O entusiasmado Bingo – O rei das manhãs

Antes mesmo que os primeiros créditos surjam na tela da projeção de Bingo – O rei das manhãs (2017), um ajuste de trekking é requerido em letras VCR. Enquanto o ruído é reparado, o espectador já se coloca em um tempo onde o vídeo dominava um modus operandi hoje nas mãos do digital. Mais do que a estética VHS, os anos 80 como um todo têm papel crucial ao longo do filme. Por isso, a direção de arte e de fotografia se dedicam em um retrato nostálgico da televisão e seus bastidores naquele período. Junto do ritmo e da interpretação de Vladimir Brichta, como o personagem-título, este é um dos principais atributos do empolgado longa de estreia de Daniel Rezende como diretor.

Bingo é, na verdade, o Bozo, palhaço que apresentava o icônico programa infantil que ia ao ar pelas manhãs dos anos 80 e era transmitido pelo SBT. Vários foram os atores que o interpretaram na televisão, mas o filme se atém em Augusto, nome fictício para o verdadeiro intérprete do palhaço, Arlindo Barreto. São também várias as mudanças nominais adotadas pelo longa. Se o Bozo é Bingo e Arlindo é Augusto, há também a Rede Globo como Mundial e a Xuxa como Lulu. A única que não tem o nome preservado é a cantora e dançarina Gretchen. Além de poupar a produção de desembolsar uma nota em direitos autorais (o personagem é criação do estadunidense Alan Livingston), a escolha deu maior liberdade de criação ao roteirista Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças) ao dar luz a uma narrativa de controvérsias.

Não que o roteiro em si o seja, trata-se da aplicação de uma fórmula mais que conhecida do drama de redenção. Talvez soe menos óbvia pelos poucos trabalhos que a utilizam no cinema nacional, mas a figurinha é bem repetida em Hollywood. O arquétipo de ascensão e queda é seguido à risca e, ainda que funcional, é no texto que “Bingo” encontra seus pontos mais fracos.

Filho de uma atriz de renome, mas esquecida pela mídia, Augusto atua em pornochanchadas e faz pontas em folhetins das oito. Sua terna relação com o filho Gabriel não é a mesma que tem com a ex-esposa Angélica (Tainá Muller), atriz de sucesso na televisão. Tornar-se um grande nome na indústria do entretenimento deixa de ser um sonho quando ele é escalado para interpretar o Bingo na TVP (SBT). Para a loucura de sua diretora Lúcia (Leandra Leal), Augusto subverte o roteiro original do programa com piadas polêmicas que, claro, levam o palhaço a uma rápida ascensão na audiência. O auge de sua carreira, contudo, é carregado de excessos que colocam em cheque suas relações pessoais, em especial com o filho.

Tais excessos, que envolvem drogas, sexo ou mesmo a tensão dos bastidores, em uma ágil direção de atores, levam ao diretor um estímulo para a construção de uma mise-en-scène inteligente que dá conta da movimentação constante presente no longa. Seja a câmera, sejam seus personagens ou o turbilhão de desencadeamentos da narrativa, Bingo dificilmente para. Em termos de direção, é de se estranhar, em primeira análise, que o diretor Daniel Rezende se apoie tanto em planos-sequência. Responsável pela montagem de filmes como Cidade de Deus (2002) e A Árvore da Vida (2011), Rezende demonstra aqui grande apreço por longos takes. Ao evitar o corte, ele amplia seu domínio de ritmo e, nestas sequências, retorna ao seu ofício de montador.

Seu entusiasmo rende momentos louváveis, vide o plano em que o programa de Bingo vai ao ar pela primeira vez. A movimentação de atores e câmera é precisa tanto no reconhecimento do espaço quanto ao apresentar para o público a preparação da equipe. É necessário colocar que há certo exibicionismo em algumas cenas, evidente naquela em que a câmera deixa um apartamento, faz um giro pela cidade e entra em um quarto de hospital. Ainda que bem executada, ela chama a atenção pra si e encontra referência em David Fincher (vide os long shots de O Quarto Pânico). Em termos técnicos é certamente admirável, mas a partir do momento em que a câmera lança o espectador para fora da janela, soa mero capricho, o que não é necessariamente problemático. São escolhas como essas que revelam um cineasta em estado de vibração.

E é principalmente em sua energia que o filme se sustenta. Rápido e com impulsos narrativos bastante orgânicos, o longa de Daniel Rezende encontra seus pontos fracos justamente ao desacelerar em passagens que almejam maior intimismo. Sejam elas pelo excesso de repetição (o desgaste na relação entre pai e filho se quer mais profundo do que realmente se apresenta), ou pelos diálogos duros e metafóricos do protagonista com a mãe que, não raro, alcançam certa pieguice. A inevitável ruína do personagem, portanto, funciona mais pelo viés da autodestruição do que pelas relações do protagonista. Isso, claro, revela o desenvolvimento raso de personagens secundários, caso da própria mãe, interpretada por Ana Lúcia Torre, ou da ex-esposa Angélica. Mesmo Lúcia, bem conduzida por Leandra Leal, carece de maior amparo do texto que, por vezes, a apresenta como um simples suporte (ou obstáculo) para o protagonista. Já Vladimir Brichta é presenteado com um rico personagem, defendido por ele com entusiasmo. Um provável marco na carreira do ator.

Há ainda que se destacar a fotografia de Lula Carvalho, corajosa ao investir em uma iluminação de fortes tonalidades em passagens de grande impacto. Também por tornar possíveis as pretensões do diretor em movimentos de difícil execução ou em representações simbólicas, como aquela em que as luzes se apagam conforme Augusto se afasta do set. É também inteligente ao respeitar a direção de arte, que capricha em figurinos e elementos de cena com fortes intenções nostálgicas, sentimento que atinge o espectador logo nos primeiros minutos de projeção. Mais do que isso, é também feito da arte a fiel reconstituição de época que o longa se propõe apresentar, seja ela na sobriedade de cores e elementos do cotidiano, ou na intensidade da realidade televisiva.

Assim, Bingo – O rei das manhãs se mostra um tipo relativamente incomum no cinema brasileiro. Longe da perfeição, o longa traz em sua proposta mainstream um apuro estético que não se vê nos trabalhos nacionais que atingem grandes bilheterias, hoje sob domínio das comédias. Não se encaixa precisamente no que se convém chamar de filme de festival, tampouco representa uma pura bobagem. É um filme-pipoca seguro e que tem potencial para encontrar apreço no público médio, talvez o mais cético em relação ao que se produz aqui. Daniel Rezende, enquanto diretor, é um nome a ser seguido e seu filme tem qualidades que merecem, pelo menos, consideração.

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