O título deste documentário que abriu a 8ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba prometia. Para o público que convivia com os filmes de Eduardo Coutinho,  acostumado a ver e rever os seus  longas e testemunhar os momentos de virada implementadas pelo diretor quanto à forma dos filme, a expectativa de ver Banquete Coutinho (2019)  só poderia ser muito grande. O nervosismo do diretor Josafá Veloso, em seu filme de estreia, estava plenamente justificado. E seria muito fácil afirmar que o resultado ficou aquém da grandiosidade do homenageado. Mas, ao que parece, a ambição dele nunca foi se igualar ao mestre. Ao contrário, a reverência é somente o resultado de uma consciência do que significa estar diante deste ícone do cinema documental brasileiro, que contou um pedaço da história do país através de filmes como Cabra Marcado para Morrer (1964 – 1984) e Santo Forte (1999), que basicamente criou um modo de entrevista impossível de copiar (muitos tentaram e ainda tentam), e que lá pelas tantas de sua trajetória viu que estava cansado do formato de entrevista conhecido por “cabeças falantes” e se reinventou (Jogo de Cena, 2007) sem deixar de fazer o que mais sabia: ouvir pessoas.

Para Veloso, bastaria ouvir Coutinho. Mas eis que seu objeto de pesquisa morreu em 2014 (o filme nasceu também como pesquisa, quando estudante da USP e quando passou uma temporada estudando em Cuba). Veloso contava com uma entrevista feita com Coutinho em 2012 e ela é o prato principal deste banquete. Há a ilustração com imagens de filmes através de uma montagem dialógica competente (Eugênio Puppo e Gustavo Vasconcelos). E há uma saudade que nos toma de assalto logo na cena de abertura, com o trecho de Últimas Conversas (2015), onde Coutinho se comove com a espontaneidade de uma criança. Ali ele se revela o cineasta que buscava a pureza (a verdade) dos seus entrevistados, algo que conseguiu inúmeras vezes, projetando o estado da arte no documentário, principalmente em O Fim e o Princípio (2006).

O banquete, que é a entrevista dada a Veloso, deixa o espectador em suspenso, como que querendo que a conversa dure mais tempo. Mesmo (ou sobretudo) o mau humor do entrevistado é bem-vindo, pois isto não eliminava a generosidade da doação. Quando Coutinho se interessa de fato por alguma  proposição, como a que faz Veloso em cima de uma frase de Lévi-Strauss, o vemos refletir sem rodeios, com honestidade e profundidade para a câmera de um desconhecido.

Veloso disse na coletiva no festival que seu maior desafio era encontrar um equilíbrio entre o respeito e a liberdade. Queria ter feito um filme sem música alguma, mas se deu conta que não poderia ser tão rigoroso (quanto Coutinho foi) e optou por incluir outros elementos como a música na trilha. Isto não representa um problema. Para emular o estilo coutiniano não é preciso seguir regras coutinianas. Tanto que o exercício de síntese praticado pela montagem ao utilizar trechos dos filmes aparenta não seguir um compromisso mais rígido e, no entanto, funciona como poética. Neste sentido, destacam-se  as intervenção de montagem, que são  as inserções de planos de Memórias do Subdesenvolvimento (Tomás Gutiérrez Alea, 1968),  cujo sentido pode levar a múltiplas assimilações. Um protagonista em crise existencial, perdido nos descaminhos da revolução cubana, ilustrando um Coutinho cheio de dúvidas sobre o seu próprio cinema. Supérfluo, talvez, são alguns momentos em voz off de Josafá Veloso.

Independente deste pequeno reparo, em seus pouco mais de 70 minutos, relembramos momentos de Coutinho e somos levados a fazer conexões  a partir de procedimentos autorais, que representam a visão que os montadores (e o diretor, supõem-se) têm da obra do mestre. Uma obra que com seu desaparecimento absurdo (Coutinho foi assassinado pelo filho esquizofrênico) pode e deve ganhar novas interpretações. Há algo que se refere à interpretação que está justamente no final do Banquete: a imagem que fecha o filme é de dona Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, de Cabra Marcado Para Morrer. Coutinho era o rei das personagens, seu cinema pagava tributo às pessoas que entrevistava, sabia ouvir o Outro. Nenhum tema, nenhum estilo era mais importante do que mulheres e homens, adolescentes e crianças que confiaram a Coutinho suas histórias, seus pensamentos e suas emoções.

Coutinho não romantizava ou idealizava seus personagens, tampouco os via com grandiloquência. Na entrevista a Veloso,  inclusive, assume que tem consciência de que as pessoas entrevistadas por ele não eram extraordinárias;  extraordinários seriam os  poucos minutos em frente à câmera. “Momentos mágicos”, conclui. Mas há algo inegável que está no  interesse genuíno de Coutinho pelas pessoas e o respeito por elas  está resumido nesta última imagem do filme. Mesmo para os espectadores para os quais este documentário de Veloso não acrescenta muito à compreensão a esta figura ímpar que foi Coutinho, encerrar com o rosto de dona Elizabeth Teixeira olhando para a câmera  tem a ver com deleite, que tem a ver com banquete. Que tem a ver com morte.