Por trás da linha de escudos: o cinema de riscos

Em 2009, ao lançar o documentário Pacific (2009), o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso debateu a forma banal como hoje se dá a captação da imagem e lançou olhar sobre a classe média. Para isso, utilizou o registro dos passageiros de um cruzeiro e a forma como desfrutavam dos excessos ali oferecidos. Isso permitiu escancarar um espírito que, naquele contexto, era levado à máxima potência. Neste seu mais recente trabalho, intitulado Por trás da linha de escudos (2017), Pedroso volta a lançar seu interesse sobre um grupo antagônico às suas posições. Assumidamente de esquerda, já tendo militado por causas como a da Ocupação Estelita, no Recife, o cineasta aqui busca abordar o cotidiano dos militares dentro do Batalhão de choque da PM pernambucana. Entre operações, treinamentos, entrevistas e atividades de descontração, a equipe aos poucos se infiltra em um terreno de oposição com intuito de apresentar ao público uma realidade pouco vista no cinema.
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Café com canela: afetos e banalidades

O registro em VHS de um aniversário de criança divide espaço com os créditos iniciais de Café com canela (2017), longa de estreia dos diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio. A docilidade das relações ali apresentadas comunga com o registro caloroso de uma câmera corpo em movimentação constante. Mais tarde, o que era registro de vídeo e em formato 4×3, dá espaço para o digital em 16:9. São dois tempos ali apresentados com uma amplitude de pelo menos dez anos entre um e outro. Tais momentos antecipam dois aspectos do longa que bipolarizam a sua experiência: se por um lado os excessos de experimentações intencionais gritam entusiasmo e inevitáveis desordens, por outro seu ímpeto por uma narrativa de cordialidades é de notável honestidade.
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O entusiasmado Bingo – O rei das manhãs

Antes mesmo que os primeiros créditos surjam na tela da projeção de Bingo – O rei das manhãs (2017), um ajuste de trekking é requerido em letras VCR. Enquanto o ruído é reparado, o espectador já se coloca em um tempo onde o vídeo dominava um modus operandi hoje nas mãos do digital. Mais do que a estética VHS, os anos 80 como um todo têm papel crucial ao longo do filme. Por isso, a direção de arte e de fotografia se dedicam em um retrato nostálgico da televisão e seus bastidores naquele período. Junto do ritmo e da interpretação de Vladimir Brichta, como o personagem-título, este é um dos principais atributos do empolgado longa de estreia de Daniel Rezende como diretor.
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Horror e redenção em Até o último homem

Andrew Garfield é o "semi-deus" Desmond.
O primeiro plano de Até o último homem (Hacksaw Ridge, 2016) enquadra uma série de corpos fardados e ensanguentados sobre o chão poeirento de um campo de batalha. Os próximos quadros trazem explosões que lançam soldados pelos ares, corpos vivos sendo incinerados e Desmond (Andrew Garfield), o protagonista, sendo carregado em uma maca pelo ambiente esfumaçado. Toda a sequência acontece em slow motion, recurso que o diretor Mel Gibson usa sem economia, enquanto uma voz em off traz um discurso religioso sobre o poder da fé em Deus e como ele dá força aos mais fracos. Este momento introdutório é necessário, pois reune as camadas principais do novo trabalho de Gibson no cinema: o cristianismo enquanto formador de caráter, a violência impiedosa e redentora, e a construção de um herói cujo sacrifício é tão cego quanto complacente.
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Tiradentes 2017 | Os destaques da Mostra Panorama

Ao longo da vigésima Mostra de Cinema de Tiradentes, dezesseis curtas de propostas distintas foram exibidos durante a Mostra Panorama. Neste texto, reuni comentários de seis destes curtas que de alguma forma se destacaram dentro do recorte. A começar pelo carioca As Ondas, dos diretores Juliano Gomes e Léo Bittencourt. De caráter experimental, o filme de cara sugere ao espectador com histórico de epilepsia que se retire da sala. Há motivos de sobra para isso. Utilizando, basicamente, de um refletor estroboscópico que lança flashes de luz branca sobre as ondas do mar e uma apresentação de diferentes manequins em uma fábrica, o curta lança mão de uma montagem frenética e de efeitos sonoros que beiram a violência. A intenção de agredir o público com seus excessos é intencional. O horror aqui não vem de uma atmosfera, enredo ou temática. Ele surge a partir de formas e sons que, da maneira hiperativa como são apresentados, atacam o espectador com sensações de puro desconforto e agonia.

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Tiradentes 2017 | Os últimos trabalhos da Mostra Foco

Citações de um texto de Luc Moullet que relaciona cineastas e seus signos – aqui especificamente o de Peixes -, além de uma declamação de Norma Bengell, funcionam como uma introdução do curta-metragem Minha única Terra é na Lua. Em seu filme, o diretor e roteirista Sergio Silva responde a um questionário, escrito por ele, enquanto Gilda Nomacce o interpreta, uma vez ou outra substituída pelo próprio ao longo das trinta e seis perguntas. Mas o Sérgio de Gilda não parece ser o mesmo original. Há ali presente uma sensação de duplicidade, não havendo certezas de que tudo é autorretrato na mescla de documentário e encenação. Quem faz as perguntas é Gabriel, num vaivém que parece anteceder algum tipo de relacionamento. Há lágrimas, mas há também sorrisos. São verdades, mas também invenções. É nítida a intimidade que exala neste jogo de espelhos que conecta um sentimento muito pessoal ao cinema, aos astros e à própria identidade. O formato simples em plano e contraplano busca fazer com que o espectador se atenha ao texto e às atuações, nesse inventivo estudo de personagem escrito pelo protagonista.

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Tiradentes 2017 | Os definitivos espaços nos curtas da segunda série da Mostra Foco

A segunda noite de curtas da Mostra Foco, aqui em Tiradentes, trouxe trabalhos onde os espaços desempenharam papel fundamental. No pernambucano Nunca é noite no Mapa, o diretor Ernesto de Carvalho utiliza a ferramenta do Google Maps para criar sua narrativa. O filme mescla documentário dentro de um processo ensaístico enquanto o espectador observa os espaços através do Street View. A sacada do título está justamente na não diferenciação que o mapa faz de tudo que observa. O que ele faz é registrar. Se por acaso flagrou o próprio diretor do curta com uma câmera, flagra também a revista de jovens na periferia por policiais. O texto, em uma narração propositalmente pouco emotiva, traz a frieza e a distância proporcionada pela ferramenta do Google. Durante seus sete minutos de duração, o curta reflete sobre questões como identidade e desapropriação no meio urbano. A apatia do texto e das imagens surte efeito contrário no espectador, que dificilmente fica impassível ao final da projeção.

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