A criação do horror em Alien Covenant

Na emblemática canção “Like a Rolling Stone”, Bob Dylan diz “Se você não tem nada, não há nada a perder”. Mesmo sem ser citada durante a projeção ou ter qualquer ligação direta a Alien Covenant (2017), a nova investida de Ridley Scott na sua saga alienígena iniciada nos anos 70 com Alien – O Oitavo Passageiro, o trecho da canção de Dylan parece ecoar em diversos momentos, é claro, em um contexto muito diferente. Em meio a humanos, deuses e androides, o diretor britânico reutiliza sua estrutura narrativa, a qual virou um dos padrões para os filmes do gênero, e lança diversas abordagens sobre o conceito de criação, nascimento, fé, paternalismo e as últimas consequências dos horrores de cada um desses temas impulsionados pela perda e o isolamento.

 

Sequência direta de Prometheus (2012), Covenant resgata mais uma vez uma tensão característica das ficções científicas de Scott, que perdura durante os primeiros 45 minutos de projeção, para logo os espectadores serem imersos em uma espiral de desgraças bestiais. Dessa vez o realizador foca sua história nos tripulantes da nave Covenant, os quais possuem a missão de colonizar um planeta perfeito para a perpetuação da humanidade. À bordo estão um time de cientistas e mais de dois mil humanos em um sono profundo e prontos para conquistar novos territórios nessa terra distante. Embalados pela esperança de uma nova vida, os cientistas, todos são casais de diferentes etnias e sexualidades (há até mesmo um casal gay), são despertados do sono após a intercepção de um ruído. A voz é de uma canção e eles entendem que é necessário para fazer um desvio de rota para esse outro planeta habitável e que, ao que tudo indica, possui vida humana.

Covenant não é introduzido assim tão diretamente. Em seus minutos iniciais somos apresentados às intenções reais da produção com um flashback que se detém aos acontecimentos seguidos logo após a criação do androide David (Michael Fassbender) e que precedem Prometheus. O personagem crucial à trama e que molda as potências da nova trilogia-prequel integra um diálogo que é um embate intelectual com o executivo ambicioso Peter Weyland (Guy Pearce), o seu criador. A cena serve para refletir a respeito da perfeição e imortalidade de David que contrasta com a instabilidade da vida do humano Weyland. O que os separa, mas também os une, é a criação e finitude. A cena é claramente um jogo de poder e uma ótima reafirmação à temática que será desenvolvida ao longo das próximas duas horas de projeção. Perdoa-se aqui a referência óbvia a Davi, de Michelangelo. Na cena, quando indagado por Wayland sobre seu nome, o androide toca a estátua do artista renascentista e responde com um pontual “David”. Mesmo com esse momento de certo constrangimento, Scott dá pistas de que o ser artificial possui, de certa maneira, uma liberdade imaginativa em sua inteligência sintética. É um intelectual e faz associações. Uma criação que logo se voltará contra o seu criador, seu pai. David é, no final das contas, um ser destinado à sabotar a humanidade. Imortal em sua artificialidade, ele não tem nada a perder na sua missão cega de consagrar uma nova espécie, nem que precise sacrificar os seus e o seu criador. É um espantoso caso de criatura que se sobrepõe ao criador. Assim como Weyland, David se torna um Dr. Frankenstein com o desenvolver da história.

Mesmo dentro de suas previsibilidades, Scott constrói Covenant com domínio e objetividade. É notório que ele sabe o território que está se firmando novamente, afinal o criou, mas o que impressiona é que o diretor parece ter considerado as críticas relativas às irregularidades de Prometheus. Se antes era apresentado uma falta de terror desenfreado e diversas lacunas da história ficavam com o espectador, aqui em Covenant o público ganha finalmente boas respostas e uma generosa dose de adrenalina. Os diálogos dos personagens, por mais simplórios que possam ser, são claros e justificam a motivação, por vezes até estúpida, por trás das atitudes em diversos momentos. Katherine Waterson chega ao panteão de protagonistas femininas da saga de com uma performance forte e contundente, principalmente em uma das cenas finais em que enfrenta o esperado Xenomorpho. Diferente do frustrante Vida (2017), que é um exemplar insosso que peca em relação aos seus personagens rasos e uma história já contada até mesmo pelo próprio Scott, Alien Covenant é objetivo e correto. É acessível sem subestimar seu espectador. Para os mais aplicados ainda existem ideologias e referências que agregam camadas profundas de leitura, com citações até mesmo à Mary Shelley. No final das contas, Ridley Scott mostra que é possível trazer frescor a sua própria criação utilizando dos seus mesmos moldes.

 

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