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A Bruxa e construção sutil da claustrofobia

Pela maestria que Robert Eggers apresenta em A Bruxa (2015), realmente não parece que esta é a sua primeira empreitada em um longa-metragem. Antes da produção, Eggers só havia dirigido dois curtas, ambos baseados em contos, o primeiro, de João e Maria, e o outro em O Delator, de Edgar Allan Poe. Depois de muito pesquisar sobre relatos de bruxas na era medieval, Eggers realizou A Bruxa, lançado no festival de Sundance de 2015. A produção foi um sucesso absoluto de crítica no evento e o diretor premiado pelo seu trabalho.

Na trama, inconformados com a antiga colônia onde moravam, uma família de sete membros é forçada a viver aos arredores de uma vila durante o século XV. Por se passar em uma era medieval, o filme tem um diálogo religioso presente em quase todas as cenas. Para a família, tudo que acontece no mundo e com eles é castigo divino ou uma bênção de Deus. E, devido à era, a existência de bruxas é tida como uma verdade, servindo de explicação pra qualquer acontecimento que seja difícil de explicar.

Assim como Stanley Kubrick lentamente cria tensão e desconforto mental nos personagens principais em O Iluminado (1980), e consequentemente no espectador, Eggers também desenvolve o mesmo com a família de protagonistas de seu filme. O uso de imagens estranhas e sutis, como um ovo quebrado com um feto semi-desenvolvido, são degraus psicológicos que culminam logo após a metade do filme. Até então, a produção tem um desenvolvimento devagar, mas contínuo.

Esse ritmo desmotiva alguns espectadores que normalmente esperam uma tensão mais imediata e previsível, com sustos constantes e barulhentos. A Bruxa raramente apela para esse tipo de recurso. Apesar de perturbador, a trama é muito mais de suspense do que de um horror. O medo que o filme cria está nos detalhes, como sons ou animais, e não em monstros ou demônios computadorizados – apesar de ainda ser um filme sobre Satã.

Em um cenário sem eletricidade, Eggers faz uso maestral da iluminação de velas. De noite, é tudo muito escuro, muito mais do que poderia ser. Tão escuro que sufoca. O enquadramento de várias cenas foca apenas em um detalhe, em algo que ocupa metade ou menos da tela, enquanto a escuridão ocupa o resto. Isso perturba e dá ansiedade ao espectador. Essa claustrofobia é vista também no uso de som e principalmente do silêncio.

O vocal do coral, presente na maior parte da trilha sonora, se encaixa como uma luva. É no áudio que se nota outra influência clara de Kubrick no trabalho de Eggers – pense em 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), quando vemos o monolito na lua. O áudio de A Bruxa por si só não é destaque, mas ele constrói uma enorme tensão, que chega no seu auge graças às imagens perturbadoras e até mesmo icônicas que Eggers cria.

Em diversas entrevistas, o diretor menciona filmes como o já citado O Iluminado e ainda, Nosferatu (1922) e as diversas versões de Drácula como referências. São influências explíticitas durante a projeção. A mitologia por trás de algo sobrenatural ou infernal, a sombra, a crescente pressão psicológica, a atuação da filha mais velha e um bode chamado Black Philip. Todos esses elementos fazem de A Bruxa uma obra inesquecível.

Por Pirs Duval

Formado em Jornalismo pela UCPel, Roberto (pirs) morou três anos em Toronto, onde trabalhou crítico de cinema para diversos veículos.

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