A fraca estrutura que sustenta a Obra

Diretor estreante em longas-metragens, Gregório Graziosi já de início viu Obra (2014) ser exibido em première internacional no Festival de Toronto. Na produção, Irandhir Santos, o ator nacional do momento, interpreta João Carlos, um jovem e bem-sucedido arquiteto que se encontra em um dilema ao descobrir um cemitério clandestino em um terreno de sua família, onde, além disso, ainda ocorre uma obra sob sua supervisão. Em paralelo, João enfrenta fortes dores nas costas causadas por uma hérnia de disco, problema que atinge os homens de sua família por gerações e lhe causa medo cogitar ter de passar o fim de seus dias travado em uma cama de hospital, como é o estado de seu avô. Graziosi usa os problemas físicos desses personagens para representar os conflitos e a quebra na coluna vertebral dessa família aos olhos do protagonista.

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Com planos majoritariamente estáticos, as imagens imponentes da cidade, que cresce verticalmente sem parar, fazem com que os enormes prédios cheios de janela dominem os enquadramentos com facilidade. É recorrente o uso de grandes janelas em quadro, nos colocando na perspectiva de dentro dessas gigantescas caixas de concreto que compõe a megalópole, e o desenho de som se certifica de que estamos sob ruídos incômodos, reverberações ou sons urbanos a todo momento. São Paulo é mostrada de forma fria e rígida, assim como a personalidade de João Carlos.

Já notamos esse detalhe em uma cena após a descoberta do cemitério, na qual ele segue um casal de mulheres que avistou na rua até uma festa. Após uma curta troca de olhares, o flerte acaba culminando com os três em um motel. As duas mulheres de tão enlouquecidas por ele, disputam seu corpo o puxando de uma parede a outra antes mesmo de chegarem ao quarto. Na cena seguinte, sem demonstração de culpa ou algo que remeta à noite anterior, João está sentado na sala de seus pais enquanto sua mãe corta o seu cabelo e sua esposa, interpretada pela atriz Lola Peploe, os assiste atenciosa. A mãe demostra carinho ao tratar de João e aparece em tela somente para dizer a personagem de Lola como o dia do nascimento do filho foi o mais feliz de sua vida.

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É notável em Obra que a presença de personagens femininas tem ações movidas unicamente pela existência de João. Elas são suas alunas que estão sentadas escutando seus discursos. Elas são um casal de mulheres que passam a não serem mais suficientes uma para outra depois de descobrirem a presença dele. É sua mãe exaltando o seu trabalho como arquiteto e o colocando como o ápice de sua vida e, também, é sua esposa massageando suas costas onde se mostra mais preocupada com as dores de João, do que com a própria gravidez em estágio final.

O personagem de Irandhir é a materialização de sucesso do imaginário masculino nessa sociedade patriarcal. Bem-sucedido profissionalmente e na vida pessoal, ele é amado pelas mulheres da sua família que vivem em sua função e desejado por todas as outras. Ainda, para completar, tem o respeito de seu pai e seu avô por quem ele nutre admiração. Este último inclusive demonstra tanta consideração pelo neto que, em grave estado de saúde, só reconhece a voz dele. Para dar continuidade à tradição dos primogênitos da família, o filme se encerra com a esposa de João em um hospital, com um recém-nascido no colo pouco depois de dar à luz. A criança é um menino, algo a ser comemorado de forma válida se levado em conta a forma rasa com que as personagens femininas foram submetidas em Obra. Ao menos,  menos não vamos ter que assistir mais uma geração de mulheres em tela sendo usadas para agraciar a vida de João Carlos.

No final das contas, o filme tenta ser mais complexo do que realmente é, disfarçando o fraco conceito que está envolvido através de impactantes e também prazerosas imagens de São Paulo, que mesmo sendo impressionantes não são suficientes para fazerem valer a projeção. Ao fim da sessão não se encontra o motivo que valide a experiência de assisti-lo. Sobra somente a decepção, apesar de não ser uma surpresa já que é mais um produto cinematográfico escrito e dirigido por homens em que se nota uma preocupação nula com suas representações machistas e superficiais. Obra se mostra o reflexo perfeito de seu protagonista que se apresenta de forma poderosa em seu exterior, mas frágil em sua estrutura fraca como o seu discurso.

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