Coberturas Críticas

Baronesa – a mulher da periferia e a estreia promissora de uma cineasta

Uma jovem negra, moradora da periferia, requebra seu corpo enquanto o som agressivo de um funk tira dela uma coreografia precisa. A lente da câmera não se interessa pelo balançar da bunda da moça, algo praticamente inevitável. A diretora estreante Juliana Antunes, em um quadro apertado, concentra seu empenho na região entre o quadril e as costelas, registrando um outro movimento. Permitindo definitivamente que a sensualidade esteja presente, a cena introdutória de Baronesa (2016), filme que abriu a Mostra Aurora em Tiradentes neste ano, traz um olhar de certa forma insólito sobre o corpo nesta específica circunstância. Há pelo menos três características ali presentes que são marcantes ao longo da projeção: os planos altamente restritivos, a jovem mulher da periferia e o olhar de uma diretora em estreia.

O longa, um docudrama, faz um recorte na vida de Andreia e Leid, duas moradoras da região periférica da capital mineira. Entre sessões de manicure, brincadeiras com os filhos, cervejas, cigarros e muita conversa, a realidade das duas vai sendo apresentada de maneira muito orgânica. Tal organicidade surge justamente pelo fato de se tratarem de duas atrizes não profissionais interpretando a si mesmas, a partir do que propõe a diretora. Mais do que isso, contribuem também para esta estética os limitados movimentos de câmera e uma mise en scène aparentemente improvisada, dando ao filme o ar documental.

Se os movimentos da câmera são restritos, assim também são aqueles das personagens: na maior parte do tempo, o espectador as vê em estado de repouso, raramente se deslocando no espaço. Dessa constatação se percebe uma forte fisicalidade, um interesse quase que total no corpo, nos indivíduos. Registrar aquele número reduzido de personagens em um espaço quase claustrofóbico, onde dificilmente a atenção do espectador é desviada para outros elementos que não as próprias figura humanas, demonstra a importância não apenas do que eles tem a dizer mas também de lhes dar lugar de fala.

E em se tratando de lugar, vale ressaltar como a direção enquadra seus personagens em ambientes que evidenciam a arquitetura da favela. Como observado pela crítica Patrícia Mourão no debate sobre o longa, Andreia e Leid estão sempre posicionadas contra muros e paredes de concreto. Mais do que tornar quase tátil o espaço que elas habitam, essa escolha reflete o seu grau de restrição e isolamento. No sentido literal e físico, elas evitam sair de casa e ir às ruas devido à guerra que está a ponto de acontecer ali. Casos de crianças baleadas e jovens assassinados nas redondezas estão entre os assuntos que as meninas discutem. Do ponto de vista metafórico, não há um espaço muito possível de ação para elas, algum tipo de expectativa além das barreiras concretas e simbólicas ali presentes.

Neste mundo fechado e hostil, Leid cuida das crianças pequenas que aguardam o retorno do pai do presídio. Andreia relata um histórico de abuso sofrido na infância. Há ali espaço para momentos mais descontraídos, como quando as meninas conversam sobre masturbação, porém o gosto amargo da realidade de ambas é persistente. Nessa tentativa de cobrir aquelas vidas da maneira mais plena possível, a diretora em alguns momentos caminha por terrenos discutíveis da ética cinematográfica. Há uma cena de uso explícito de cocaína e uma dura sequência onde Andreia flagra os filhos de Leid no que parece ser uma tentativa de abuso. Questionam-se aqui os limites destes registros, não no intuito de obter respostas, mas sim refletir sobre o cinema, em especial este tipo de híbrido de cinema.

De qualquer maneira, há na abordagem de Juliana Antunes certo frescor, onde imprevistos e incertezas contribuem para narrativa. Um momento marcante se dá quando um tiroteio acontece muito próximo do ‘set’, fazendo a câmera despencar numa cena a princípio tranquila. Assim como as meninas na tela, a reação do público não é menos que desconcertante.

Nessa busca pelo realista, é necessário ainda colocar como a presença de Andreia e Leidiane na tela é quase sempre natural e crível, permitindo a imersão do espectador na narrativa. A perceptível relação entre as atrizes e a diretora tem um resultado que não se equipara, mas se aproxima de A vizinhança do tigre (2015), de Affonso Uchoa, filme já premiado aqui em Tiradentes. Aliás, Uchoa teve certa participação na realização de Baronesa.

Abordando a mulher da periferia em sua força e nos percalços por que passa, o filme de Antunes busca registrar a partir das protagonistas um olhar inquieto sobre classe social e feminilidade. Na dureza de sua existência, Andreia se recusa a permanecer em um ambiente onde a vida está em risco. Ao construir sua própria casa em uma belíssima cena, ela demonstra seu poder, mesmo que inevitavelmente a solução se encontre na construção de um novo muro que a isolará. São em momentos como esse que a diretora, ainda que com certas imperfeições, se mostra promissora. É o início de carreira de uma jovem cineasta brasileira, cujo nome deve ser acompanhado.

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

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