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Autor: Ivonete Pinto (page 1 of 2)

Banquete é Coutinho

O título deste documentário que abriu a 8ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba prometia. Para o público que convivia com os filmes de Eduardo Coutinho,  acostumado a ver e rever os seus  longas e testemunhar os momentos de virada implementadas pelo diretor quanto à forma dos filme, a expectativa de ver Banquete Coutinho (2019)  só poderia ser muito grande. O nervosismo do diretor Josafá Veloso, em seu filme de estreia, estava plenamente justificado. E seria muito fácil afirmar que o resultado ficou aquém da grandiosidade do homenageado. Mas, ao que parece, a ambição dele nunca foi se igualar ao mestre. Ao contrário, a reverência é somente o resultado de uma consciência do que significa estar diante deste ícone do cinema documental brasileiro, que contou um pedaço da história do país através de filmes como Cabra Marcado para Morrer (1964 – 1984) e Santo Forte (1999), que basicamente criou um modo de entrevista impossível de copiar (muitos tentaram e ainda tentam), e que lá pelas tantas de sua trajetória viu que estava cansado do formato de entrevista conhecido por “cabeças falantes” e se reinventou (Jogo de Cena, 2007) sem deixar de fazer o que mais sabia: ouvir pessoas.

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A China em Curitiba – No Alto da Montanha e Pretérito.Imperfeito

Logo no segundo dia de exibições do 8º Olhar de Cinema de Curitiba dois filmes chineses chamaram a atenção: No Alto da Montanha (Hue Shen, 2018), de Yang Zhang, e Pretérito.Imperfeito (Wan Mei Xian Zai Shi, 2019), de Shengze Zhu. O primeiro como parte da mostra Outros Olhares e o segundo concorrendo aos prémios principais da mostra competitiva.

Estes filmes tornam visível um pensamento curatorial (Eduardo Valente, Aaron Cutler, Antônio Junior e Carla Italiano) que investe no diálogo como conceito. São produções que ilustram uma China contemporânea complexa, que salta de uma pré modernidade para uma pós modernidade mediada por evoluções sobretudo tecnológicas. Elas, as evoluções, fazem parte da rotina das pessoas ordinárias, desimportantes, e que em função da gigantesca população dão acesso exponencial às traquitanas do consumo. Um consumo não só ligado à tecnologia, como toda sorte de produto que provavelmente nem precisaria existir, mas que hoje faz parte da vida dos chineses.
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Desespero em Moscou: Ayka e o capitalismo selvagem

Tratar Ayka (2018) como um estudo sobre mulheres imigrantes na Rússia seria redutor. O filme em questão é isto e ainda mais. Ayka tira o ar mesmo de plateias acostumadas a verem na tela as desgraças da civilização.

O cenário escolhido para mostrar uma mulher que foge da maternidade após dar à luz, sem levar o bebê, é uma Moscou impessoal, onde não há edifícios, praças ou ruas de fácil identificação. A neve é personagem que torna todos os lugares em massa embranquecida e opressora. Tudo oprime a protagonista. Das ordas de usuários do metrô até a própria câmera, que em metáfora gruda no corpo de Ayka, no rosto de Ayka. A câmera que expõe é a mesma que empurra, que sufoca.

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Vermelho Sol e a origem do mal

O filme argentino, Vermelho sol (Rojo, 2018) em coprodução com Brasil, Bélgica, Alemanha e Suiça, tem circulado por festivais brasileiros como a Mostra de São Paulo, Festival do Rio e Janela Internacional de Cinema do Recife. Nos festivais internacionais, foi um dos mais premiados na 66ª edição do San Sebastián Film Festival: ganhou prêmios do júri oficial para melhor direção (Benjamin Naishtat), melhor ator (Dario Grandinetti) e direção de fotografia (o brasileiro Pedro Sotero, de Aquarius). Para uma produção latina, ele representa muito bem a necessidade de que se fale do retrocesso político pelo qual passam alguns países (não só da América Latina, bem entendido). O crescimento da popularidade de partidos com plataformas fascistas em em muitos países, dá ao filme uma urgência temática que, de antemão, o torna relevante.

O diretor Benjamin Naishtat, de 36 anos, não havia nascido quando a Argentina sofreu um golpe militar cuja ditadura durou de 1966 a 1973. Talvez por isto tenha optado no roteiro que ele próprio assina, em contar a história sem narrar fatos diretamente relacionados ao regime militar. O que temos é o nascimento do ovo da serpente, a origem do mal que está entranhada na própria sociedade civil, no caso, a população de uma pequena cidade do interior argentino.  Rojo, a cor vermelha que remete ao cabelo ruivo do personagem forasteiro e que detona os fatos, é também o vermelho que simboliza o comunismo, a ameaça que então justificava a intervenção militar daquele época nem tão distante assim.

Em linhas gerais, sem entregar spoilers, pode-se dizer que Vermelho Sol abre com uma espetacular sequência de diálogos. Verdadeiramente poderosa em seu conteúdo e que de certa forma fragiliza o resto do filme, que nas sequências seguintes não consegue mais impor a força da arrancada inicial.

Nesta abertura, que de fato é um prólogo, um homem, que saberemos depois ser o advogado mais conhecido da cidade, ocupa uma mesa de restaurante cheio e barulhento. Ele é observado por outro homem (mais tarde saberemos ser um forasteiro), que se aproxima e iniciam uma discussão, pois o que ocupa a mesa não está consumindo (alega que espera sua esposa) e o homem que está de pé, argumenta que se ele não está consumindo, não tem o direito de ficar ocupando uma mesa enquanto ele, com fome, não tem mesa disponível. O garçom tenta intervir, mas a aspereza do diálogo faz com que a mesa seja cedida ao que reclama. O que era observado, passa a observar, trocam farpas, e o homem que cedeu o lugar profere um discurso duro, onde diz entre outras coisas que ele é o tipo de sujeito que lhe dá pena, o tipo que não teve educação e que não aceita convenções sociais, que reclama de tudo sempre e vaticina que ele será um eterno infeliz. O discurso é mais cruel do que parece, revelando um contexto de classe, um subtexto que faz emergir o teor político da cena. A estas alturas, todo o barulho do restaurante se apaga e as pessoas estão petrificadas ouvindo o áspero diálogo. Logo o homem sentado sofre um surto, gritando, acusando a todos de nazistas. É tirado do recinto à força e efetivamente o filme começa.

As repercussões desta sequência inicial serão trágicas e a partir dali passamos a conhecer a rotina da cidade. O papel do advogado nas relações familiares e sociais vai desenhando o cenário de um país que vive sob uma ditadura miliar. O aspecto mais importante a destacar é a participação dos cidadãos comuns, os autointitulados “cidadãos de bem”. Gente comum que cuida de suas famílias e dos interesses econômicos como se fosse a dona da verdade e da correção. Engano. Em paralelo, há uma série de desaparecimentos que formam o pano de fundo político. Também há subplots envolvendo a alienação da juventude que nada sabia, ocupava-se somente de seus hormônios. A entrada em cena de um detetive famoso, chegado de Buenos Aires, resultará na guinada em direção a um suspense esperado, já que o prólogo do restaurante anunciou consequências.

O personagem do detetive, vivido por Alfredo Castro, tem uma construção um tanto débil, pois o roteiro optou por um tipo quase cômico em sua alegoria. Ele não está ali para fazer justiça, mas para manter a ordem daquela sociedade. Embora, em princípio, possa representar uma ameaça ao segredo criminal que envolve o advogado, sua função é clara no sentido de ser a peça que faz um governo autoritário funcionar com uma aparência de legalidade. E aparência de legalidade é tudo… A função dramatúrgica deste personagem é fundamental, a objeção acontece justamente pelo tom alegórico que de alguma maneira fica enfraquecida na comparação com a potente sequência inicial. De qualquer forma, é uma obra que respeita o legado de um cineasta combativo como Fernando Solanas. Ostentando o selo de qualidade do cinema argentino, Benjamin Naishtat junta-se ao grupo de nomes de diferentes estilos, como Lucrécia Martel, Pablo Trapero e Juan José Campanella, que não deixam que se esqueça do passado sombrio daquele País. E não só daquele país.

Lady Bird – nascido para ser cult

Se a espectadora ou o espectador cresceu em uma cidade do interior, certamente terá uma afinidade maior com a trama. A euforia da ideia de sair de um pequeno lugar e partir rumo ao enorme e desconhecido é meio intransferível. Mas nem só o público que se viu livre do interior é capaz de se aproximar e, eventualmente, se apaixonar pelo filme de Greta Gerwig. Os adeptos podem ser bem cosmopolitas.

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Era uma vez Brasília não cumpre o que promete

É de se admirar a capacidade de alguns críticos em Brasília em conseguir organizar as ideias em torno de Era uma vez Brasília (2017) e até defender o filme com segurança, apontando para detalhes do enredo. De fato, poucos tiveram essa capacidade, e esta autora não se encontra entre eles.

Ter assistido aos anteriores A Cidade é uma Só? (2011) e, principalmente, Branco sai, Preto Fica (2014), deveria ser condição privilegiada para a compreensão do concorrente nesta 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília. No entanto, foi de pouco auxílio ter conhecimento do universo do diretor Adirley Queirós, pois o que predomina no filme atual é a confusão de tempos cronológicos, numa narrativa incompetente para permitir que a plateia entre no filme. Curiosamente, a produção levou, além dos prêmios técnicos de Fotografia e Som, também o de Melhor Direção. Se considerarmos que é um filme com todos os ingredientes da autoralidade, com evidentes deficiênicas de roteiro, é realmente um prêmio curioso.
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Sara, o preconceito e o poder

“Sou consciente do meu preconceito”, “Eu sou negra, mas se fizer uma palhaçada, eu sou a primeira a criticar o negro. Olha lá aquilo, só preto que faz aquilo”. Estas são algumas das frases de Sara, uma diarista carioca que trabalhava na casa do diretor do filme O quebra-cabeça de Sara (2017), Allan Ribeiro.

O curta, que levou os prêmios da Accirs (Associação de Críticos de Cinema do RS) e do Canal Brasil na 45ª edição do Festival de Gramado, constituiu-se uma pequena pérola entre os concorrentes. Com apenas dez minutos, uma personagem, um cenário e um tema como guia, conseguiu o que muito longa não alcança: fala de preconceito de raça e gênero, expõe as condições precárias da vida de trabalhadores (Sara comenta com alguém no celular que mais uma vez terá que tomar banho de balde devido à falta de água em casa) e isto através de uma linguagem criativa. O filme prova, também, que é possível produzir algo inovador sem orçamentos polpudos.
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