Festival do Rio 2018: Vermelho Sol e a origem do mal

O filme argentino, Vermelho sol (Rojo, 2018) em coprodução com Brasil, Bélgica, Alemanha e Suiça, tem circulado por festivais brasileiros como a Mostra de São Paulo, Festival do Rio e Janela Internacional de Cinema do Recife. Nos festivais internacionais, foi um dos mais premiados na 66ª edição do San Sebastián Film Festival: ganhou prêmios do júri oficial para melhor direção (Benjamin Naishtat), melhor ator (Dario Grandinetti) e direção de fotografia (o brasileiro Pedro Sotero, de Aquarius). Para uma produção latina, ele representa muito bem a necessidade de que se fale do retrocesso político pelo qual passam alguns países (não só da América Latina, bem entendido). O crescimento da popularidade de partidos com plataformas fascistas em em muitos países, dá ao filme uma urgência temática que, de antemão, o torna relevante.

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Lady Bird – nascido para ser cult

Se a espectadora ou o espectador cresceu em uma cidade do interior, certamente terá uma afinidade maior com a trama. A euforia da ideia de sair de um pequeno lugar e partir rumo ao enorme e desconhecido é meio intransferível. Mas nem só o público que se viu livre do interior é capaz de se aproximar e, eventualmente, se apaixonar pelo filme de Greta Gerwig. Os adeptos podem ser bem cosmopolitas.

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Era uma vez Brasília não cumpre o que promete

É de se admirar a capacidade de alguns críticos em Brasília em conseguir organizar as ideias em torno de Era uma vez Brasília (2017) e até defender o filme com segurança, apontando para detalhes do enredo. De fato, poucos tiveram essa capacidade, e esta autora não se encontra entre eles.

Ter assistido aos anteriores A Cidade é uma Só? (2011) e, principalmente, Branco sai, Preto Fica (2014), deveria ser condição privilegiada para a compreensão do concorrente nesta 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília. No entanto, foi de pouco auxílio ter conhecimento do universo do diretor Adirley Queirós, pois o que predomina no filme atual é a confusão de tempos cronológicos, numa narrativa incompetente para permitir que a plateia entre no filme. Curiosamente, a produção levou, além dos prêmios técnicos de Fotografia e Som, também o de Melhor Direção. Se considerarmos que é um filme com todos os ingredientes da autoralidade, com evidentes deficiênicas de roteiro, é realmente um prêmio curioso.
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Sara, o preconceito e o poder

“Sou consciente do meu preconceito”, “Eu sou negra, mas se fizer uma palhaçada, eu sou a primeira a criticar o negro. Olha lá aquilo, só preto que faz aquilo”. Estas são algumas das frases de Sara, uma diarista carioca que trabalhava na casa do diretor do filme O quebra-cabeça de Sara (2017), Allan Ribeiro.

O curta, que levou os prêmios da Accirs (Associação de Críticos de Cinema do RS) e do Canal Brasil na 45ª edição do Festival de Gramado, constituiu-se uma pequena pérola entre os concorrentes. Com apenas dez minutos, uma personagem, um cenário e um tema como guia, conseguiu o que muito longa não alcança: fala de preconceito de raça e gênero, expõe as condições precárias da vida de trabalhadores (Sara comenta com alguém no celular que mais uma vez terá que tomar banho de balde devido à falta de água em casa) e isto através de uma linguagem criativa. O filme prova, também, que é possível produzir algo inovador sem orçamentos polpudos.
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As pequenas surpresas em Quem é Primavera das Neves

A 22ª edição do Festival É Tudo Verdade reflete bem esta tendência do cinema documental de voltar-se às reminiscências pessoais. Títulos como A Lembrança que Eu Gosto de Ter (2017), Perón, Meu Pai e Eu (2017), Eu, Meu Pai e Os Cariocas (2017) rechearam a programação com outros filmes menos umbilicais, mas que, narrados na primeira pessoa, foram buscar na própria família o protagonismo da história, como o brasileiro No Intenso Agora (2017) e o letão-ucraniano Relações Próximas (2016).

Quem é Primavera das Neves (2017), de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, tem como ponto de partida uma curiosidade pessoal: Furtado, um leitor aplicado, daqueles que se interessam em saber quem são os tradutores dos livros que lê, cismou em descobrir quem era aquela mulher de nome peculiar que traduziu autores tão diferentes quanto Flaubert, Nabokov e Lewis Carroll, tendo vertido cerca de 80 livros para o português. A  primeira busca do diretor, naturalmente, se deu nos domínios da internet, onde havia somente um link  sobre ela. O que o deixou mais curioso ainda. Estes primeiros passos são narrados por Furtado num registro ainda bastante pessoal, mas aos poucos uma opção low-profile o vai deixando em segundo plano e Primavera das Neves ganha corpo através da memória de duas melhores amigas e, mais adiante, do ex-marido. São apenas três entrevistados durante o filme todo, demonstrando que não é preciso mais do que isto para revelar um grande personagem.
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