Aquarius e a resistência da memória e do corpo

Aquarius (2016) possui um fator que o difere de muitos dos filmes que pipocam por aí. Assim como as produções anteriores de Kleber Mendonça Filho, sua mais recente empreitada está repleta de subtextos e a cada nova revisão se apresentam novas interpretações. Chega a ser uma fonte quase inesgotável de assuntos e abordagens que podem ser exploradas em diferentes esferas. Se no quesito extrafílmico a produção já nos coloca a discutir a importância do cinema como um ato de consciência política, através dos atos de denúncia do golpe de estado no país, no que se refere ao recorte diegético, o que está presente apenas no filme, Mendonça constrói uma narrativa que fisga o espectador por esta abordagem profunda que flerta com questões sócio-econômicas, políticas, filosóficas e culturais.

A história nos coloca frente à Clara, interpretada com plenitude por Sonia Braga. Heroína, nossa protagonista serve como base para que outras narrativas se desenvolvam e desafios se apresentem. Através da memória afetiva da personagem, Mendonça Filho constrói um forte núcleo e o ramifica. Partindo da Recife dos anos 70, somos apresentados a três atos, com títulos dúbios, mas muito bem amarrados na trama: “O cabelo de Clara”, “O amor de Clara” e “O câncer de Clara”. Todos ambientados no Edifício Aquarius, de onde, nos dias atuais, a personagem de Braga recusa-se a sair após uma construtora adquirir todos os apartamentos do local.

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Essa recusa frente a especulação imobiliária é um ato de resistência pela memória. Aquarius é essencialmente sobre a construção das lembranças e a preservação da mesma. Existe uma comparação metafórica entre Clara e o prédio, como uma construção. O edifício e ela mudam paralelamente. É uma externalização da própria. É a aproximação com a ideia de corpo em um filme que é muito corpóreo e material. O corpo humano e errático, complexo e deficiente às vezes, e também sobre a lembrança materializada. A cômoda-voyeur que representa a tia, as músicas através dos LPs que agora são transpostas para o mp3, as imagens através das fotografias.

O filme faz lembrar do que Susan Sontag escreveu em Sobre Fotografia (Companhia das Letras, 2014). A escritora comenta que o retrato fotográfico é parte importante da evolução social. É através da fotografia que a ascensão das classes sociais mais baixas encontra um significado político e também social. A documentação que os retratos possuem trazem como justificativa um enaltecimento, uma preservação de um passado (ou o próprio presente) que entra, muitas vezes, em extinção. Em Aquarius, Kléber volta a explorar a importância da fotografia como registro. Em O Som ao Redor as fotos abriam e encerravam a produção. Aqui, em sua mais recente realização, além de abrir durante os créditos iniciais, as fotografias estão espalhadas por toda a narrativa como uma forma de resgate do passado. Reflete muito sobre a construção (ou desconstrução) de Recife, de seus personagens e da sociedade. É um tom nostálgico.

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Aliás, são as pessoas que movimentam a história e a vida de Clara. A tia na qual ela subconscientemente se espelha, a sua própria complexidade e atitudes do passado que deixam marcas na filha Ana Paula (Maeve Jinkings), o sobrinho que a conecta com as novas gerações e velhos dilemas, a vilânia hereditária presente no jovem dono (Humberto Carrão) da construtora, a paixão platônica pelo salva-vidas (Irandhir Santos),  a noitada com as amigas, e, ainda, a empregada que teve um filho tirado em um atropelamento. É a criação de um universo real e quase-tátil de corpos, vivências e memórias pulsantes que se estendem ao espectador.

A capacidade de Kleber em criar uma atmosfera que se inicia como dramática, navega para um humor sutil e rapidamente muda para um tom de suspense também é destacável. É a jornada de uma heroína, alcançada em uma amplitude exemplar. Se confirma, mais uma vez, como é um grande realizador e um autor que consegue refletir em cima de sua própria obra. Afinal, há muito de O Som ao Redor (2012) em Aquarius, e, ainda bem, sem ser repetitivo ou simplório, mas sim muitíssimo profundo. A estética serve à trama e não o contrário. A cena do sonho de Clara, repleta de simbolismos, que no seu filme anterior era destacada por uma cachoeira de sangue, se repete aqui quando a personagem dorme e sonha com uma ex-empregada da família. Volta-se a questões sociais crônicas, que avançam por gerações.

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Entre a seleção para Cannes, denuncias de golpe e debates acalorados, Aquarius nasce pronto para se tornar fonte de análises múltiplas. É, de longe, um filme afetivo e uma das mais impactantes realizações brasileiras dos últimos anos. Um filme que pede para ser visto pelo seu público de forma crítica, não somente pelo filme, mas também pelo que se enxerga além da tela em termos políticos e sociais. É necessário analisar o que se assiste de uma forma muito similar ao que Anna Muylaert apresentou com Que Horas Ela Volta? (2015). A cena final, na qual Sonia Braga esbanja uma atuação intensa personificando Clara como uma justiceira, é catártica para o público. É, felizmente, a resolução de todos os problemas de Clara. Mas fica uma sensação estranha com o espectador. Será mesmo a solução dos problemas e questões que Kleber revela nas suas entrelinhas e estão presentes em nossa sociedade?

2 comentários sobre “Aquarius e a resistência da memória e do corpo

  1. […] Aquarius, de Kléber Mendonça Filho De Cannes, passando pelo Festival de Gramado e chegando às listas das principais publicações sobre cinema do mundo em meio à protestos contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Aquarius atingiu um patamar que poucos filmes nacionais conseguiram nos últimos anos, talvez décadas. Afinal, integrar as listas da Sight and Sound e Cahiers du Cinèma não é para qualquer realizador. Após elogiados trabalhos e o emblemático Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho retorna ao retrato da classe média brasileira e através de três grandiosos atos a vida de Clara (Sonia Braga em performance excepcional) e o prédio onde mora, o Aquarius. Ela é uma jornalista, crítica musical e escritora aposentada que chegou aos 60 anos sobrevivendo às adversidades que o tempo impõe. Mescla de filme-memória com nuanças de musical, o filme de Mendonça Filho oferece um olhar que destaca as contradições do brasileiro sem fugir da auto-crítica. E é exatamente aí que reside a beleza de Aquarius. por Renato Cabral […]

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