Coberturas Críticas

A China em Curitiba – No Alto da Montanha e Pretérito.Imperfeito

Logo no segundo dia de exibições do 8º Olhar de Cinema de Curitiba dois filmes chineses chamaram a atenção: No Alto da Montanha (Hue Shen, 2018), de Yang Zhang, e Pretérito.Imperfeito (Wan Mei Xian Zai Shi, 2019), de Shengze Zhu. O primeiro como parte da mostra Outros Olhares e o segundo concorrendo aos prémios principais da mostra competitiva.

Estes filmes tornam visível um pensamento curatorial (Eduardo Valente, Aaron Cutler, Antônio Junior e Carla Italiano) que investe no diálogo como conceito. São produções que ilustram uma China contemporânea complexa, que salta de uma pré modernidade para uma pós modernidade mediada por evoluções sobretudo tecnológicas. Elas, as evoluções, fazem parte da rotina das pessoas ordinárias, desimportantes, e que em função da gigantesca população dão acesso exponencial às traquitanas do consumo. Um consumo não só ligado à tecnologia, como toda sorte de produto que provavelmente nem precisaria existir, mas que hoje faz parte da vida dos chineses.

Na ficção No Alto das Montanhas, um painel pictórico de um vilarejo chamado Da Lin, a ilustração desta abordagem tratada aqui pode ficar por conta de como o filme trabalha as passagens de tempo. Uma delas é marcada pela poética participação de um casal de gatos (supõe-se ser um casal). Vemos inicialmente os bichanos comendo restos de um cozido de peixe servido num prato qualquer. A passagem de tempo se materializa no aparecimento de filhotes e por um apetrecho de loja de pet. Nele os bichos mesmos acionam uma torneirinha para beber água, e, claro, passam a comer ração.

No Alto da Montanhas – relações familiares em um vilarejo na China contemporânea

São momentos sutis, discursivos só pela imagem, no entanto poderosos para falar de uma China que há não muitos anos não tinha o que dar de comer à sua população. O cenário principal, um atelier/escola de pintura, que atende principalmente alunas da terceira idade em suas expressões naïve, é a oportunidade para uma fotografia exuberante. As cores explodem quando a câmera enquadra a geografia rural. Uma natureza que convive com os aparelhos celulares, aliás, outra onipresença no documentário Pretérito.Imperfeito, vencedor do Festival de Roterdam.

A jovem diretora de Hong Kong, Shengze Zhu, usa material de arquivo e faz um filme de montagem com personagens  que conduzem seus canais de transmissão ao vivo. O mundo do streaming na China tem suas particularidades e é curioso notar que num país de economia de mercado, mas de governo controlador (tudo é vigiado pelo governo comunista, até o Gmail é proibido lá), floresça algo expressivo no campo da internet. E como são campeões em produzir dinheiro, acharam um jeito de monetizar a relação entre o dono do canal e seus seguidores. Para além do dado financeiro, interessa ao espectador perceber como o filme é construído e como registra as novas relações do nosso tempo.

A ideia do longa é muito simples: o espectador acompanha as transmissões ao vivo dos personagens e em sequências tão estendidas que percebemos o quanto os seguidores – o público dos personagens – dedica horas e horas dos seus dias para observar  rotinas vazias. A personagem mais interessante talvez seja a operária que transmite seu trabalho autômato numa máquina de costura. Aproveitando quando o chefe não está, fica falando com seus fãs, contando sua vida dura e agradecendo quando alguém deposita o equivalente a uma gorjeta (ou cachê) para ela. Com isto, ela ganha duplamente, pois além do salário da fábrica ainda é remunerada pela perfomance. Na verdade, triplamente, porque às vezes carrega a sobrinha pequena para o trabalho, já que uma de suas tarefas na jornada é cuidar da menina enquanto os pais trabalham em outra cidade. Com a nova práxis na China, os casais trabalham longe de casa e deixam os filhos com avós e parentes, pagando por isto.

Pretérito.Imperfeito e o uso exacerbado das redes sociais e sua exposição constante

Outros personagens de Pretérito.Imperfeito têm seguidores atraídos por personagens de perfil diferente. O rapaz de 1,30cm que parece uma criança, o rapaz com mãos e pés atrofiados, e o que sofreu um acidente e tem o rosto deformado. São personagens privilegiados pela narrativa em função de seu status de atração circense, levando ao questionamento inevitável: estaria o filme explorando seus personagens tanto quanto os seguidores exploram quem se expõe na internet em troca de likes?

De todo modo, para quem tem interesse pelo  país mais populoso do mundo, pelo país que faz toda a diferença na geopolítica das forças internacionais, trata-se de um filme que ilumina algo em relação às novas gerações de chineses. Alem disto, o filme faz um contraponto perfeito com No Alto da Montanha. Enquanto este mostra as relações familiares como célula mater daquela sociedade, o longa de Hong Kong revela indivíduos ocupando-se voyeristicamente com o outro e com isto falando de uma doença do nosso tempo, que é a solidão.

Parafraseando Lévi-Strauss, poderíamos dizer que a China passou da barbárie para a decadência sem passar pela civilização. Os 422 milhões de chineses que fizeram live-streaming em 2017 são um alerta para o Brasil, onde as doenças ligadas ao uso da internet já assustam. Quem viver, verá.

Ivonete Pinto

Doutora em Cinema pela USP, docente no curso de Cinema e Audiovisual da UFPel, organizadora, com Orlando Margarido, de "Bernardet 80: impacto e influência no cinema brasileiro", editora da Revista Teorema, filiada à ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e Accirs (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul).

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