Menu Close

Autor: Rubens Fabricio Anzolin

Rocketman: Dispositivo inocente

Do centralismo obsessivo e quase messiânico de Martin Scorsese em O Lobo de Wall Street (2013) ao embalsamamento panegírico de F. Gary Gray em Straight Outta Compton (2015), os filmes americanos contemporâneos de viagem ao inferno cada vez mais buscam centrar-se em um movimento operístico que possa servir de muleta ou artifício como enfeite do jogo narrativo. Ou seja: há, na maioria das vezes, uma linhagem narrativa previamente traçada – que passa pela pirâmide da ascensão, queda e recuperação – assim como há um esforço muito evidente para diferenciar cada um dos produtos desse star system através das distintas abordagens que os mesmos supõem proporcionar a determinados públicos. Dessa forma, parece mais justo abordar Rocketman (2019) como um filme que não necessariamente se propõe a desvirtuar qualquer ordem natural da indústria americana, mas sim partir de seu virtuosismo esforçado em maquiar ao máximo as rédeas a que está preso.

 

Read more

Girl – Sismografia maldita

“O plano não é um espaço composto pictoricamente no qual o corpo encontra seu lugar, mas um tipo de vestimenta, de véu que cobre seus deslocamentos, se calca no seu gestual.”

(Jean-Marc Lalanne, Cahiers du Cinema n°596)

Em dado momento de A Estética do Filme, Jacques Aumont vem a deparar-se com o embate entre plano e campo: tudo que há dentro do plano, pertence a ele. O espaço que o cerca, porém, pode ser infinito – fato esse que delimita o campo. A noção de tamanho imaginário, que, por vezes, pode ser subversivo, atravessa as questões mais arrebatadoras do cinema contemporâneo. Há o que está em tela, em quadro, imagem arredia. Mas com o que exatamente ela se relaciona? Que mundo à cerca? Com quem se comunica? Sobra aí, dentro dessa zona cinzenta, uma síndrome melindrosa para guiar, um espaço aberto que constantemente continua a ressignificar as interpretações e intempéries dos mais distintos realizadores.

Read more

Nós: História e estória

Uma introdução minimamente interessante para se começar a pensar em Nós (Us, 2019), segundo longa de Jordan Peele, é lembrar do celebrado curta-metragem O Duplo (2012), de Juliana Rojas e Marco Dutra, exibido na Semana da Crítica no Festival de Cannes. Em O Duplo, uma professora de matemática substituta era obrigada a lidar com o aparecimento de sua “parte negativa”, o seu contrário. Essa aparição – que nos filmes de Juliana e Marco sempre vem em forma de conto gótico literário (e não à toa o filme cita versos de um livro infantil americano) – desencadeava uma parte do espírito que não conseguia lidar com confrontar-se com o outro – esse outro que, além de ser outro, também é o eu.  Desses embates surgiam não só as reflexões sobre o auto-julgamento e a auto-manipulação, mas também (e especialmente) uma questão sobre as identidades espelhadas que podemos carregar – não como uma síndrome psicológica, mas sim como um diálogo com a parte que recusamo-nos a ver e enxergar. Esse processo de enfrentamento e de criação do doppelgänger é que torna o cinema palco para a discussão de questões que, talvez não necessariamente, habitem em nós em primeira pessoa (na “parte positiva”), mas sim no nosso duplo (a suposta “parte negativa”). Para Jordan Peele (e boa parte da crítica americana e brasileira), esse outro lado do duplo é a relação com os Estados Unidos – daí o evidente “U. S.” do título original -, sendo nesse caso o Horror (um dos mais caros gênero da historiografia cinematográfica) o meio mais lógico e natural para sediar esse debate.

Read more