Se a Rua Beale Falasse, um filme de detenções

Além de um nome de destaque no atual e necessário movimento de representatividade, o total domínio de cena e a notável direção de atores são marcas inegáveis na ainda breve e louvável cinematografia de Barry Jenkins. Consagrado no Oscar de 2017 com os prêmios de melhor filme e roteiro adaptado pelo potente e sensível Moonlight – Sob a Luz do Luar (2017), o californiano volta a provar seu olhar meticuloso para o cinema de gênero, o romance, em um contexto onde a questão racial tem papel definitivo.

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Festival do Rio 2018: As dificuldades de ser em Tinta Bruta

Em Tinta Bruta (2018), novo filme de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, o individualismo e a hostilidade nos espaços urbanos são fatores que produzem diretamente o comportamento e humor de seu protagonista, Pedro (Shico Menegat). Após responder com violência à constante abordagem preconceituosa que sofria – e ainda sofre -, ele está em um processo de julgamento que pode levá-lo à prisão. De natureza reclusa e agora expulso da faculdade, Pedro se vê cada vez mais incapaz de qualquer convívio social, se mostrando sempre arredio frente a toda possibilidade de contato com estranhos.

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Festival do Rio 2018: O intenso Caos e a ascensão de Nadine Labaki

Nos seus trabalhos anteriores, o açucarado Caramelo (2007) e o ingênuo E agora, para onde vamos? (2011) a diretora e atriz libanesa Nadine Labaki toca em questões existenciais e sociais de maneira branda, através de uma direção bastante convencional. Reconhecida por grandes festivais, como o de Cannes, onde já levou prêmio do júri ecumênico, e San Sebastián, premiada pelo público, Labaki ganha notoriedade como representante de um certo world cinema. Seu mais recente trabalho, contudo, atinge um novo nível de apreço em tal circuito ao ser ovacionado em Cannes e conquistado o Prêmio do Júri, primeira vez entregue a uma cineasta árabe.

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Mulheres no cinema: Kathryn Bigelow

Trinta anos separam o seu curta-metragem de formatura na Universidade da Columbia até o Oscar de Melhor Direção, o primeiro a ser entregue a uma mulher na história da premiação. Neste meio tempo, a cineasta Kathryn Bigelow dirigiu sete longa-metragens que foram do horror vampiresco ao drama de época. Na maior parte deles, uma predileção por certa violência e convenções do gênero de ação é notória. Há, porém, espaço para algumas surpresas, caso da personagem de Jamie Lee Curtis em Jogo Perverso (Blue Steel,1989), protagonista feminina em um nicho dominado por machões.
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Verão 1993: Tatos inocentes

É verão em Barcelona. Enquanto fogos explodem colorindo o céu e crianças correm ao ar livre, Frida (Laia Artigas), uma garotinha de seis anos, entra em seu apartamento e observa as caixas e pacotes ao redor. Ela está de mudança. As mulheres da residência guardam os últimos objetos enquanto o tio cantarola alguma música catalã ao violão. A menina pouco interage, mas seus olhos expressam uma aflição confusa. É para esse olhar que a diretora Carla Simón recorre para construir um retrato íntimo, delicado e inteligente de uma infância que precisa superar um acontecimento traumático, ainda que não consiga bem compreendê-lo.

Vencedor do grande prêmio da Mostra Geração do Festival de Berlim e representante da Espanha para o Oscar, este Verão 1993 (Verano 1993, 2017) é o primeiro longa-metragem de Simón. Na trama, a pequena protagonista acabou de perder os pais e o jovem casal de tios e sua prima mais nova a recebem como filha em uma casa de campo no interior da Espanha. Mais que acostumar-se e integrar-se à nova família, Frida ainda precisa encarar um estilo de vida bucólico que em nada se relaciona com aquele que tinha em Barcelona, quando junto dos pais e dos avós. Neste rito de passagem, a menina se esforça para provar-se e ter a atenção da nova família, mas é evidente que também se mostre perdida e magoada em sua nova condição.
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Militância a 120 Batimentos Por Minuto

Criada em 1989 nos moldes da original nova iorquina, a associação Act Up Paris reúne desde então a comunidade homossexual parisiense em torno da luta contra a AIDS. É uma organização autônoma que realiza atos militantes na capital francesa com objetivo de dar visibilidade às suas causas. Um dos seus membros, o cineasta Robin Campillo recria parte desta luta no início dos anos 90, quando o descaso de autoridades tornava a ação ainda mais urgente. Premiado como Melhor Filme pela Fipresci este ano em Cannes, seu 120 Batimentos Por Minuto (120 BPM, 2017) faz um retrato ficcional da Act Up e daquele conturbado período.
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Senhora Fang e a trivialidade da morte

Em seus três planos iniciais, Senhora Fang (Fang Xiu Ying, 2017) apresenta sua personagem título em momentos e espaços distintos, mas o olhar vazio e o corpo que expressa uma inércia quase total são constantes. Daí, o choque: o plano que segue é um close em seu rosto, agora cadavérico. A boca entreaberta e as bochechas esquálidas saltam dentes e ossos e sua face revela nada que não seja a aproximação da morte por uma doença que ainda não é revelada ao espectador. Tal plano se repete em momentos diferentes nos dilacerantes oitenta e seis minutos do documentário que, em uma crueza radical, acompanha o definhar de uma vida ordinária no sul da China.
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