Coberturas Críticas

A trajetória das Divinas Divas

Nas décadas de 60 e 70, em pleno período da ditadura militar no Brasil, fizeram história as primeiras artistas travestis a se apresentaram no Rio de Janeiro. As pioneiras Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios construíram uma vasta trajetória no cenário artístico daquela época. Em 2014, elas se reencontraram para a celebrar seus 50 anos de carreira no Teatro Rival, na Cinelândia, com um novo espetáculo. No documentário Divinas Divas (2016), estreia da atriz Leandra Leal como diretora, esta reunião é base para um generoso retrato destas figuras.

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O roteiro, que inclui nomes como o de Lucas Paraizo, dá espaço para que cada uma das divas conte sua história. Entre elas há casos de não aceitação da família, humilhações da censura, carreira internacional e amores eternos. Durante os ensaios para o espetáculo, as lentes captam a cumplicidade entre elas, as lembranças compartilhadas e também as ásperas batalhas de ego. Constantemente carregado pelo humor rápido das protagonistas, o documentário também explora momentos trágicos, como quando, ainda jovem, Marquesa é internada para “curar-se” do seu comportamento, ou aqueles de grande emoção, vide a história de amor de mais de 45 anos vivida por Jane di Castro e seu marido Otávio.

Se elas se mostram completamente confortáveis diante da câmera e contam suas vidas em grande entrega, isso muito se deve ao fato de estarem frente a frente com Leandra Leal. Herdeira direta do Teatro Rival, a atriz e diretora esteve presente nos bastidores dos espetáculos desde muito pequena e cresceu rodeada das artistas que agora registra. Não há dúvidas de que essa conexão enriquece o documentário em termos de conteúdo. Seguidamente, as divas respondem às perguntas diretamente para Leandra, mencionando seu nome. A cineasta também não se corta, suas perguntas estão aí, o público escuta sua voz nas entrevistas.

Mais do que isso, o filme adota o formato “álbum de família”, onde Leandra se coloca também como personagem. Em narrações em off sempre carregadas de um sensível saudosismo, Leandra leva à tela suas lembranças de infância e intimidades que moldaram suas percepções, como o fato de o pai e o padrinho serem homossexuais. Nestes momentos nostálgicos, é possível compreender os porquês que motivaram a realização deste projeto. Demonstrando grande afeto pelo que registra, talvez o único porém do filme seja justamente este apego ao material, onde o tempo se faz sentir em um ou outro momento. Nada que comprometa a experiência, contudo.

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É juntando a força de suas protagonistas à conexão entre elas e a cineasta que Divinas Divas resulta em um documentário digno. Seja partindo delas ou de Leandra, as palavras se referem a um tempo passado, mas constantemente fazem relação com o presente trazendo, portanto, reflexões políticas contundentes, como a própria realidade atual das travestis ou a simples, e ainda tão difícil, compreensão do outro.

Ainda registrado pela fotografia competente de David Pacheco, que se apropria das cores e brilhos em suas imagens, o filme presenteia o público com várias manifestações performáticas gravadas no palco do Rival. Há um belíssimo plano sequência que segue as artistas desde a praça da Cinelândia até os bastidores do teatro e tem destaque na projeção. Projeção esta que se encerrou aos intermináveis aplausos durante o domingo à tarde no Cine Odeon.

Maurício Vassali

Cinéfilo e graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel, deixou os estudos de engenharia temporariamente de lado para dedicar-se ao cinema. Colabora também no site Literatortura.

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