Coberturas Críticas

As vantagens de se permitir em Você e os Seus

Está tudo aí: o personagem diretor de cinema, as bebidas alcoólicas e os infindáveis diálogos, geralmente bem inspirados. Estão também as relações afetivas bagunçadas, um emprego característico de zooms e a fragilidade masculina astutamente exposta. Assim como em outros títulos de sua filmografia, tais elementos estão presentes neste novo trabalho do sul coreano Hong Sang-soo.

Em Você e os Seus (Yourself and yours, 2016), Young-soo descobre em uma conversa com um amigo rumores de que sua namorada, Minjung, saiu para beber com outro homem na noite anterior. Intrigado, o rapaz questiona a namorada, que havia concordado em controlar a ingestão de álcool como regra dentro do relacionamento de ambos. A moça nega tudo e questiona a sua confiança. Eles acabam dando um tempo na relação. O espectador a partir daí é testemunha de uma busca frustrada de Young-soo por Minjung, enquanto ela sai para beber com sujeitos desconhecidos que insistem em afirmar que a conhecem.

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Sang-soo, aqui, não apresenta a mesma ousadia do seu trabalho anterior, Certo Agora, Errado Antes (2015). O formato não inova e a direção é o que se espera do cineasta: uma dinâmica característica de planos fixos salpicados por pans, tiltszooms nada discretos. E isso não é um problema, muito pelo contrário. Mas é o roteiro que tem maior força.

É mais uma vez muito delicada a maneira como Sang-soo estuda seus protagonistas. Mesmo envoltos por uma comicidade já característica do cineasta, ambos os personagens são construídos em facetas tridimensionais. Ele, completamente obcecado por reatar o namoro, chega muito próximo da auto-ridicularização. Não um ridículo forçado, contudo. É bem humorada a forma como o personagem demonstra seu desespero e, além da sua personalidade irritantemente controladora, fica claro ao espectador um outro motivo que leva Young-soo àquele estado: sua mãe está muito doente e provavelmente a namorada lhe daria suporte neste momento.

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Acontece que Minjung está experimentando sua liberdade. Ela está se permitindo ser outras pessoas, não por imposição própria, mas simplesmente por seguir o fluxo do seu emocional. Só que isso não acontece de maneira óbvia. A moça sofre de um tipo bem específico de perda de memória recente, provavelmente devido ao seu grande apreço por álcool. Ela simplesmente esquece, do dia para noite, de pessoas com quem compartilhou alguns copos de cerveja poucas horas atrás. Inclusive, chega ao ponto de esquecer do próprio ex-namorado. Porém, até o final da projeção, não é possível decretar se os seus esquecimentos são realmente fisiológicos ou se ela mente descaradamente bem. E isso realmente não importa, já que o humor resultante dos sucessivos constrangimentos é constante.

Mais do que isso, mesmo que pontualmente Sang-soo se perca em um ou outro diálogo esticado excessivamente, há nesse processo uma reflexão muito elegante sobre relações afetivas. Em determinado momento, cansada de tantas perguntas do namorado, a personagem de You-Young Lee, em ótima performance,  o repreende. “Não tente saber de tudo”, ela diz. Nessa desconstrução do amor pautado pelo excesso de controles, há um claro convite à reflexão. Cabe a um processo tão orgânico e subjetivo a imposição de um código de conduta? É justamente quando as regras caem e a individualidade é permitida que o namoro parece alcançar sua fluidez neste novo, e otimista, trabalho do cineasta.

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

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