Mulheres Alteradas e antiquadas

A junção de um grupo de protagonistas femininas insatisfeitas com a própria vida, seja ela profissional ou amorosa, é mote desde os primórdios do cinema comercial lá em Hollywood. Não foi invenção de Sex and the City. Por exemplo, o diretor George Cukor já realizava tal feito com As Mulheres (1939) no qual um grupo de amigas descobre a traição do marido de uma delas e uma guerra entre os sexos (e as mulheres) se instala. Logo, é costume do gênero das comédias românticas reunir um grupo de mulheres para desbravar temáticas relacionadas ao universo feminino e também masculino com suas nuances e complexidades. No Brasil, tal feito já ganha um destaque recente, a adaptação dos quadrinhos da escritora argentina Maitena em Mulheres Alteradas (2018).

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O cinema no armário em Me Chame Pelo Seu Nome e Beach Rats

Existem duas formas errantes de descobrir o mundo: através de um coração partido ou através da incompreensão. Ambas são uma busca pelo amadurecimento. Através dessas duas estradas, duas recentes produções retratam personagens gays ao trilharem concepções muito particulares sobre um mesmo tema. A primeira é o aclamado e indicado ao Oscar Me Chame Pelo Seu Nome (Call me by your name, 2017) e a segunda é a sensação indie – inédita nos cinemas e festivais brasileiros, mas agora disponível pela Netflix -, o drama Beach Rats (2017). Apesar de caminhos e ambientações muito distintos, as duas produções se encontram em diversos momentos traçando um certo paralelismo. Resumidamente, são filmes que retratam as dificuldades de personagens gays ainda em armários, enrustidos quanto a sua condição e descobrindo maneiras de se relacionarem com outras pessoas e amadurecerem (ou não) nesse processo. Chamada de “estética do armário”, esse filão no cinema queer, para alguns críticos, só perpetua uma visão padronizada dos homossexuais e, no cenário atual, regride o retrato dos gays a um clichê dos filmes dos anos 90, época em que produções com essa abordagem atingiram seu auge. Para outros, porém, é uma maneira de mostrar que independente de ser na Itália de 1983 ou nos Estados Unidos de 2017, ainda existem histórias complexas sobre o tema da autodescoberta e auto-aceitação. Como conclusão breve, é um atestado que persiste ainda a dificuldade de alguns membros da comunidade LGBTQ em sair dos armários devido a preconceitos e estigmas da nossa sociedade.

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Os universos de Aronofsky e Mãe!

É bem provável que toda análise que se detenha à nova realização de Darren Aronofsky, Mãe! (mother!, 2017), inicie avisando seus leitores que algumas revelações importantes sobre a trama serão feitas durante a leitura. É complexo dissertar e, principalmente, opinar sobre a produção sem entregar pontos-chave da história. Afinal, a maneira como o filme também foi vendido não representa o que ele realmente é. São contornos e desvios que a produção toma ao longo de sua projeção que surpreende ser um produto de um estúdio de Hollywood em uma época na qual esse tipo de produção se tornou uma anomalia para os produtores e distribuidores de larga escala. Afinal, já se vão anos em que o investimento e espaço para produções com teor mais intelectual e viés dramático perderam território para alienígenas com capas coloridas e super poderes. E, independente das opiniões serem divergentes sobre a qualidade de Mãe!, não há como negar a sua importância nesse cenário saturado.

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Precisamos ler sobre Kubrick

As entrevistas concedidas por Kubrick podiam ser chamadas de raridades. Recluso e excêntrico, foram poucos os momentos em que o cineasta americano se mostrava receptivo em abordar sua filmografia e processo de criação. Não é à toa que Kubrick (Michel Ciment, trad. Eloisa Araújo Ribeiro, 2017, 370p.), lançado anteriormente pela Cosac Naify e agora relançado em outra belíssima edição pela editora Ubu, é um exemplar que se detém mais em depoimentos de profissionais próximos do cineasta do que declarações do próprio. Mas assim é de um rigor e primor que avança até mesmo abrangendo sua última realização, o excepcional De Olhos Bem Fechados (1999), o qual o diretor faleceu antes de assistir finalizado.

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Os reflexos de Uma Mulher Fantástica

No decorrer de Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantastica, 2017), dirigido pelo argentino-chileno Sebastián Lelio, a protagonista, Marina (Daniela Vega), acaba ouvindo de alguns personagens que eles não conseguem enxergá-la, que não sabem dizer ao certo o que ela personifica e até mesmo a comparam com uma quimera, o conhecido monstro mitológico com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. A violência dessa associação se dá pela transsexualidade da personagem e a ignorância daqueles que a rodeiam. São reflexos de uma sociedade que ao não compreender o que presencia, se torna irracional, preconceituosa e violenta.

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Na Vertical – Na terra dos homens

Alain Guiraudie desenvolve um cinema que primordialmente retrata o universo do homem e a sua masculinidade, além dos relacionamentos e sexualidade ambíguos. Dentro desse ambiente essas facetas surgem e se revelam profundas como forma de conforto ou sobrevivência. Na Vertical (Rester Vertical, 2016), selecionado para o Festival de Cannes em 2016, talvez seja o auge do diretor em retratar o conflituoso e dúvido universo de seus personagens masculinos. Misturando o onírico com um tom quase documental, Guiraudie realiza um filme de reações extremas tanto dos personagens como dos espectadores.

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O descompasso de Tal Mãe, Tal Filha

Tal Mãe, Tal Filha (Telle Mère, Telle Fille, 2017) não possui grandes qualidades, aliás, talveznão possua nenhuma. É um filme histérico, desajustado com piadas pobres e uma edição que deixa a desejar. Parece uma produção que não sabe o que é e atira para todos os lados com reviravoltas e reações descompassadas. Noémi Saglio, diretora e co-roteirista cria situações em que as ações beiram ao ridículo sem nunca cair no tom que busca: o cômico.

A graça se transforma em vergonha alheia facilmente na história de uma mãe extrovertida, Manon (Binoche), e Avril (Camille Cottin) a sua filha grávida. Elas são contrapontos. Enquanto a mãe é destrambelhada, a filha é o cúmulo da organização e controle. A relação que já é amarga e conflituosa, desanda ainda mais depois que Avril descobre que sua mãe quarentona está grávida logo quando ela também está. Reside aí uma justificativa que pouco convence na narrativa: a filha acha que Manon está roubando o seu protagonismo. É uma desavença histérica que não instiga e se desenvolve corretamente no formato de comédia nonsense.

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