Categorias
Críticas

As distâncias em Winter Sleep

Raros os filmes cuja duração excedem os habituais 120 min nas salas de cinema nos dias de hoje. Ainda de maior raridade os filmes cujos roteiros dão sustento a 180 min de sintonia entre cinematografia, atuação e direção. A impressão que tive ao finalizar o filme, foi a de terminar um livro. Winter Sleep, realização turca vencedora da Palma de Ouro de Cannes 2014, não por acaso, vem de uma publicação de um dos mestres da literatura russa em seu apogeu (diga­se do século XIX e XX), Anton Chekhov. Nesse meio, ninguém seria perdoado. No filme de Nuri Bilge Ceylan, ninguém tampouco é perdoado.

Winter Sleep 1b

A história se desenrola pelo contexto do personagem principal, Aydın, cuja vida é diminuir a vida de outros que considera inferior. Ele, um homem rico, descendente da riqueza de seu pai, trava longos e profundos diálogos, onde tenta se convencer de que é uma pessoa boa e justa. Para isso, tenta coibir as pessoas a seu redor e da vila que faz parte a viver de acordo com a moral imposta por sua própria mente – leia­se devaneios de quem permanece muito tempo em solidão, com leituras próprias e em casa. Aos poucos, o personagem vai esmagando qualquer outro tipo de pensamento ou linha de raciocínio que não saia de sua própria cabeça. Esses diálogos são frutos de tentativas do personagem se relacionar com quem vive ao seu redor, sua esposa e irmã, com quem não consegue lidar muito bem. A irmã, uma alma vaidosa que se culpa por viver sozinha, sem ter o que fazer, após o divórcio com o marido. Sua esposa, uma alma filantropa, e dona de casa que busca ajudar os pobres a partir de uma visão distanciada de quem nunca foi pobre, a partir de doações da alta sociedade.

As facetas Aydın vão se construindo calma e lentamente no decorrer desses diálogos pesados e bem construídos. A cada um deles a sensação é a de que estivéssemos a submergir de um longo mergulho em águas frias. A densidade exprimida tanto por texto, tanto por atuação ou direção nos sufoca pra dentro da frieza do personagem principal e da forma totalitária que age com quem o rodeia. A manipulação, a dominação são qualidades inseparáveis de qualquer ação do personagem. Inclusive em relação a um caso de dívida de moradores da vila para com ele, como no episódio do filho de um deles que joga uma pedra no vidro de seu carro. O tio oferece que o sobrinho beije a mão de Aydın como forma de perdão. Aydın revela que nem seu pai aceitaria isso, mas ele acaba aceitando em frente às mulheres da casa, como tentativa visível de causar alguma impressão. Entretanto é um insucesso e a criança desmaia. Sua irmã vai embora, sua esposa está presa dentro de sua própria casa.

A fotografia e escolha de locação carregam o filme para um cenário de solidão e desolação dos personagens. A distância é a todo tempo ressaltada no filme, física e psicológica. O quanto caminham os personagens, o quão longe da capital encontra­se a vila, o tamanho do hotel em que vivem Aydın e sua esposa, seus quartos separados. A escassez de clientes no hotel. Tudo isso funciona em paralelo ao roteiro e como os diálogos se moldam muitas vezes através de metáforas sem perder o ponto. A exemplo de quando um cliente diz a Aydın que seu hotel carecia de um cavalo. Somente isso já poderia resumir o filme como um todo. Aydın reflete nossa natureza mais aterrorizante e supérflua, a dominação. Ao escolher a compra do cavalo para expô­lo em seu hotel revela, naquele exato momento, nossa ânsia em domesticar o outro às nossas vontades e anseios. O nunca estar errado. Nossas vaidades de imposição sobre o pensamento alheio. Nunca falhar e demonstrar fraqueza. Devemos ser hábeis, prontos para o que for e romper barreiras para nos manter vivos e acima de outros. Devemos ser fortes e estar sozinhos. Os mais longos invernos vêm junto aos maiores poderes. Aqui rateio o meu fraquejo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *