A ausência da presença em Os Jovens Baumann

Oito pessoas jogam “queimada”, uma brincadeira que consiste em tentar eliminar o outro com o arremesso de uma bola. Ao encostar no jogador adversário o mesmo deve sair. Essa recreação é conhecida também sob o nome de “jogo do mata”. É com uma sequência desse jogo que o longa Os Jovens Baumann (2018) se inicia. Podemos interpretar a primeira cena como uma metáfora do que virá a ser narrado. Como a natureza também pode ser metáfora. A vida burguesa. O descontentamento. Porém, a atenção do filme está muito mais em como os primos são eternizados no espaço, do que como eles desaparecem do mesmo.

O filme é estreia de Bruna Carvalho Almeida na direção e foi selecionado para o 51º Festival de Brasília. Em entrevistas, a diretora evita conceitos como mockumentary ou falso documentário para descrever o longa. De uma ousada reconstituição de filmagens de VHS dos anos 90, o trabalho de fotografia e montagem harmonizam com a narrativa, que gradualmente vai da diversão à tensão.

Os oito primos da família Baumann, maior sobrenome da região Santa Rita D’oeste, em Minas Gerais, se encontram todos os verões.  O casarão na fazenda onde é cultivado o café é cenário das reuniões da última geração da família. Os encontros são regados a cerveja, cigarros e histórias que vão de roubos em Paris à reforma agrária, demonstrando uma fluidez que pode ser interpretada como superficial ou de consciência de um grupo de jovens da elite mineira.

O fio narrativo é dado através da voz em off de uma jovem que encontra as fitas 25 anos depois. Os primos desapareceram, o caso foi encerrado, o casarão vendido e a fotografia quase retorna à misticidade original de aprisionamento. Os jovens captados por ela findam sua existência no registro e esse é o único elo entre passado e presente. A diretora tem total domínio da intenção e usa, além do formato 4×3 e 16:9 da tela para ir e vir no tempo, a decadência do casarão, que destruído pelo tempo serve como retrato de uma elite que já não está na hierarquia, que em detrimento do tradicional acaba perdendo a juvenilidade. Os primos não desaparecem só fisicamente, eles também acabam com a linhagem Baumann.

O longa é um respiro na atual cinematografia brasileira. Longe de ser uma crítica aos filmes produzidos nos últimos anos no Brasil, que cada vez mais têm cunho político e social, a produção ainda traz uma desconcertante visão da burguesia brasileira, que não sabendo mais como se manter no topo, opta por se ausentar da história. Entretanto, o estilo com que a narrativa é elaborada traz uma leveza, vezes cômica e vezes nostálgica de jovens se relacionando, com suas diferenças e aproximações, acima de tudo é um filme de encontros.

A última sequência também é uma brincadeira. Os primos correm entre os pés de café, só que dessa vez as imagens são reproduzidas de trás pra frente, brincando com o espaço e deixando a última aparição dos jovens como deslocamento da temporalidade linear, eles não desaparecem da história, eles rumam para um eterno esconde-esconde. É um filme perturbador, divertido e nostálgico, como toda reunião de família.

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