A Chegada ou A Linguagem Universal

Cinema é desde seus primórdios uma máquina de ilusão, uma magia quase literal. No espaço de tempo entre os experimentos de Méliès e o advento dos efeitos visuais digitais, uma linguagem fundamenta-se, uma ferramenta de comunicação em massa cuja morte se anuncia, paradoxalmente, desde seu nascimento. E por que não morre? Podemos crer que a capacidade de compreensão do mecanismo cinematográfico do ser humano, em questão de generalidade, esteja em sua superfície. Não por ímpeto próprio, mas por forças que trabalham contra esta noção de clareza, em temor à transcendência. Se há o cinema de excelência que utiliza-se de seus fundamentos auto-estabelecidos ele, infelizmente, não atinge a massa. Nessa contradição eterna a sétima arte sobrevive pelo ritual da sala escura. Eis A Chegada (Arrival, 2016), exemplar de ambos os extremos desta oposição.

A premissa básica, indicação imediata de uma historiografia do cinema, consiste na titular chegada de doze objetos ovais à Terra, distribuídos ao longo do planeta. Porém, antes de tudo, se estabelece a perspectiva da linguista Louise Banks (Amy Adams), cuja filha falece de um câncer raro na adolescência. Entendemos o surgimento dos alienígenas através de seus olhos. O primeiro plano em que efetivamente se vê um dos OVNIs é conduzido por seu olhar, ao pouso do helicóptero que a leva à base militar onde foi convocada como tradutora. A partir de então opõem-se dois ideais – a lógica, representada por Louise e Ian (Jeremy Renner), e a força, na essencialidade do Coronel Weber (Forest Whitaker) – em relação à abordagem para com os seres extraterrestres que se mantém dentro da nave. Seu meio de comunicação é uma língua baseada em símbolos circulares com diferentes variações, posteriormente explicados como formas não lineares de significação, sem referência fonética. Cabe a Louise estabelecer uma conhecimento mútuo suficiente, que permita a compreensão da grande pergunta: “qual o seu propósito na Terra?”. Inserindo à ficção científica a teoria do relativismo linguístico, descobre-se que com o “saber ler” a linguagem imprime habilidades além-tempo ao funcionamento do cérebro. “Saber ler” é conseguir ver a extensão da vida do indivíduo, passado e futuro.

Louise (Adams ) e Ian (Renner) são um contra-ponto ao militarismo e à força na produção
Louise (Adams ) e Ian (Renner) são um contra-ponto ao militarismo e à força na produção

Denis Villeneuve faz de A Chegada um exercício de controle, direção calculada que se articula em alcance fechado, às vezes quase claustrofóbico. O foco superficial, além de encerrar o quadro, é parte crucial da visualidade, seja ocultando elementos de maneira pontual ou representando a inconstância da memória. A nave é vista em vários momentos em segundo plano, fora de foco, como o elemento assombroso que representa. Alterna-se entre a investigação de Louise e o que se sugerem ser lembranças de sua vida com a filha, acontecimentos banais que contribuem catarticamente com suas descobertas. É neste jogo flashback e flashforward que a obra alia por completo a forma com o discurso, incorporando em si a circularidade da língua, de maneira que soa natural, necessário, o famigerado casal entre mocinhos. Os signos literalmente circulam ao redor de Louise e Ian.

Dito isto, é no alfabeto dos alienígenas em que a mecanicidade do roteiro se revela. Ao negar ao espectador uma noção ao menos rudimentar do funcionamento da linguagem, a comunicação – fator de apreço ao discurso – torna-se via de mão única. Em uma narrativa especificamente sobre diplomacia, estabelecendo sua moral no valor da compreensão mútua e posicionando como “heroína” uma acadêmica, ao receptor resta a tautologia. A própria noção da não-linearidade dos símbolos não se estabelece por uma catarse de Louise ou alguma indicação visual, sua definição é narrada em over, em teor institucional, sobre uma montagem elíptica. A primeira cena em que se adentra a nave é de ritmo magistral, em que se transmite a tensão sentida por Louise em tempo real. Com o desvelar da narrativa, os encontros se banalizam, a bobeira da premissa ameaça vir à tona, porém mantém-se policiada pela edificação sólida de Villeneuve.

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Louise (Amy Adams) e o OVNI em segundo plano

O que fica de perceptível é a noção de que A Chegada não pratica o que prega. Fornece crítica interessante sobre a mentalidade militar embutida nas relações internacionais, mas não deixa de reforçar o papel imperialista dos Estados Unidos – o exército americano, apesar de violento, contrata Louise e Ian, certo? Enquanto China e Rússia sucumbem ao estúpido “atirar primeiro”. Reforça em seu discurso a voga da empatia liberal, mas coloca um ator negro a declarar, em certo momento, que os colonizadores da Austrália eram “uma raça mais avançada” do que os aborígenes. E, mais importante, estabelece o valor da participação ativa do pensador, mas não permite ao espectador este luxo. É, no fim das contas, uma incoerência suportada por bases muito bem consolidadas. Mazelas de um big buget, porém ainda um filme sólido, inegavelmente. A trilha de Jóhann Jóhannsson, quando incidental à tensão, adiciona muito ao ar etéreo da situação, apesar de pender ao melodrama quando se pede. O design de produção é exímio, aliado à fotografia nublada de Bradford Young, que realça em contraste o painel em que os seres projetam seus hieróglifos.

Não é à toa que a sala onde as interações ocorrem lembre uma sala de cinema. Na escuridão da nave, a linguagem universal, como batizada por Louise, é projetada sobre a tela branca. Se A Chegada não representa a revolução que o cinema pode proporcionar, pelo menos a sugere. O propósito dos alienígenas na Terra é ensinar aos seres humanos sua língua não-linear, de modo que três mil anos à frente, os humanos possam ajudá-los. Uma revolução a longo prazo. De maneira panfletária, se estabelece que cada um dos doze objetos carrega uma fração do alfabeto completo com uma noção transcendental de tempo, o que força as nações a se unirem. Deixa de ser uma reivindicação válida? Se existe um meio de reconhecimento mundial, no âmbito da empatia, do olhar a vida acontecer, sem barreiras de linguagem, este meio é a linguagem universal. Reações variadas à parte, é um filme que revigora o orgulho de fazer parte de um ritual, de deixar-se levar pelas ideias e retornar ao mundo real, quem sabe, com uma nova maneira de pensar. Cinema.

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