A Vida Provisória: Notas do subsolo

Antes de qualquer imagem ser exibida, A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite, começa com um letreiro que reitera: “Um filme de ficção”. As cartas são postas em duas espécies de trailers que se alternam com a retumbante sequência de créditos iniciais. Sobre planos que se repetirão adiante, a narração estabelece que trataria-se de um filme baseado em anotações incompletas encontradas no quarto de hotel de Estevão (Paulo José). “Em muitos pontos nossa equipe tomou a liberdade – e a cautela – de apenas sugerir os acontecimentos.” Está declarada uma aura de clandestinidade que virá a emanar de cada quadro; sugere-se estar prestes a ver o proibido. Ora, A Vida Provisória é um filme de 1968 e, mais importante ainda, sobre 1968.

Se, em O Desafio (1965), de Paulo Cesar Saraceni, com nosso herói urbano porta-voz da esquerda que ama dondoca politicamente indecisa, a letargia do luto pós-golpe dá o tom, aqui a ferida é ainda mais profunda. Estevão, jornalista, 28 anos. Ama o Rio de Janeiro porque ama Paola (Dina Sfat), esposa de um diplomata. Poderíamos estar falando de O Desafio. Estevão, porém, está morto desde o início da projeção, justamente por agir politicamente. Tragédia anunciada. Como um filme da vida inundando os olhos diante da morte, a memória de Estevão se articula de maneira não-linear, elíptica (montagem do italiano Gianni Amico). Imediatamente remete-se ao segundo filme-irmão de A Vida Provisória: Terra em Transe (1967), parentesco atestado pelo fotograma de Jardel Filho fixado numa estante na casa de Estevão.

O épico de Glauber, recorrendo à alegoria de Eldorado, dá os fatores que aglutinaram no golpe, lançando mão do barulho ensurdecedor das armas de fogo para estabelecer os agentes reforçadores da nova ordem. Em A Vida Provisória, o golpe já é fato consumado. Embora não haja muitos indícios verbalizados de uma institucionalização da repressão, o nome escolhido para o presidente fictício, Alexandre, denota uma máxima militarista. No longa de Gomes Leite, não estamos em Eldorado, estamos no Brasil, registrado com a urgência característica do calor do momento, navegando paisagens e situações urbanas que pincelam o cotidiano e a cultura fora da bolha da intelectualidade enlutada, luto este manifestado também pela constante de planos de lugares vazios.

Exemplo: na sala de embarque do aeroporto Santos Dumont, uma mulher comenta com seu companheiro de mesa: “Aquele novo jato da Air France é divino!” Outro homem diz a seu amigo que “o Alexandre vai fazer muito”. A câmera prossegue, em travelling, até encontrar Estevão observando a pista de decolagem, prestes a embarcar para Belo Horizonte. Uma panorâmica à direita o exclui do quadro, restando apenas a moldura da janela, um espaço vazio. Um corte nos leva a outro espaço vazio, um longo corredor que percorremos por um travelling, em direção aos aposentos do Ministro do Subsolo (ofício fictício, espécie de síntese de uma impotência política), o General Passos (Mário Lago). Trata-se de um flashback para quando Estevão recebe o briefing de sua missão: aproveitando a viagem a Brasília para cobrir um pronunciamento sobre a entrega do controle de jazidas mineiras a empresas estrangeiras, deverá levar a um homem chamado Cavalcanti documentos incriminadores de corrupção política relativos às mesmas jazidas.

O périplo de Estevão através das três cidades e das memórias que cada uma traz à tona compõe este thriller político de abrangência geográfica rara no cinema brasileiro, fornecendo uma radiografia de um Brasil em plena modernização, suposto progresso. Assistir a A Vida Provisória cinquenta anos depois é contemplar estes espaços em suas contradições; ser engolido pelos monólitos urbanos sessentistas; subir e descer, permeando os desníveis de uma Belo Horizonte imóvel como um retrato de família; discutir política diante de etiquetas de preço em uma enorme loja de departamentos; perder-se nos confins de um cerrado abjeto e nebuloso, para então perceber que o Congresso está logo ali, a uma caminhada de distância. Em complemento, as longas conversas entre Estevão e Paola em seu apartamento deixam claras as angústias políticas de outrora, as tensões em ebulição que dariam o tom das agitações de 1968, no Brasil e no mundo.

O momento que melhor ilustra o “aqui, agora” é o filme dentro do filme, assistido por Estevão e Livia (Joana Fomm), e estrelado por Renata Sorrah, Geraldo Veloso e Guará Rodrigues. Renata interpreta Teresa, uma estudante revolucionária interceptada por dois agentes da repressão. Num registro godardiano, pegando carona em A Chinesa (1967) e antecipando práticas do cinema de invenção setentista, Renata e Geraldo declamam para a câmera enquanto Guará esbraveja em espanhol. É lido um trecho do antológico poema de Pasolini, O PCI aos Jovens!, como maneira de deslegitimar a ação política de Teresa. “Eu o odeio como odeio a seus pais / Você tem os mesmos olhos cheios de mentira / São trôpegos, incertos e desesperados / Mas também sabem ser prepotentes, chantagistas, autossuficientes / Prerrogativa burguesa, minha cara”. Após dedicar sua fala aos amigos tchecos, Teresa é morta pelos agentes, assassinato registrado em papel como trágico acidente. O filme termina, as luzes se acendem e, vida imitando a arte, dois estudantes são retirados à força do auditório onde a sessão acontecia.

Em texto de Jairo Ferreira, datado de janeiro de 1969, Maurício Gomes Leite é citado dizendo: “Espero que A Vida Provisória seja recebido – e entendido – como uma dupla manifestação que envolve o ‘eu’ e o ‘nós’. O que há de pessoal no filme é marcadamente coletivo. E o que há de coletivo é extremamente pessoal.” Ao adentrar não só na revolta, mas também nos amores de Estevão, exploram-se as dimensões em que o posicionamento diante dos afetos repercute na política macrossômica, e vice-versa. Livia, primeiro amor de Estevão e companheira de politização, segue adepta à formação uma nova geração de militantes. Ele, porém, entregue ao conformismo do conforto burguês, torna-se incapaz de compreendê-la. Já Paola, seu grande amor, se recusa a deixar seu marido diplomata, pois acredita precisar da estabilidade que representa. Estevão chega a desafiá-la, brincando – em assombrosa alusão à tortura que sofrerá – de interrogá-la: “Confesse que não é minha mulher”. Vivem este amor clandestino, provisório, limitado a seu covil de aparência subterrânea, até que Paola opte por seguir com seu marido.

Sobre Paola, assim como Brasília, é depositada a esperança de um futuro utópico, sonho impossível de ser cumprido. Na sequência que antecede a chegada à nova capital, Estevão rememora um episódio em que acompanha Paola para abortar um filho seu. E, então, num corte para uma Brasília inacabada, natimorta, o paralelo está posto. A artificialidade das superquadras logo dá lugar à periferia candanga e a impossibilidade do sonho é concretizada. “Ditadura mata estudante” está pichado nas paredes. Cavalcanti, um MacGuffin para a possibilidade de uma contrarrevolução, está desaparecido, ou melhor, não existe. Na incapacidade de uma ação política contra a repressão violenta, o que resta?

A cena da morte de Estevão (com seu assassino sendo ironicamente interpretado por Carlos Heitor Cony) tenta fornecer um fiapo de esperança diante do pessimismo. O tiro que atinge Estevão não emite som. À sua morte, não é Estevão o silenciado, e sim o disparo. Pois, em seu movimento de trazer à luz um relato clandestino de resistência – ficcional, claro, como o letreiro inicial faz questão de frisar –, A Vida Provisória estabelece a arte como silenciadora das forças opressoras, ferramenta revolucionária. Por isso é importante denunciar o filme como um esforço deliberado, uma produção coletiva de uma equipe de amigos de Estevão que agora resolveu trazer sua história ao cinema. É um filme sobre a força política que o ato de fazer cinema pode exercer.

É revelador que A Vida Provisória tenha sido a única realização de Maurício Gomes Leite. Nesta quimera de gramáticas godardianas, resnaisianas e antonionescas, o que transparece é a conclusão de um projeto de vida, culminação de todas suas reflexões como crítico até então. Um filme como única chance de manifesto. É claro que o longa nunca foi lançado comercialmente no Brasil, sendo relegado ao esquecimento. Diante da necessidade de se refletir sobre a iminência de um regime de exceção, resgatar A Vida Provisória é urgente. Márcia, a aliada de Cavalcanti que é torturada juntamente com Estevão, dá o chamado: “Todos os amores são belos, mas é preciso não esquecer de lutar por pensar demais no amor, ou não haverá mais amor nessa terra.”

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