Verão 1993: Tatos inocentes

É verão em Barcelona. Enquanto fogos explodem colorindo o céu e crianças correm ao ar livre, Frida (Laia Artigas), uma garotinha de seis anos, entra em seu apartamento e observa as caixas e pacotes ao redor. Ela está de mudança. As mulheres da residência guardam os últimos objetos enquanto o tio cantarola alguma música catalã ao violão. A menina pouco interage, mas seus olhos expressam uma aflição confusa. É para esse olhar que a diretora Carla Simón recorre para construir um retrato íntimo, delicado e inteligente de uma infância que precisa superar um acontecimento traumático, ainda que não consiga bem compreendê-lo.

Vencedor do grande prêmio da Mostra Geração do Festival de Berlim e representante da Espanha para o Oscar, este Verão 1993 (Verano 1993, 2017) é o primeiro longa-metragem de Simón. Na trama, a pequena protagonista acabou de perder os pais e o jovem casal de tios e sua prima mais nova a recebem como filha em uma casa de campo no interior da Espanha. Mais que acostumar-se e integrar-se à nova família, Frida ainda precisa encarar um estilo de vida bucólico que em nada se relaciona com aquele que tinha em Barcelona, quando junto dos pais e dos avós. Neste rito de passagem, a menina se esforça para provar-se e ter a atenção da nova família, mas é evidente que também se mostre perdida e magoada em sua nova condição.
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Militância a 120 Batimentos Por Minuto

Criada em 1989 nos moldes da original nova iorquina, a associação Act Up Paris reúne desde então a comunidade homossexual parisiense em torno da luta contra a AIDS. É uma organização autônoma que realiza atos militantes na capital francesa com objetivo de dar visibilidade às suas causas. Um dos seus membros, o cineasta Robin Campillo recria parte desta luta no início dos anos 90, quando o descaso de autoridades tornava a ação ainda mais urgente. Premiado como Melhor Filme pela Fipresci este ano em Cannes, seu 120 Batimentos Por Minuto (120 BPM, 2017) faz um retrato ficcional da Act Up e daquele conturbado período.
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Senhora Fang e a trivialidade da morte

Em seus três planos iniciais, Senhora Fang (Fang Xiu Ying, 2017) apresenta sua personagem título em momentos e espaços distintos, mas o olhar vazio e o corpo que expressa uma inércia quase total são constantes. Daí, o choque: o plano que segue é um close em seu rosto, agora cadavérico. A boca entreaberta e as bochechas esquálidas saltam dentes e ossos e sua face revela nada que não seja a aproximação da morte por uma doença que ainda não é revelada ao espectador. Tal plano se repete em momentos diferentes nos dilacerantes oitenta e seis minutos do documentário que, em uma crueza radical, acompanha o definhar de uma vida ordinária no sul da China.
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O dois em um de As boas maneiras

É automático que se associe o nome da cineasta Juliana Rojas ao cinema fantástico. Em seus trabalhos anteriores, a diretora fez uso de elementos do suspense e do terror para contar suas histórias, em geral com algum comentário pertinente de ordem social. No longa Trabalhar Cansa (2011), parceria com Marco Dutra, o mistério e o drama se unem em um minimercado onde o desemprego, a relação patrão-empregado e fenômenos estranhos conduzem a narrativa. Já em Sinfonia da Necrópole (2014), certo humor surge em um musical que se passa em um cemitério e oferece um discurso claro sobre a especulação imobiliária.

Neste As boas maneiras (2017), Rojas volta a trabalhar com seu parceiro habitual e flerta com o universo dos lobisomens. Na trama, Clara, uma empregada doméstica da periferia de São Paulo, é contratada para acompanhar e auxiliar Ana, mãe solteira de classe alta, em sua gravidez que se mostra arriscada com o passar do tempo. Aos poucos, a necessidade incontrolável de Ana por carne vermelha e seu sonambulismo trazem à tona estranhos e bizarros acontecimentos que antecipam a chegada de uma perigosa criatura.
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Por trás da linha de escudos: o cinema de riscos

Em 2009, ao lançar o documentário Pacific (2009), o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso debateu a forma banal como hoje se dá a captação da imagem e lançou olhar sobre a classe média. Para isso, utilizou o registro dos passageiros de um cruzeiro e a forma como desfrutavam dos excessos ali oferecidos. Isso permitiu escancarar um espírito que, naquele contexto, era levado à máxima potência. Neste seu mais recente trabalho, intitulado Por trás da linha de escudos (2017), Pedroso volta a lançar seu interesse sobre um grupo antagônico às suas posições. Assumidamente de esquerda, já tendo militado por causas como a da Ocupação Estelita, no Recife, o cineasta aqui busca abordar o cotidiano dos militares dentro do Batalhão de choque da PM pernambucana. Entre operações, treinamentos, entrevistas e atividades de descontração, a equipe aos poucos se infiltra em um terreno de oposição com intuito de apresentar ao público uma realidade pouco vista no cinema.
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Café com canela: afetos e banalidades

O registro em VHS de um aniversário de criança divide espaço com os créditos iniciais de Café com canela (2017), longa de estreia dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio. A docilidade das relações ali apresentadas comunga com o registro caloroso de uma câmera corpo em movimentação constante. Mais tarde, o que era registro de vídeo e em formato 4×3, dá espaço para o digital em 16:9. São dois tempos ali apresentados com uma amplitude de pelo menos dez anos entre um e outro. Tais momentos antecipam dois aspectos do longa que bipolarizam a sua experiência: se por um lado os excessos de experimentações intencionais gritam entusiasmo e inevitáveis desordens, por outro seu ímpeto por uma narrativa de cordialidades é de notável honestidade.
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O entusiasmado Bingo – O rei das manhãs

Antes mesmo que os primeiros créditos surjam na tela da projeção de Bingo – O rei das manhãs (2017), um ajuste de trekking é requerido em letras VCR. Enquanto o ruído é reparado, o espectador já se coloca em um tempo onde o vídeo dominava um modus operandi hoje nas mãos do digital. Mais do que a estética VHS, os anos 80 como um todo têm papel crucial ao longo do filme. Por isso, a direção de arte e de fotografia se dedicam em um retrato nostálgico da televisão e seus bastidores naquele período. Junto do ritmo e da interpretação de Vladimir Brichta, como o personagem-título, este é um dos principais atributos do empolgado longa de estreia de Daniel Rezende como diretor.
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