Coberturas Críticas

As armadilhas do melodrama em A luz entre oceanos

Constantemente se esforçando para manter lacrimejantes os olhos do espectador, A luz entre oceanos (The Light Between Oceans, 2016), novo trabalho do americano Derek Cianfrance, não esconde em nenhum momento as suas intenções. Ao ser assumidamente melodramático, o longa não evita de sucumbir a certos excessos na narrativa, mas é também mais uma prova da habilidade do cineasta em dirigir seus atores.

Baseado no best-seller de M. L. Stedman, Tom, um veterano ainda em recuperação dos traumas sofridos na Primeira Guerra Mundial, se dedica ao seu novo trabalho como faroleiro. Se sua intenção antes era de abraçar a solidão e livrar-se dos fantasmas do passado, esta acaba se esvaindo ao conhecer Isabel, uma jovem enérgica e cheia de planos que mora no povoado do outro lado da baía. O casamento acontece e, em uma tarde qualquer na monotonia em torno do farol, um barco surge no mar carregando um homem morto e uma criança recém nascida. Mantendo este segredo, o casal adota o bebê como filha própria. Anos mais tarde, porém, eles conhecem Hannah, uma jovem ainda amargurada pelo sumiço do marido e da filha pequena no oceano.

Michael Fassbender stars as Tom Sherbourne and Alicia Vikander as his wife Isabel in DreamWorks Pictures' poignant drama THE LIGHT BETWEEN OCEANS, written and directed by Derek Cianfrance based on the acclaimed novel by M.L. Stedman. Davi Russo ©DreamWorks II Distribution Co., LLC. All Rights Reserved.

Em seu primeiro ato, a produção é lindamente interpretada por Michael Fassbender e Alicia Vikander. Neste momento, Ciafrance se dedica a construir a relação entre o casal protagonista. Os artifícios empregados nesta passagem se esforçam ao máximo para manter o sorriso no rosto do público. Primeiros encontros, conversas e beijos são fotografados quase sempre sob a luz do pôr do sol. As lentes em contra-plongée captam a química entre os atores de maneira sensível, sempre usando do vento da costa ao seu favor para manter os cabelos da atriz em movimento. Há um emprego de inserts que vão das ondas do mar às flores ali presentes que tornam a atmosfera ainda mais idílica. São decisões óbvias, mas este primeiro momento funciona justamente por assumir esse tom açucarado digno de folhetim romântico.

Contudo, a aposta em todos os exageros inerentes ao melodrama começa a surtir efeitos negativos. O emprego da trilha sonora de Alexander Desplat comprova isso. Surgindo em momentos nos quais sozinhos, sem a trilha, já teriam força suficiente, a música invade o filme de maneira incômoda e é constantemente inevitável percebê-la como desnecessária.

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O roteiro, adaptado pelo próprio Cianfrance, não evita certos moralismos e, por mais que o espectador compreenda o caráter quase utópico daquela atmosfera, certas passagens acabam soando desmedidas. Frases como “Só é preciso perdoar uma vez. Para ressentir-se é preciso fazê-lo o dia todo, todos os dias” surgem provavelmente da fonte original. Contudo, quando empregadas na tela, trazem a dureza da artificialidade. É como se um personagem completamente ordinário, de repente, virasse um sábio milenar a proclamar ensinamentos.

O roteiro ainda abusa do recurso das inúmeras cartas enviadas entre os personagens, seguindo a linha da voz em off acompanhada de trilha sonora. Em determinado momento, inclusive, a voz traz uma mensagem de amor e esperança enquanto as imagens trazem sucessivos flashbacks vistos pelo espectador no início da projeção. É como se Cianfrance desse um sinal com uma mensagem direta: chorem.

E bem, é muito provável que o espectador acabe se emocionando de fato. É notável o controle que o cineasta pretende ter sobre o sentimento do público ao assistir a este seu novo trabalho. Se seus anteriores, os ótimos Namorados para sempre (2010) e O lugar onde tudo termina (2012) definitivamente passeavam pelo melodrama, não o faziam de maneira tão explícita. De qualquer maneira, o que se mantém aqui é sua arte de saber dirigir atores. Claro que em se tratando de Michael Fassbender, Alicia Vikander e Rachel Weisz tal tarefa não é das mais complicadas. Mas no saldo final, mesmo com tantas ressalvas, o que ainda faz A luz entre oceanos funcionar é a verdade do seu elenco.

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

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