50º Festival de Brasília: Panorama do I FestUniBrasília

A histórica 50ª edição do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro apresentou, em duas sessões matutinas, o inédito Festival de Cinema Universitário de Brasília, exibindo dezenove curtas provindos das principais escolas de cinema do Brasil, fornecendo um panorama das mais diversas sensibilidades em presente ebulição, que apontam a novos horizontes a ser alcançados em futuro próximo na produção nacional. Como astutamente apontado em debate posterior à segunda sessão, a mostra facilmente configura contraponto à exibição, na noite anterior, de Vazante (2017), de Daniela Thomas, filme que rendeu discussão acalorada em todos os cantos do festival, relativa às escolhas narrativas tomadas na representação da escravidão e da negritude em geral. Thomas, cineasta branca, chegou a afirmar em debate que “talvez hoje não faria este filme”, fator sintomático da abertura às complexidades na discussão social na arte, principalmente pelo desafio à posição dos realizadores brancos na retratação da experiência negra. Os filmes universitários, ao contrário, foram amplamente realizados por cineastas negros, que usam ativamente sua voz para tomar a posse do discurso. Não cataloguei em dados exatos, porém é notável que a grande maioria do elenco dos filmes exibidos seja composto por atores negros, algo ainda raro no cinema brasileiro.

Vários filmes compartilham recorrências temáticas e enfrentamentos políticos, como o urgente questionamento dos centros urbanos e a relação do cidadão brasileiro com estas estruturas opressivas. O Homem que Não Cabia em Brasília, de Gustavo Menezes (UnB), recorre à mitologia e os mecanismos glauberianos para construir jocoso questionamento à constituição do espaço público do plano piloto brasiliense. Um morador de rua (Wellington Abreu) permeia diversas localidades para apontar as contradições do suposto projeto inclusivo, desafiando aos gritos a moral burguesa imperante representada por arquétipos como o policial, o segurança e o executivo engravatado. Fora de Quadro, de Txai Ferraz (UFPE), penetra os lares de quatro cidadãos periféricos recifenses, cuja comunidade está ameaçada de despejo para dar lugar a uma rodovia. O apelo à memória afetiva através do inteligente implemento de fotos antigas reafirma a humanidade e as particularidades postas em cheque pelas estruturas econômicas.

Deus, de Vinicius Silva

Se, em Fora de Quadro a reconstrução do espaço é uma iminência, os seguintes três filmes podem-se entender como retratos de um “Brasil canteiro de obras”. Latossolo, de Michel Santos (UFRB), é um filme-ensaio que explicita nossos abismos sociais através de uma montagem que diretamente relaciona veículos, máquinas, lares e hábitos numa lógica de contraposições, desembocando em poderosa conclusão em que os corpos retornam ao barro, à origem da humanidade. Vazio do Lado de Fora, de Eduardo BP (UFF), frontaliza a indistinção entre espaço público e privado ao alegorizar a demolição da Vila Autódromo através de uma série de situações em que uma comunidade de habitantes de escombros persiste, convivendo com os uniformizados agentes de sua destruição ou festejando ao som de MC Pocahontas. Essa Barra Que É Gostar de Você, de Madiano Marcheti (PUC-Rio), coleciona corpos, histórias e canções ao, através da forma, percorrer a totalidade de um bar de karaokê enquanto a cidade ao redor é reconfigurada, o som das obras invadindo este espaço de convivência. Esse filme, vale notar, apresenta um interessante questionamento do dispositivo ao, em certo momento, trazer à tela de cinema o vídeo de karaokê com suas imagens de estoque e indicação de letras na tela.

Vazio do lado de fora, de Eduardo BP

A negritude gay – masculina – comparece em peso através dos filmes seguintes. Afronte, de Bruno Victor e Marcus Azevedo (UnB), coleção de cenas e testemunhos que discutem diretamente questões como o cinema negro, o poder transformador do afeto entre gays negros, as dificuldades de uma drag queen de classe baixa, residente de cidade satélite, em se deslocar para exercer sua arte, e a pura liberdade de expressão. Pele Suja Minha Carne, de Bruno Ribeiro (UFF), retrata a experiência de descoberta de um jovem negro gay e a represália que sofre após beijar seu amigo. O Arco do Medo, de Juan Rodrigues (UFRB), e A Outra Caixa, de Amanda Devulsky (UnB), são ensaios sobre expressão e olhar sobre corpos negros, Juan recorrendo à história das mulheres de diversas gerações da própria família para refletir sobre a resistência de seu corpo, Amanda a signos, cores e sangue ao questionar as imposições coloniais de gênero sobre a carne. Ambos podem ser vistos como subversões, atualizações e/ou homenagens ao antológico Alma no Olho (1971) de Zózimo Bulbul.

Pele Suja Minha Carne, de Bruno Ribeiro

As mulheres e as angústias que assolam suas existências são representadas por filmes bastante diferentes entre si, que também apontam o potencial criativo residente no crescimento de cineasatas mulheres no ofício. Com os Pés no Chão, de Marise Urbano (UFBA), opõe as imagens do cotidiano de uma mulher em letargia dentro de seu lar ao som de uma entrevista com Dilma Rousseff e de falas do filme Big Jato (Cláudio Assis, 2015), tanto questionando a inércia coletiva da população brasileira quanto ativamente defendendo uma ideia de cinema. Mira, de Janaina da Veiga (Unespar), única animação da mostra, explora o universo imaginário de uma jovem menina, embarcando em uma aventura após fazer um pedido a uma estrela cadente. Serenata, de Dani Seabra (USP), recorre – de maneira atrapalhada, no âmbito da linguagem – ao terror para refletir sobre os medos que assolam as mulheres urbanas, concretizados na figura de um homem-sombra de olhos luminosos que persegue a protagonista, sendo levada pelo pavor a perder sua própria noção de identidade e de humanidade. Sobejar, de Helena Volani (Unespar), propõe um ensaio de autorreflexão no qual a realizadora entra em termos com a própria depressão, através de imagens sensíveis colocadas diante de um texto confessional. Procura-se Marina, de Yolanda Margarida (IFGoiás), acompanha um dia na vida de uma adolescente bulímica que altera seu comportamento de acordo com cada situação, constantemente se ressignificando na construção de sua própria imagem, análoga às vivências de diversas mulheres na sociedade machista. Fervendo, de Camila Gregório (UFRB), um dos melhores filmes na mostra, questiona pelo dispositivo das imagens de celular (Snapchat) o constante distanciamento das relações interpressoais. Se passando inteiramente em um banheiro, a protagonista, conversa com diversas pessoas enquanto mediada por seu celular, incluindo a negociação de pílulas de aborto para sua melhor amiga. Seu encontro físico só é visto através das imagens que as amigas escolhem divulgar online, e nunca pelo registro da câmera cinematográfica. Bambas, de Anna Furtado (FAAP-SP), retrata as experiências de mulheres sambistas de várias gerações, evidenciando suas expressões e seu canto de constante resistência diante das adversidades do mercado artístico.

O Chá do General, de Bob Yang

Michel, de Guilherme Novello (Unisinos), acompanha o retorno do homem titular para sua casa após a prisão, escolhendo não revelar o crime que cometeu, fornecendo ao espectador apenas a especulação de acordo com a maneira como cada pessoa reage a sua presença. O Chá do General, de Bob Yang (FAAP-SP), elabora um retrato sensível do abismo geracional em uma família imigrante chinesa, à visita do neto de um senhor saudosista e tradicionalista a sua casa, neto este também descobrindo suas sensibilidades ao vasculhar e vestir os adereços da avó morta. A relação primeiramente distante entre avô e neto, reflexo da distância entre pai e filha, se torna, no espaço de dois dias, uma genuína amizade, em uma singela homenagem aos laços afetivos possíveis dentro das estruturas familiares – o verdadeiro ideal. Deus, de Vinícius Silva (UFPel), acompanha o cotidiano de Roseli, mãe solteira, na batalha diária travada pelas mulheres negras periféricas, colecionando momentos de maneira leve e sensível, de modo a legitimar o bordão ao qual o título alude e que tornou sua campanha de financiamento coletivo um estrondoso sucesso: “conheci Deus, e ele é uma mulher negra”.

Fervendo, de Camila Gregório

O conjunto completo de filmes demonstra a força revolucionária que, em tempos de crise moral, vem se desenvolvendo nos principais centros de ensino cinematográfico do Brasil, comprovando que o cinema brasileiro, um dos melhores do mundo, guarda um imenso potencial transformador. Nesta mostra já se notam vozes merecedoras de persistir em nosso cinema, cujos eventuais próximos projetos já me deixam ansioso. Destaco, por julgamento pessoal de qualidade fílmica geral (sem negar qualidades aos curtas não mencionados), os seguintes filmes: Fora de Quadro, Latossolo, Vazio do Lado de Fora, Pele Suja Minha Carne, Fervendo, O Chá do General e Deus. A iniciativa do Festival de Brasília de dar espaço, neste que é o encontro mais tradicional do cinema nacional, aos novos e promissores cinemas, significa imensamente a nosso cenário. Em tempos de sucateamento, censura e ameaça à produção audiovisual, nossos realizadores resistem. Viva o cinema brasileiro!

 

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