Burning — quando o cinema encontra a literatura

Dirigido por Lee Chang-dong, Burning (Beoning, 2018) é uma das grandes surpresas do cinema Coreano neste ano. Mesmo com a maré baixa em que vive o cinema do país nos dias atuais — comparado com os anos 2000 onde diretores como Park Chang-wook, Bong Joon-ho, Kim Ki-duk e o próprio Lee Chang-dong emergiram e colocaram definitivamente a Coreia do Sul na atenção dos grandes festivais de cinema —, a produção aparece como uma lembrança de que o cinema realizado por lá ainda tem muito ainda a nos surpreender, tanto por suas narrativas quanto pela destreza com a linguagem cinematográfica. Com uma fotografia magnificente e perpetrada por uma trilha musical, a produção é uma adaptação de um dos contos do livro O Elefante Desaparece (Cia. das Letras, 2018), do renomado escritor Haruki Murakami, publicado em 1992 e que recentemente ganhou uma edição brasileira.

Um drama com toques de thriller sobre obsessão e amor não correspondido com uma pirotecnia que apenas um diretor como Lee Chang-dong poderia nos entregar, o filme traz uma trama que ronda o mistério de um desaparecimento, o qual a sua efetiva resolução não nos é dada e que ao progredir do filme se torna muito menos importante, dando lugar aos sentimentos de solidão, desamparo, e o desejo de vingança — ao gosto dos grandes clássicos recentes do cinema sul-coreano.

O protagonista, Yoo Ah-in, nos entrega uma grandiosa atuação como Jong-soo, um rapaz nos seus 20 anos, desempregado e que vive na cidade de Paju, perto do paralelo 38, uma área rural e subdesenvolvida onde é possível escutar durante todo o dia as propagandas da Coreia do Norte. Ele, assim como vários personagens que rondam o universo de Murakami, possui o desejo de ser escritor e mergulha nas obras de F. Scott Fitzgerald e William Faulkner — que inclusive tem um conto chamado também Barn Burning, como o título do conto de Murakami. A mãe de Jong-soo sumiu quando ele ainda era criança e o seu pai, um veterano de guerra, está na cadeia por agredir um agente do governo. O protagonista então vive de trabalhos temporários em Seul, e é em um desses bicos que ele encontra a jovem Hae-mi, interpretada pela atriz novata Jun Jong-Seo em performance primorosa. Descobrindo ainda que se conheceram durante a infância, apesar de não lembrar da garota, eles acabam desenvolvendo uma relação e se encontram ocasionalmente. Porém o romance em crescimento é interrompido quando Hae-mi decide viajar para a África, e Jong-soo fica encarregado de cuidar do apartamento dela e alimentar o seu gato que nunca aparece, apesar de consumir a comida que Jong-soo deixa para ele regularmente.

Retornando de viagem, Hae-mi está com um novo amigo, Ben (Steven Yeun), um jovem rico e elegante, atributos que incomodam o pobre Jong-soo. É a partir desse momento que o triângulo amoroso toma forma. Jong-soo percebe que Hae-mi já não possui interesse nele, contudo os três começam a sair juntos, como amigos, e muitas vezes como uma vontade de Ben de mostrar todo o luxo que o ronda, desde os restaurantes luxuosos até a visita de seu apartamento em Gangnam. Jong-soo é mostrado sempre deslocado e inapto aos códigos da classe alta. É quando, aos poucos, se descobre que Ben é um sociopata e Hae-mi desaparece sem deixar um traço qualquer.

Lee Chang-dong cria uma sensação de vazio e solidão com uma habilidade única em um filme que faz uso de músicas que são citadas ao longo do conto de Murakami, além de canções que fazem parte do universo expandido do autor, desde o jazz de Miles Davis até as valsas de Strauss. A cena de sexo entre Hae-mi e Jong-soo situada no pequeno apartamento da garota é muito bem construída. No local, por poucos minutos do dia, a luz do sol entra graças ao reflexo do sol na Torre de Namsan. O prédio é cravado no coração de Seul e um é local de fetiche de diversos diretores coreanos desde Lee Man-hee em Hyuil (1968) até Hong Sang-soo em Conto de Cinema (2005). Aqui em Burning, o sol mais uma vez é um elemento narrativo, similar ao uso que Lee Chang-Dong fez em Sol Secreto (2007), contudo durante a cena do sexo o sol desaparece da parede do quarto, preconizando o próprio desaparecimento de Hae-mi.

Após o sumiço de Hae-mi, seguimos Jong-soo em sua obsessão de encontrá-la, sua raiva e seu sentimento de vingança. É uma raiva contida, confundida com ressentimento que ao progredir da narrativa cresce exponencialmente. Continuamente Jong-soo, dirige sua velha caminhonete, tentando encontrar evidências contra Ben, e procura também um poço vazio onde Hae-mi afirma que Jong-soo a salva-la em sua infância — onde mais uma vez Jong-soo não se lembra.

Dentre as diversas adaptações que os contos e romances de Haruki Murakami tiveram no cinema, uma das maiores surpresas foi Tony Takitani (2004), onde o filme captura perfeitamente o universo de Murakami, conseguindo adaptar com maestria os sentimentos e elementos essenciais das narrativas do autor. Assim como em Burning, onde Lee Chang-dong além de adaptar com precisão também adiciona vários elementos que rondam o universo das narrativas do autor, ele ainda destila elementos simbólicos e metafóricos que expandem o conto, além de elementos presentes em outras narrativas de Murakami. Isso tudo só denota a profundidade da leitura e da inventividade do cinema de Lee Chang-dong.

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