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O inimigo invisível

Nos últimos anos, a Europa passou por momentos economicamente delicados. Portugal, por exemplo, teve uma alta taxa de desemprego e assistiu uma geração de jovens prestes a entrar no mercado de trabalho, perder a fé de viver no país. Por mais que ainda exista reflexos de dificuldade econômica na Zona do Euro, é certo que as nações afetadas estão reagindo e o momento atual não é tão caótico como em anos anteriores, por mais que ainda haja complicações sociais devido a um período confuso. Colo (2017)  faz parte desse contexto e se dedica a radiografar tal fase em Portugal a partir de uma família pertencente à classe média lisboeta que, em razão aos obstáculos originados durante a crise do capital, estaciona em um furacão.

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A União é autogestionada

Após uma longa sessão de três horas de A Fábrica de Nada (2017), é importante ficar atento aos créditos. Ali, descobre-se que a narrativa é baseada em uma história real de trabalhadores que passaram a gerir de forma autogestionada uma fábrica de elevadores por mais de quarenta anos. A informação é importante porque esclarece o contexto do que fora assistido, especialmente para quem não é português e tem mais probabilidades de desconhecer esse dado previamente. Pois, em princípio, pensa-se em um filme que traça um panorama de Portugal durante a crise enfrentada no início do século XXI. Entretanto, A Fábrica de Nada lida diretamente com uma forma camaleônica do capitalismo que, quando parece ruir, retorna mais forte, assim como também lida com a resistência do proletariado diante do massacre do capital.

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Metralhadora giratória

Desde os créditos iniciais, Diamantino (2018) já escancara a chave debochada com que irá trabalhar ao longo da narrativa: “Toda a história, todos os nomes, personagens e acontecimentos retratados neste filme são fictícios, nenhuma identificação com pessoas reais (vivas ou mortas), lugares, produtos, procedimentos genéticos ou cachorrinhos gigantes é intencional ou deve ser inferida. Nenhum animal foi maltratado durante a produção desse filme.”. Bem, o que seriam os cachorrinhos gigantes citados? Logo fica claro que os tais animais de tamanho desproporcional são uma imagem de conforto para o craque do futebol Diamantino. Um sujeito que é tão bom com a bola nos pés como aparvalhado em qualquer situação social. A personalidade do jogador lembra a de Garrincha e a falta de discernimento do mundo à sua volta. Garrincha era tão obtuso em qualquer situação fora do campo de jogo que tinha dificuldades até de entender o seu tamanho como craque de bola. O poeta Carlos Drummond de Andrade destacou as dificuldades do jogador em crônica ao jornal do Brasil dois dias após a morte do eterno camisa sete do Botafogo: “Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.”

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O medo da dor

Durante a segunda guerra mundial, Jojo, um menino de dez anos se define como nazista convicto e espera cumprir com seus treinamentos no exército para auxiliar a vitória alemã no combate armado. Tamanho é o fanatismo que seu amigo imaginário é o próprio Adolf Hitler, com quem ele conversa acerca da grandiosidade dos arianos perante outros povos, dentre outros assuntos relacionados ao nazismo. Essa premissa pode parecer absurda, mas tudo acontece de forma tão suave em Jojo Rabbit (2019) que esse disparate torna- se apenas um delírio de uma criança impressionável, mas de bom coração.

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Vestígios de uma história (não) contada

Entende-se por chanchadas um conjunto de filmes humorísticos de enorme sucesso no Brasil, em que números musicais eram bastante comuns durante a narrativa. Existem algumas catalogações rasas e generalistas dos filmes brasileiros que consideram que o gênero existiu entre as décadas de 1920 e de 1960 1AVELLAR, José Carlos. A teoria da relatividade. In: NOVAES, Adauto (Org.). Anos 70: ainda sob a tempestade. Rio de Janeiro: Editora SENAC, 2005. p. 337-373.. A partir daí, tais filmes teriam perdido a expressão gradativamente, o diálogo com o público minguado e a produção teria sido interrompida.

O importante artigo Este é meu, é seu, é nosso – Introdução à paródia no cinema brasileiro 2http://arteyfato.blogspot.com/2013/04/este-e-meu-e-seu-e-nosso-introducao.html, escrito por João Luiz Vieira e publicado na revista Filme Cultura em maio de 1983, inicia com um verbete de dicionário sobre o que seria Chanchada. Importo para este texto: “Peça teatral burlesca, que visa apenas o humorismo barato”. Logo após essa frase, o autor acrescenta: “O primeiro registro sobre filmes ‘chanchadas’ que será indicado aqui é de 1909 como provável início do estilo”.