Música Para Quando as Luzes se Apagam: afetos e delírios

O cinema sociopolítico contemporâneo, ou melhor, a voga da representação de grupos marginalizados sempre corre o perigo de se limitar à simples afirmação “nós existimos”. Não que o desvelar de identidades preferivelmente ocultas pelos projetos conservadores não seja louvável, mas todos os debates precisam avançar para além da superfície. Em tempos de homens trans na novela das nove, a pura denúncia no cinema se demonstra insuficiente, já se exauriram os refrões manjados aos quais a esquerda brasileira se mantém ferrenhamente adepta – vide os incontáveis brados de “fora, Temer” ao longo do 50º Festival de Brasília. Eis Emelyn (Emelyn Fischer), uma garota do interior do Rio Grande do Sul em processo de transição cuja identidade de gênero já não mais choca, vai além da afirmação de existência de indivíduos trans diante de um mundo adverso. Num país como o Brasil, é um tema sensível e grave, que deve ser tratado com sofisticação, dada a incapacidade dos absolutismos de compreender tamanha complexidade. Questionada por uma diretora de cinema (Júlia Lemmertz) sobre qual nome daria a um suposto personagem, Emelyn afirma, em tom quase inocente: eu gosto de Bernardo. Adaptando, ou reconfigurando a premissa de seu romance homônimo, Ismael Caneppele estreia como realizador com Música Para Quando as Luzes se Apagam (2017), uma coleção de afetos e delírios que se propõe a constituir uma meditação sobre a profundidade das condições LGBT.
Continue lendo “Música Para Quando as Luzes se Apagam: afetos e delírios”

Ao Cair da Noite: o declínio do homem público

Após o “horror familiar” que foi Krisha (2015), é perfeitamente lógico que o diretor Trey Edward Shults estenda sua investigação ao terror confesso, apropriando-se em Ao Cair da Noite (It Comes At Night, 2017) de todo o glossário do gênero para discorrer sobre uma temática comum ao longa anterior, extrapolada aqui ao ser posta ante uma alegoria pós-apocalíptica. Se em Krisha se trata da instituição familiar pelo olhar do inadequado, em sua incapacidade de assimilação a uma unidade baseada não só no laço afetivo/sanguíneo, mas também na avaliação concordante com códigos morais, Ao Cair da Noite procura fabular sobre as consequências da defesa ferrenha deste modelo paternalista, neste caso literal diante de um espaço público hostil, materializado através de uma epidemia letal cujos detalhes pouco importam à narrativa, exceto pela necessidade de eliminar os infectados antes que algo pior aconteça.
Continue lendo “Ao Cair da Noite: o declínio do homem público”

Elon Não Acredita na Morte: questão de questões

Elon (Rômulo Braga) se dirige ao local de trabalho de sua esposa, Madalena (Clara Choveaux), uma caótica fábrica prestes a apagar suas luzes ao fim do expediente. Ela não está lá, apesar dele afirmar que combinou de buscá-la. Elon Não Acredita na Morte (2016), primeiro longa-metragem dirigido por Ricardo Alves Júnior, parte desta base simples, já edificada pelo curta Tremor (2013), e compõe uma experiência cinematográfica labiríntica, em que a cada esquina/corte diversas ramificações se materializam diante do espectador. Aos dois Elons (no curta, interpretado por Elon Rabin) somos apresentados de costas, evidenciando o cabelo trançado de um, uma mecha loira peculiar em outro. Homens que à primeira vista pelo senso comum podem ser entendidos como maltrapilhos. Em Tremor, Madalena já está perdida há três semanas, enquanto aqui acompanhamos Elon desde a primeira constatação do sumiço da amada. Ambas as obras, porém, terminam no mesmo lugar. A expansão sobre o filme original não se pauta necessariamente em tornar a trama mais densa, mas sim em habitar a projeção com ainda mais incertezas e barreiras.
Continue lendo “Elon Não Acredita na Morte: questão de questões”

Rifle: alvo em movimento

Na articulação cinematográfica há certas regras de etiqueta que se assumem sem precisar ser ditas, normas assimiladas a um glossário de conhecimentos prévios necessários à execução da tarefa de realizar um filme, passíveis a ser seguidas ou subvertidas. Sabe-se, por exemplo, que a cartela com o título da obra a antecede. Se, porventura, um trecho do filme ocorrer antes ao título, tal caracteriza-se como um prólogo, assim como na literatura, em que pode-se prenunciar o teor do discurso a se desenvolver, evidenciando elementos-chave à sua compreensão. No cinema, o posicionar do título sucedendo a um prólogo coloca sua retórica em xeque, podendo-se potencializar através do contraste com a cena o seu sentido transmitido pelo verbo. O prólogo de Rifle (2016), segundo longa-metragem de Davi Pretto, sintetiza em ações aparentemente simples as angústias que vêm a permear seus mecanismos. Somos introduzidos ao protagonista, Dione (Dione Ávila de Oliveira), enquanto apaga a faca mensagens gravadas em árvores. Em seguida, em seu caminhar moroso (um carro passa ao fundo, estabelecendo a proximidade da rodovia), se depara com um carro detonado, já parte da paisagem de um pequeno bosque. Cut to black. Título do filme. O opor da imagem de um automóvel à palavra “rifle” como ponto de corte inaugura um questionamento que lentamente se desenvolve através da projeção, em que se essencializa a figura do carro como alegoria ao progresso entre aspas, à intromissão do meio urbano nos espaços rurais.

Continue lendo “Rifle: alvo em movimento”

Stay woke: sobre Corra!

Em posfácio à edição mais recente de seu Alegorias do subdesenvolvimento, Ismail Xavier retrospecta as diversas iterações do alegórico ao longo da tradição histórica. Evocando Benjamin ao diagnosticar sua noção moderna, conclui que:

O mundo contemporâneo da mercadoria é de tal natureza em sua força de dissociação, alienação, que a sensibilidade alegórica tem aí um papel revolucionário: encara a crise mascarada pelo otimismo burguês do processo. […] A alegoria moderna monta suas coleções de imagens e leva até o fim a dissociação, o não orgânico, numa imitação perversa, satânica, do estado de coisas, visando exorcizá-lo.”

O cinema fantástico oriundo de estúdios estadunidenses é tido, normalmente, como representativo do citado otimismo burguês, embora, volta e meia, realizadores consigam empurrar, através de frestas, ideias que desafiam o status quo alimentado pela própria máquina da qual participam – Paul Verhoeven e John Carpenter que o digam.  Desta vez, o indivíduo em questão é Jordan Peele, comediante que estreia como roteirista e diretor de cinema com Corra! (Get Out, 2017), alegoria propiciada pelo Zeitgeist em que se resgatam feridas que o senso comum – ou, a mentalidade branca – procura ocultar.
Continue lendo “Stay woke: sobre Corra!”

A Chegada ou A Linguagem Universal

Cinema é desde seus primórdios uma máquina de ilusão, uma magia quase literal. No espaço de tempo entre os experimentos de Méliès e o advento dos efeitos visuais digitais, uma linguagem fundamenta-se, uma ferramenta de comunicação em massa cuja morte se anuncia, paradoxalmente, desde seu nascimento. E por que não morre? Podemos crer que a capacidade de compreensão do mecanismo cinematográfico do ser humano, em questão de generalidade, esteja em sua superfície. Não por ímpeto próprio, mas por forças que trabalham contra esta noção de clareza, em temor à transcendência. Se há o cinema de excelência que utiliza-se de seus fundamentos auto-estabelecidos ele, infelizmente, não atinge a massa. Nessa contradição eterna a sétima arte sobrevive pelo ritual da sala escura. Eis A Chegada (Arrival, 2016), exemplar de ambos os extremos desta oposição.

Continue lendo “A Chegada ou A Linguagem Universal”

O Silêncio do Céu e os brados da terra

Uma rocha, colocada sobre uma escrivaninha, assombra insidiosamente o lar de Mario e Diana em um subúrbio uruguaio, lembrança constante do trauma silenciosamente compartilhado que inaugura a projeção de O Silêncio do Céu (Era el Cielo, 2016). Diana, interpretada por Carolina Dieckmann, é estuprada por dois homens dentro de sua própria casa. O chiado da água fervente os alarma e eles rapidamente a deixam jogada a esmo. Ela se levanta e liga para Mario (o argentino Leonardo Sbaraglia) pedindo para que busque os filhos na escola, chegando a perguntá-lo se algo teria acontecido com ele, e à mesa de jantar omite seu ataque, agindo como se nada a houvesse afetado. O que ela não sabe e, por alguns minutos, o espectador tampouco, é que Mario presenciou o estupro. A rocha, retirada do quintal, serviria de arma provisória até o marido encontrar uma tesoura, já sem tempo de alcançar os agressores. Deixada, lá permanece. Com desenrolar da trama, adaptada do romance de Sergio Bizzio, a pedra revela-se um dos símbolos-chave que orbitam a relação entre o casal, desestabilizada – ou escancarada – pós-trauma. O Silêncio do Céu é um filme de e sobre imobilidade. Assisti-lo é observar natureza morta.

Continue lendo “O Silêncio do Céu e os brados da terra”