O entusiasmado Bingo – O rei das manhãs

Antes mesmo que os primeiros créditos surjam na tela da projeção de Bingo – O rei das manhãs (2017), um ajuste de trekking é requerido em letras VCR. Enquanto o ruído é reparado, o espectador já se coloca em um tempo onde o vídeo dominava um modus operandi hoje nas mãos do digital. Mais do que a estética VHS, os anos 80 como um todo têm papel crucial ao longo do filme. Por isso, a direção de arte e de fotografia se dedicam em um retrato nostálgico da televisão e seus bastidores naquele período. Junto do ritmo e da interpretação de Vladimir Brichta, como o personagem-título, este é um dos principais atributos do empolgado longa de estreia de Daniel Rezende como diretor.
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Horror e redenção em Até o último homem

Andrew Garfield é o "semi-deus" Desmond.
O primeiro plano de Até o último homem (Hacksaw Ridge, 2016) enquadra uma série de corpos fardados e ensanguentados sobre o chão poeirento de um campo de batalha. Os próximos quadros trazem explosões que lançam soldados pelos ares, corpos vivos sendo incinerados e Desmond (Andrew Garfield), o protagonista, sendo carregado em uma maca pelo ambiente esfumaçado. Toda a sequência acontece em slow motion, recurso que o diretor Mel Gibson usa sem economia, enquanto uma voz em off traz um discurso religioso sobre o poder da fé em Deus e como ele dá força aos mais fracos. Este momento introdutório é necessário, pois reune as camadas principais do novo trabalho de Gibson no cinema: o cristianismo enquanto formador de caráter, a violência impiedosa e redentora, e a construção de um herói cujo sacrifício é tão cego quanto complacente.
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Tiradentes 2017 | Os destaques da Mostra Panorama

Ao longo da vigésima Mostra de Cinema de Tiradentes, dezesseis curtas de propostas distintas foram exibidos durante a Mostra Panorama. Neste texto, reuni comentários de seis destes curtas que de alguma forma se destacaram dentro do recorte. A começar pelo carioca As Ondas, dos diretores Juliano Gomes e Léo Bittencourt. De caráter experimental, o filme de cara sugere ao espectador com histórico de epilepsia que se retire da sala. Há motivos de sobra para isso. Utilizando, basicamente, de um refletor estroboscópico que lança flashes de luz branca sobre as ondas do mar e uma apresentação de diferentes manequins em uma fábrica, o curta lança mão de uma montagem frenética e de efeitos sonoros que beiram a violência. A intenção de agredir o público com seus excessos é intencional. O horror aqui não vem de uma atmosfera, enredo ou temática. Ele surge a partir de formas e sons que, da maneira hiperativa como são apresentados, atacam o espectador com sensações de puro desconforto e agonia.

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Tiradentes 2017 | Os últimos trabalhos da Mostra Foco

Citações de um texto de Luc Moullet que relaciona cineastas e seus signos – aqui especificamente o de Peixes -, além de uma declamação de Norma Bengell, funcionam como uma introdução do curta-metragem Minha única Terra é na Lua. Em seu filme, o diretor e roteirista Sergio Silva responde a um questionário, escrito por ele, enquanto Gilda Nomacce o interpreta, uma vez ou outra substituída pelo próprio ao longo das trinta e seis perguntas. Mas o Sérgio de Gilda não parece ser o mesmo original. Há ali presente uma sensação de duplicidade, não havendo certezas de que tudo é autorretrato na mescla de documentário e encenação. Quem faz as perguntas é Gabriel, num vaivém que parece anteceder algum tipo de relacionamento. Há lágrimas, mas há também sorrisos. São verdades, mas também invenções. É nítida a intimidade que exala neste jogo de espelhos que conecta um sentimento muito pessoal ao cinema, aos astros e à própria identidade. O formato simples em plano e contraplano busca fazer com que o espectador se atenha ao texto e às atuações, nesse inventivo estudo de personagem escrito pelo protagonista.

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Tiradentes 2017 | Os definitivos espaços nos curtas da segunda série da Mostra Foco

A segunda noite de curtas da Mostra Foco, aqui em Tiradentes, trouxe trabalhos onde os espaços desempenharam papel fundamental. No pernambucano Nunca é noite no Mapa, o diretor Ernesto de Carvalho utiliza a ferramenta do Google Maps para criar sua narrativa. O filme mescla documentário dentro de um processo ensaístico enquanto o espectador observa os espaços através do Street View. A sacada do título está justamente na não diferenciação que o mapa faz de tudo que observa. O que ele faz é registrar. Se por acaso flagrou o próprio diretor do curta com uma câmera, flagra também a revista de jovens na periferia por policiais. O texto, em uma narração propositalmente pouco emotiva, traz a frieza e a distância proporcionada pela ferramenta do Google. Durante seus sete minutos de duração, o curta reflete sobre questões como identidade e desapropriação no meio urbano. A apatia do texto e das imagens surte efeito contrário no espectador, que dificilmente fica impassível ao final da projeção.

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Baronesa – a mulher da periferia e a estreia promissora de uma cineasta

Uma jovem negra, moradora da periferia, requebra seu corpo enquanto o som agressivo de um funk tira dela uma coreografia precisa. A lente da câmera não se interessa pelo balançar da bunda da moça, algo praticamente inevitável. A diretora estreante Juliana Antunes, em um quadro apertado, concentra seu empenho na região entre o quadril e as costelas, registrando um outro movimento. Permitindo definitivamente que a sensualidade esteja presente, a cena introdutória de Baronesa (2016), filme que abriu a Mostra Aurora em Tiradentes neste ano, traz um olhar de certa forma insólito sobre o corpo nesta específica circunstância. Há pelo menos três características ali presentes que são marcantes ao longo da projeção: os planos altamente restritivos, a jovem mulher da periferia e o olhar de uma diretora em estreia.

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Tiradentes 2017 | Os oprimidos na primeira série da Mostra Foco

Nesta última segunda-feira (23), iniciaram as exibições de curtas que compõem a competitiva Mostra Foco. Ao todo, dez curtas serão exibidos em três séries ao longo da semana. Neste primeiro recorte, foi notável a condição de opressão vivida pelos protagonistas dos quatro curtas exibidos. A opressão do trabalho e aquela sofrida pela mulher na sociedade foram temáticas que permearam a sessão.

No paranaense A canção do asfalto, Chen é um jovem imigrante chinês recém-chegado ao país que ajuda seu tio numa lanchonete. No pequeno recorte do seu cotidiano, o diretor Pedro Giongo segue os passos do protagonista por uma Curitiba bastante urbana. Essa movimentação do personagem e os diálogos, em chinês, trazem consigo um claro existencialismo. Especificamente, há uma sensação de perspectiva limitada, não rara em filmes que observam o início da vida adulta, e que aqui se evidencia justamente pelo olhar do estrangeiro. Este sentimento é também provocado por uma razão de aspecto que aperta as ações em um quadro reduzido, o que aumenta ainda mais a certeza de tais limitações. Contudo, por retratar certa juventude, há uma energia inevitável que aparece nas cores fortes dos espaços – decupados com esmero – e na presença do ator, mesmo que sua contenção predomine. Na cena final, onde ele pedala sua bicicleta com pressa pelo asfalto, tal vigor fica mais perceptível. Ainda assim, a restrição provocada pela tela deixa o gosto amargo de que as alternativas possíveis para Chen não vão muito além da lanchonete.

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O personagem Chen em A canção do asfalto

Em Restos, curta baiano dirigido por Renato Gaiarsa, uma paralisação grevista no serviço público de limpeza em Salvador promove o caos urbano. O espectador acompanha o desenrolar da situação pelo viés do gari Souza e também pelas informações lançadas pelos meios de comunicação. Enquanto o noticiário se dobra sobre a desordem provocada pela interrupção do serviço ao longo dos dias, acompanhamos a vida de Souza ao lado do que aparenta ser sua namorada e seu pai enfermo. Há momentos marcantes nos 15 minutos do curta, como a passagem em que catadores recolhem os lixos das ruas, solicitados por moradores do local, e queimam uma montanha de restos na praça da cidade. Esse olhar crítico divide espaço com a sensibilidade no retrato de Souza, cuja invisibilidade social que o próprio trabalho o submete é colocada em cheque. Ao não desempenharem as funções que lhes são impostas, estes “invisíveis” demonstram o seu poder sobre a cidade.

Trabalhando com o experimental ao abordar a questão do machismo e da misoginia praticados pela cultura e pela mídia massiva, a diretora carioca Mariana Barreiros provocou aplausos empolgados do público após a exibição do seu curta Autópsia. Em seus oito minutos, o trabalho reúne imagens de programas televisivos e músicas populares onde a objetificação da mulher é evidente. Além da dinâmica elétrica da montagem e da estética de TV tubo, impressiona a forma como Barreiros reúne provas desse abuso em diferentes segmentos culturais. Novela das oito, Ratinho, talk-shows e programas jornalísticos dividem espaço com músicas que vão da bossa nova ao funk, mostrando como a questão é compartilhada por todas essas esferas midiáticas. Ainda dividindo espaço com imagens captadas da performance de uma atriz, o curta de fato parece inspecionar como se dá a disseminação desta lamentável condição.

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Lira Ribas em cena de Estado Itinerante

 

O último trabalho exibido na noite, e particularmente o que mais impressionou, foi o mineiro Estado Itinerante da diretora Ana Carolina Soares. Nele, a cobradora de ônibus Vivi sofre violência doméstica do marido e evita voltar para casa depois de sua longa jornada de trabalho. O curta, contudo, não explora essa condição de maneira explícita: não há cenas que mostram essa violência, não há marcas visíveis de que ela acontece, sequer somos apresentados ao marido da protagonista. Os possíveis hematomas se escondem por debaixo das blusas de manga longa, o portão de sua casa jamais é penetrado pela câmera. Há no filme grande inteligência ao se pensar o extra campo e como ele é definitivo no desenrolar deste retrato. Ana Carolina tem domínio completo sobre a direção em cenas que buscam desde um aflitivo suspense nos momentos finais até a cena, belíssima, em que Vivi protagoniza uma dança catártica ao som de Guns n’ Roses. Ao unir personagens mulheres e mostrar a recusa da protagonista em aceitar aquela condição, a narrativa ganha teor feminista. A presença de Lira Ribas na tela é fundamental neste curta onde a montagem é tão precisa quanto a direção.