10 melhores filmes de 2016

Chegou o final do ano e também o momento de realizar um balanço dos filmes assistidos durante o período. A necessidade de enumerá-los por ordem de importância e superioridade. É uma batalha incansável e por vezes até previsível, cansativa. Admitimos que elencar os melhores do ano de maneira hierárquica não é algo que nos move. Existe sim a necessidade de identificar o melhor do ano, mas de maneira alguma ir desmerecendo por ordem os outros nove filmes. A ideia de realizar este registro foi de reunir dez produções de cada um dos colaboradores do Calvero de uma maneira livre que leva em consideração os lançamentos do circuito comercial e também as produções assistidas em festivais ao longo do ano. O objetivo sempre foi buscar uma relação de filmes que trouxesse certo frescor, o que alcançamos sem muito esforço. Nesta composição baseada nas listas de três dos colaboradores do site chegou-se a uma listagem geral que você confere abaixo.

aquarius0

Aquarius, de Kléber Mendonça Filho
De Cannes, passando pelo Festival de Gramado e chegando às listas das principais publicações sobre cinema do mundo em meio à protestos contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Aquarius atingiu um patamar que poucos filmes nacionais conseguiram nos últimos anos, talvez décadas. Afinal, integrar as listas da Sight and Sound e Cahiers du Cinèma não é para qualquer realizador. Após elogiados trabalhos e o emblemático Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho retorna ao retrato da classe média brasileira e através de três grandiosos atos a vida de Clara (Sonia Braga em performance excepcional) e o prédio onde mora, o Aquarius. Ela é uma jornalista, crítica musical e escritora aposentada que chegou aos 60 anos sobrevivendo às adversidades que o tempo impõe. Mescla de filme-memória com nuanças de musical, o filme de Mendonça Filho oferece um olhar que destaca as contradições do brasileiro sem fugir da auto-crítica. E é exatamente aí que reside a beleza de Aquarius. por Renato Cabral

americanhoney_trailer2

Docinho da América, de Andrea Arnold
Saindo da Inglaterra e se aventurando na sua primeira empreitada nos Estados Unidos, Andrea Arnold realiza este road movie que mescla o clássico com o contemporâneo. Na história da jovem Star (Sasha Lane) somos levados pelas estradas americanas no melhor estilo já visto em clássicos do gênero, porém incluindo em sua trama algo característico de sua estética e temáticas: os jovens e sua busca por algum rumo. A estrada como metáfora funciona para o bando que vaga por cidades vendendo assinaturas de revistas e levando um estilo de vida nômade. Sasha Lane brilha com uma naturalidade intensa neste seu primeiro trabalho como atriz. – por Renato Cabral

tocome

O que está por vir, de Mia Hansen-Løve
Mais uma exímia interpretação de Isabelle Huppert neste excelente drama, escrito e dirigido por Mia Hansen-Love, no qual se insere na tradição da intelligentsia acadêmica francesa. Huppert interpreta Nathalie, uma professora de filosofia, adepta à lógica e à abstração, cuja estabilidade se desmantela diante de seus olhos – o casamento, a mãe doente, as expectativas idealistas postas sobre seu aluno-prodígio. Dito isto, nunca se cai no melodrama, pois um ritmo naturalista de dramatização se alia à direção discreta, reflexo do meio em que se inserem as personagens. Após a morte da mãe, Nathalie adquire um organismo-satélite na forma da gata herdada, Pandora, com quem interage e projeta quando seus sentimentos vêm à tona. Juntas, se deslocam a um retiro anarquista, organizado pelo dito aluno, onde Nathalie se vê diante de dilemas ideológicos, em dualidade velhice-juventude com os jovens intelectuais. É importante notar que tamanha gama de reflexões deve principalmente às expressões faciais, as reações, uma valorização à atriz que ganha irmão malvado em Elle, duas facetas complementares. por Matheus Strelow

tonierdmann_02

Toni Erdmann, de Maren Ade
Em Todos os outros (Alle Anderen, 2009), a cineasta alemã Maren Ade abordava com leveza e naturalidade, sempre com uma dosagem de estranhamentos, o relacionamento de um jovem casal de namorados. Em Toni Erdmann, é a ligação pai e filha que ganha a atenção da realizadora. Ao longo de suas quase três horas de duração, o conflito entre o espírito corporativista dela e os modos excêntricos dele aos poucos se dilui em aspectos comuns aos dois. Rendendo comoções e gargalhadas, impressiona que, mesmo em seus momentos mais óbvios, o longa mantenha sua ternura e fidelidade à proposta, seja no ritmo ou no desenvolvimento dos personagens. Por ser essencialmente um estudo sobre suas figuras protagonistas, o filme alcança sua excelência justamente ao atingir plenamente tal ambição.por Maurício Vassali

maxresdefault-1

Certas mulheres, de Kelly Reichardt
Kelly Reichardt prossegue com sua investigação do trivial com uma antologia de três histórias sobre mulheres que vivem na mesma região interiorana estadunidense, cujas vidas eventualmente se entrecruzam através de ambientes ou até amantes em comum. São situações simples, representadas numa morosidade naturalista (o episódio mais extremo, envolvendo um sequestro, nunca sugere tensão ou perigo) que evidencia o silêncio, o olhar, o não dizer, a ponto de um simples não acenar de volta comportar imenso poder dramático.  Reichardt é uma das diretoras mais interessantes do cinema norteamericano, e após filmes como Antiga Alegria, Wendy e Lucy e Movimentos Noturnos, entrega aqui o que pode-se dizer ser seu trabalho mais completo, apropriando-se aqui do que melhor desenvolveu ao longo da carreira. Filme de força que distancia as personagens entre si, mas aproxima o espectador da experiência. por Matheus Strelow

elle_film_still

Elle, de Paul Verhoeven
Filme raro que genuinamente justifica a expressão “que loucura!”, percorrendo em linha tênue através de várias iterações da perversidade, questionando ativamente a noção de poder sistemático via olhos d’Ela, Michèle, Isabelle Huppert. A conhecemos pela primeira vez em pleno estupro. Seu agressor vai embora, Michèle calmamente arruma a bagunça, toma um banho e segue sua vida. É a partir daí que se elabora denso estudo através dos olhos desta mulher que, condicionada pela perversidade do patriarcado, imoralidade sádica. Em momento de ressignificação histórica, de apontamento da cultura do estupro no cinema e do abuso como recurso narrativo gratuito, é interessante deparar-se com reflexões de tamanha densidade sobre nossas condições sociais. Em jogo metafórico similar a Para a Minha Irmã (À ma soeur, Catherine Breillat, 2001), Elle inverte os valores através de uma quebra, aqui à metade da projeção, conclusão da perseguição de Michèle a seu estuprador. Mulher em alta posição de poder, resiste diariamente, através da soberba, às provocações de subordinados, à pressão normatizadora da mãe, ao circo de idiotas que rodeia sua vida, ao exercer seu direito supostamente nato à individualidade. Quando as cartas se revelam e Michèle reage inesperadamente, as coisas ficam mais complicadas. Cabe a cada pessoa, com seus próprios códigos morais, se colocar no lugar dela. Um exercício de empatia necessário. – por Matheus Strelow

1079601

O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
O cinema de João Pedro Rodrigues sintetiza-se completo em O Ornitólogo, indicando um fechamento de ciclo e anúncio de novo caminho a ser trilhado. O fascínio pelo corpo e sua eventual morte sempre se viu filtrado pelos cânones da fé católica, em ressignificação queer nonsense de suas simbologias, com interesse especial por Santo Antônio de Pádua. Após Odete, Morrer como um Homem e A Última Vez Que Vi Macau, Rodrigues reencontra-se com a jornada anti-indivíduo de seu primeiro longa, O Fantasma, irmão mais próximo de O Ornitólogo. Fernando Martins de Bulhões (Paul Hamy), nome completo cujos planos-detalhe de sua identidade deixam claro, perde-se na correnteza enquanto cataloga aves em busca de cegonhas negras. Assim como incorporamos seu olhar através do binóculo, o vemos através dos olhos das águias, corujas e pombas que permeiam a jornada. Resgatado por duas chinesas católicas, depara-se com episódios cada vez mais surreais que gradualmente dissipam seu senso de identidade, antes norteado pela materialidade de suas posses perdidas. Trata-se de uma experiência cinematográfica singular, melhor aproveitada quanto menos se sabe sobre de antemão. Os mínimos detalhes aqui traçados não fazem justiça à grandeza de O Ornitólogo. por Matheus Strelow

pintando-as-unhas

A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa
A partir do cotidiano de Juninho, Eldo, Adilson, Menor e Neguinho, jovens moradores da periferia de Contagem, o diretor mineiro Affonso Uchoa vai além de uma rica observação social neste híbrido entre ficção e documentário. Aqui, cada um de seus personagens tem voz e não são apresentados como frações iguais de um único corpo. Esse respeito que tem pelos seus personagens evita que o espectador os veja simplesmente como “os meninos da periferia” em termos generalizados, já que cada um deles ganha contornos próprios. Ao mesmo tempo, o cineasta opta pelo retrato cru e evita amenizações que busquem transformar os protagonistas em figuras falsamente inocentes ou romantizadas. Contudo, tal dureza não é vendida como estética da miséria. Ela é necessária no retrato do contexto em que se inserem os personagens, uma realidade onde se mescla a proximidade da violência com a energia adolescente.  por Maurício Vassali

boi-neon

Boi Neon, de Gabriel Mascaro
O pernambucano Gabriel Mascaro explana sem nenhuma pieguice ou militância as intervenções humanas no que é de ordem ambiental. Fora o fato da dominação sobre animais domésticos, Boi Neon observa o “progresso econômico” em ambientes aparentemente ainda intocados. O filme vai além, entretanto, de simplesmente constatar tal relação. Ele sugere, inclusive, a fusão entre homem e natureza, seja na naturalidade com que a nudez é tratada, seja em belas composições como a da lasciva mulher que usa uma máscara de cavalo enquanto dança. Se serve muito bem a tal discurso, o olhar do cineasta o faz ainda mais a seus propósitos artísticos. A simetria de alguns quadros suga os olhos do espectador, tamanho seu cuidado. Cores e profundidade são trabalhadas com maestria pela fotografia louvável de Diego Garcia, que aposta também em uma iluminação inspiradíssima, evidente em momentos do cotidiano dos personagens e em inserts como o de um vaqueiro que acaricia seu cavalo. Neste recorte de cotidiano, ainda há espaço para certa discussão de gênero e um humor que soa tão natural quanto a presença de Juliano Cazarré na tela. por Maurício Vassali

cinemanovo_03

Cinema Novo, de Eryk Rocha
Para o público comum, que pouco teve contato ou conhecimento sobre esse momento da cinematografia brasileira, este filme de Eryk Rocha pode causar certo estranhamento por não usar de um formato clássico de documentário, mas mesmo assim serve de porta de entrada para que se descubra mais a respeito e instigue o espectador. Cinema Novo é uma verdadeira masterclass sobre o movimento e seus personagens (diretores, distribuidores, críticos, entre outros) e o processo de criação deles. Ao assisti-lo, faz lembrar da importância do cinema como plataforma política e social, algo necessário no cenário atual. Seu registro busca uma munição maior: a memória. Mas nunca cai em uma nostalgia ou tom dramático simplório. É maduro e autocrítico ao mostrar, ao mesmo tempo, algumas contradições e a profunda riqueza do cinema realizado há mais de 50 anos atrás. Sua vitória em Cannes não é surpresa alguma. Uma triste percepção, no entanto, é constatar que esse capítulo tão importante da nossa história continue, muitas vezes, ainda quase esquecido ou ignorado pelo público brasileiro. por Renato Cabral

 

Os melhores por Renato Cabral

Melhor filme do ano: Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
Outros destaques:
Cameraperson, de Kirsten Johnson
O que está por vir, de Mia Hansen Love
Docinho da América, de Andrea Arnold
Woo-ri-deul, de Ga-Eun Yoon
Poesia sem Fim, de Alejandro Jodorowsky
Elle, de Paul Verhoeven
Toni Erdmann, de Maren Ade
Cinema Novo, de Eryk Rocha
A Piscina, de Luca Guadagnino

 

Os melhores por Matheus Strelow

Melhor filme do ano: O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
Outros destaques:
Aquarius, de Kléber Mendonça Filho
Elle, de Paul Verhoeven
Certas Mulheres, de Kelly Reichardt
Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater
A Bruxa, de Robert Eggers
De Longe te Observo, de Lorenzo Vigas Castes
Docinho da América, de Andrea Arnold
O Que Está por Vir, de Mia Hansen-Løve
A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa

 

Os melhores por Maurício Vassali

Melhor filme do ano: Toni Erdmann, de Maren Ade
Outros destaques:
Aquarius, de Kléber Mendonça Filho
Boi Neon, de Gabriel Mascaro
O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues
O Lagosta, de Yorgos Lanthimos
A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa
Manchester à Beira Mar, de Kenneth Lonergan
Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven
Era o hotel Cambridge, de Eliane Café
Combo de documentários: Cinema Novo, de Eryk Rocha; A 13ª emenda, de Ava Duvernay; Então Morri, de Bia Lessa, Dany Roland.

Os melhor por Pirs Duval

Melhor filme do ano: A Bruxa, de Robert Eggers
Outros destaques:
Green Room, de Jeremy Saulnier
Cemitério do Splendor, de Apichatpong Weerasethakul
Toni Erdmann, de Maren Ade
Cavaleiro de Copas, de Terrence Malick
Manchester à Beira Mar, de Kenneth Lonergan
Mais Forte que Bombas, de Joachim Trier
O Lagosta, de Yorgos Lanthimos
Anomalisa, de Charlie Kaufman e Duke Johnson
A Chegada, de Dennis Villeneuve

 

Um comentário sobre “10 melhores filmes de 2016

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *