos de experimentações intencionais gritam entusiasmo e inevitáveis desordens, por outro seu ímpeto por uma narrativa de cordialidades é de notável honestidade.

O longa segue o cotidiano de duas mulheres negras pertencentes a diferentes gerações. Margarida atravessa um processo de luto inacabável que dura anos desde a morte do filho Paulinho, marco que afetou profundamente suas relações pessoais e que a enquadra em um estado de solidão constante. Violeta, mais jovem, após a perda precoce dos pais durante a infância, agora é vendedora ambulante, vive com o marido e os filhos pequenos e cuida de sua avó enferma. Há ainda espaço para o retrato de um casal homossexual, também afetado pela chegada inesperada da morte, e personagens secundários, em geral responsáveis pelos momentos mais bem humorados. Neste quadro onde a dor e a saudade permeiam a vida dos personagens, surge um espírito de coletividade que se estende ao longo da projeção.

Tal ideia de comunidade vem à tona tanto pelo amparo oferecido e recebido pelos personagens, quanto pela decisão em registrar detalhes do dia-a-dia da pacata Cachoeira, no Recôncavo baiano. Entre cuidar do cachorro do vizinho e passar um café com canela para uma antiga amiga, os diretores incluem inserts de mãos hábeis preparando comida, rostos dos habitantes da comunidade e detalhes como o de uma banda militar que passa ao fundo na cena. Enquanto se locomovem pela cidade, personagens se cumprimentam com carinho, uma bicicleta guia o espectador pelas ruas locais e o carro de som anuncia um velório. A intenção de registrar o provinciano é clara e talvez seja um dos maiores trunfos do trabalho, que consegue o carinho do público justamente em sua insistência em registrar a simplicidade e companheirismo de seus personagens em meio a alegorias que enfatizam este mesmo espírito.

O problema é que, ao buscar expressar esse sentimento do coletivo e também os de ordem particular, como o luto, os cineastas usam de uma infinidade de ferramentas que visa uma estética de experimentos. Nesse ponto, as escolhas denotam fim nelas mesmas, algo que talvez sirva enquanto processo, mas que no resultado final soam impertinentes à narrativa. A montagem, por exemplo, escolhe um dispensável desenrolar anacrônico em três tempos diferentes. Como não estranhar assim os rápidos flashes que apresentam uma visita de Oxum para Margarida? E em se tratando de tal personagem, é difícil ignorar os excessos simbólicos que visam explorar seu íntimo. Há o exagerado momento de transe em que a casa é tomada por plantas ou aquele em que sangue escorre pelas paredes do quarto. A perda da identidade se revela em gestos simples como o cobrir de um espelho ou pelos retratos de humanos sem face nas paredes. Todos apresentados de maneira pouco sutil.

Sutileza também não é atributo dos movimentos de câmera, usados das mais variadas maneiras. Eventualmente funcionam, mas há claro prejuízo pela falta de domínio técnico e/ou pelo despropósito dentro da narrativa. Às vezes perfeitamente estática, outras carregada por uma mão violentamente trêmula, a câmera fisga momentos em grande angular e em determinado momento representa a subjetiva de um cachorro. O roteiro, feliz na construção de seus personagens, derrapa na dureza de alguns diálogos e monólogos expositivos que, isoladamente bem inspirados, não fazem sentido no desenrolar da história, como aquele em que Margarida discursa sobre o cinema.

E ainda que sofra com inúmeros problemas desta ordem, Café com canela é eficiente no retrato das afetividades, maior interesse da obra. Representando um cinema relevante e que emerge naquela região da Bahia, o filme investe seu olhar justamente sobre os hábitos que refletem ambos a cultura e o comportamento daquela sociedade através de narrativas particulares, mas ainda assim universais. É possivelmente por esses motivos que o público o tenha recebido com calorosos aplausos após a sessão neste quinquagésimo Festival de Brasília. E, claro, pelo ato político que reside em sua realização.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *